Capítulo Sessenta e Dois – Que Tal Considerarmos Apenas um Mal-entendido?
Capítulo Sessenta e Dois – “Não Podemos Simplesmente Considerar Isso um Mal-Entendido?”
A conversa entre Jiang Yingzi e sua filha era algo que Chen Nuo desconhecia. Ainda assim, ele já conseguia imaginar quase completamente o que se passava na mente daquela mulher — mesmo que não acertasse em cheio, não estava longe disso.
No fundo, ele sentia certo repúdio por essa atitude. Pensamentos assim, afinal, nascem do lado mais sombrio do ser humano. Testemunhar de perto um “pedido” tão claramente marcado pelo tom de uma negociação comercial... Ver uma mãe tratando a própria filha como mercadoria, entregue em troca de algum benefício...
O coração de Chen Nuo se enchia de sentimentos contraditórios.
Ao sair do restaurante, deparou-se com a secretária de Jiang Yingzi, que o aguardava do lado de fora de maneira impecável. Após Chen Nuo recusar a oferta de um carro para levá-lo, a secretária, cautelosa, trouxe a bicicleta dele, entregou-a respeitosamente e fez uma reverência na despedida.
Só depois que Chen Nuo se afastou, a secretária ousou endireitar as costas. Por vezes, essa sociedade da Coreia do Sul era realmente marcada por uma rígida hierarquia.
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Zhang Linsheng fora buscar a mãe no trabalho. O pai, que fazia bicos em uma oficina mecânica, havia conseguido um serviço grande de modificação de veículos e, por isso, teria de trabalhar durante a madrugada. A mãe, durante o dia, era faxineira no mercado municipal e, à noite, fazia um extra limpando uma boate.
Naquele dia, sem o pai disponível, coube a Zhang Linsheng buscar a mãe, como de costume.
A boate em questão era uma casa de karaokê. O jovem vagava pelo saguão, observando a decoração luxuosa, o piso de mármore reluzente sob seus pés, o lustre de cristal imponente sobre a cabeça. Ele se sentia deslocado, quase intimidado. Em sua visão, lugares como aquele eram cenário de filmes, frequentados apenas pelos verdadeiros “chefões” das histórias.
Ele, um mero “chefão” da Oitava Escola, não se sentia pertencente àquele ambiente.
Os seguranças o reconheceram de visitas anteriores e não o incomodaram. Apenas pediram que esperasse no sofá do canto, sem circular pelo salão.
No intervalo, Zhang Linsheng foi ao banheiro, onde encontrou algumas funcionárias. As moças, vestidas em trajes de gala baratos, decotes profundos e costas nuas, provocaram o adolescente, que não resistiu e lançou olhares curiosos. O cheiro forte de perfume e maquiagem misturava-se ao ar, deixando o jovem ainda mais desconcertado.
Algumas delas o reconheceram e até brincaram com ele. Uma, vestida de vermelho — talvez chamada Xiaoxia, ou algo parecido —, aproximou-se sorrindo e beliscou Zhang Linsheng. Ela exalava perfume, o decote em V revelava generosamente o colo, com um vale profundo entre os seios.
O cheiro de álcool e cigarro misturava-se ao perfume, provocando no adolescente uma sensação estranha e excitante. Ele até corou.
— Esse é o filho da tia Luo, não é? — riu uma das moças. — Bonitinho, viu?
— Gostou dele? Se gostou, leva pra casa! Bem melhor que aquele cachorrinho de antes.
— Olha só o que você diz! Ele até corou de vergonha...
As garotas caíram na risada. Xiaoxia se aproximou, apertou o braço de Zhang Linsheng, meio bêbada, e disse brincando:
— Deixem o menino em paz, vejam como ele está sem jeito. Que garoto dedicado à mãe! Fique quietinho, espere sua mãe terminar o turno. E nada de ficar olhando para onde não deve! Ainda é cedo para agir como os velhos tarados.
Com um sorriso, ela beliscou de leve o rosto dele e se afastou com as outras.
Zhang Linsheng ficou parado, encarando o vulto da moça. O vestido justo, as costas à mostra, a cintura marcada, tudo aderente ao corpo — as curvas do quadril e da cintura faziam o jovem corar ainda mais.
As pernas torneadas sobre os saltos reforçavam a silhueta sensual.
Sentindo o coração disparado, Zhang Linsheng desviou rapidamente o olhar. Entrou no banheiro, urinou, depois jogou água fria no rosto e enxugou-se com papel, ainda atordoado.
O jovem não sabia ao certo o que sentia. Voltou para o salão e sentou-se no canto, olhando ao redor, sem saber exatamente o que buscava. No fundo, desejava ver de novo a moça de vermelho — mesmo que fosse só de relance.
As portas dos camarotes estavam fechadas, mas o burburinho lá dentro — luzes, bebidas, música, risadas — transbordava para o corredor. Garçons passavam empurrando carrinhos com bebidas e comidas caras, que Zhang Linsheng nem reconhecia. Sabia apenas que tudo ali custava muito dinheiro.
Ouvia os pais comentarem que o consumo mínimo por noite em um camarote era muito mais alto do que o salário mensal de sua mãe.
Não sabia quanto tempo se passou. Com o pescoço dolorido, levantou-se para se alongar e viu a mãe surgir vestida com o uniforme de faxineira, vindo do fundo do salão.
— Pode ir pra casa, filho. Hoje o chefe alugou alguns camarotes para clientes que vão passar a noite. Perguntou se alguém queria fazer hora extra para a limpeza final — são mais cinquenta reais. Eu e mais duas ficamos. Eles devem ficar até o amanhecer. Quando terminar, vou descansar na sala de funcionários. Você vá pra casa dormir cedo, amanhã tem aula.
O rosto áspero da mãe transmitia carinho ao acariciar o filho, mas ela logo foi chamada por uma colega e saiu apressada.
Zhang Linsheng não tinha vontade de argumentar, virou-se e foi embora. Ao sair, ainda olhou para o salão com um sentimento de saudade.
Despediu-se do segurança na porta e deixou a boate.
No estacionamento, cercado de carros de luxo, Zhang Linsheng parou, tirou um cigarro Hilton de seis reais do bolso e acendeu. Deu algumas tragadas, olhando para a entrada iluminada da boate, de onde, de vez em quando, se ouvia o eco de alguma canção.
Não sabia ao certo o que esperava. Terminou um cigarro, acendeu outro.
Quando se preparava para ir embora, ouviu passos apressados de saltos altos batendo no chão. Uma moça saiu cambaleando do salão. Sob o sobretudo, as curvas sensuais apareciam, com toques de vermelho intenso e familiar. Ela andava sem firmeza, sinal de que já havia bebido bastante.
Zhang Linsheng parou, observando de longe, tímido.
A moça desceu as escadas, trôpega, mas com pressa. Foi então que alguns homens saíram da porta. O primeiro, de rosto pouco visível, falava alto:
— Ei! Vai fugir mesmo? Segurem ela!
De repente, três ou cinco homens cercaram a jovem de vermelho na calçada próxima ao estacionamento.
As vozes chegavam aos ouvidos do rapaz, trazidas pelo vento.
— Sabia que você ia tentar fugir! O que foi? No camarote, toda animada comigo, te dei gorjeta em dobro, combinei que hoje você ia comigo, disse que ia trocar de roupa e saiu de fininho? Isso não se faz!
— Irmão Wang, minha amiga veio me buscar, fiquei apressada e esqueci de avisar você, foi mal, foi mal... Da próxima vez eu te compenso, juro que vou te acompanhar, vou cuidar bem de você...
— Para de conversa fiada! Reservei quarto por três dias, toda vez você me enrola!
— Não é isso, não é o que você pensa, irmão Wang. Que tal amanhã? Amanhã eu te levo para jantar, pode ser?
— Vai pro inferno! Da primeira vez foi sua mãe, depois sua tia, hoje é sua amiga! Você tá de gozação comigo? Hoje eu vou resolver isso, senão vou passar vergonha!
Começaram a empurrá-la.
A moça de vermelho ainda tentava ser fofa, mas, diante da impaciência do homem, acabou sendo puxada sem delicadeza. Na confusão, a bolsa caiu no chão, um dos saltos se perdeu.
Um dos homens segurou-a pelo braço, arrastando-a como um filhote de cachorro; ela, visivelmente bêbada, já não tinha forças para resistir.
Nesse instante, alguém surgiu correndo, empurrou o homem e agarrou a mão da jovem vestida de vermelho, fugindo com ela.
— Mas que droga! — gritou o homem, caindo no chão, enquanto os outros corriam atrás.
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Zhang Linsheng puxava pela mão aquela moça cujo nome nem sabia direito. Ele próprio não entendia como, num impulso, fizera tamanha loucura.
Correram apenas alguns passos antes de serem alcançados. A moça, descalça de um pé e embriagada, não conseguia correr rápido.
Três ou quatro homens os encurralaram sob um poste de luz.
— Ora, então era isso! Não é à toa que estava me enrolando! Criou um cachorrinho novo, foi? Quero ver que moleque ousa me desafiar.
O tal irmão Wang se aproximou, xingando, com o rosto fechado.
A moça de vermelho empalideceu. Olhou para o jovem ao seu lado, mordeu os lábios, e sussurrou apressada:
— O que pensa que está fazendo? Quer morrer? Não se meta, vá embora, isso não é problema seu!
Virou-se para os homens, implorando:
— Por favor, ele não tem nada a ver com isso, só veio me entregar uma encomenda. Não se incomodem com ele, está bem? Eu vou com vocês, vamos lá comer alguma coisa.
Empurrou Zhang Linsheng:
— Vai embora! Está surdo? Não se mete no que não te diz respeito!
— Eles... — tentou dizer Zhang Linsheng, sem saber o que fazer.
A jovem, aflita:
— Ele é só um amigo, estamos brincando! Vai logo!
A mente de Zhang Linsheng parecia zunir. Sem saber por quê, teimou em não sair do lado daquela mulher, cerrando os punhos, os dentes, e permanecendo ali, desajeitado, mas firme.
— Olhem só, o rapazinho é durão! — disse Wang, aproximando-se. — Quero ver que cara é esse seu cachorrinho...
Ao se aproximar, Wang finalmente pôde ver o rosto de Zhang Linsheng sob a luz do poste. De repente, ficou paralisado. Não deu mais um passo, apenas olhou, boquiaberto.
Segundos depois, começou a tremer, o rosto antes ruborizado pelo álcool agora esbranquiçado. Duas gotas de suor frio escorreram-lhe pela testa.
— Wang? O que foi? Vai bater nele ou não? — provocou um dos parceiros.
— Ba... — começou Wang, mas logo se deu conta do perigo, gritando: — Bater o quê?! Vocês só sabem arranjar confusão! Vão querer morrer, é?
As pernas tremiam. Olhava para Zhang Linsheng, sentindo um calafrio percorrer o corpo.
Meu Deus!
Como fui topar logo com esse pequeno demônio?
Os outros podiam não conhecê-lo, mas Wang sim! Lembrava-se perfeitamente do final daquela tarde, dias atrás, na rua Tangzi, dentro da van...
Sim, Wang era o motorista naquele episódio.
— Ninguém se mexe! Fiquem parados! — gritou Wang, indo até os parceiros e puxando-os para trás. Baixou a cabeça e, voltando-se para Zhang Linsheng, murmurou:
— Ir... não, senhor, desculpe, eu realmente não reconheci o senhor antes... foi mal, peço desculpas! Por favor, não se incomode, está bem? Foi tudo um mal-entendido, só isso! Eu juro que não sabia que Xiaoxia estava com o senhor! Foi minha culpa! Estou indo embora agora, tudo bem? Vamos fingir que nada aconteceu?
Zhang Linsheng ficou atônito, encarando o homem à sua frente, demorou um instante para perguntar, hesitante:
— Você... me conhece?
— Conheço, claro! Mesmo que não conhecesse antes, agora jamais esqueceria, senhor! Você é o chefão da Oitava Escola, não é? Foi mal, foi mal mesmo! Não ouso mais me meter com você...
Zhang Linsheng: ???
Como assim... minha fama de chefão da Oitava Escola já chegou tão longe assim?
Vendo o silêncio do rapaz, Wang, num lampejo de esperteza, fez sinal para os comparsas e fugiu apressado.
A moça de vermelho ficou olhando, estupefata, para as costas de Wang e, depois, para o jovem ao seu lado, com expressão fria e resoluta...
— Quem... quem é você, afinal?
Quem sou eu?
Bem, moça, talvez você não acredite... mas até eu mesmo já não sei quem sou de verdade...
Desde quando o chefão da Oitava Escola tem tanta moral assim?
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[Recomendação forte! Por favor, ajudem a votar, estamos em disputa no ranking.]
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