Capítulo Sessenta e Quatro – Aquela Noite
Capítulo Sessenta e Quatro – Aquela Noite
A casa daquela mulher chamada Xia, estava uma completa bagunça.
Era um apartamento antigo, com dois quartos. A sala era pequena, só cabia uma mesa de jantar para quatro pessoas e, com um sofá colocado, já ficava cheia demais.
Sobre a mesa havia uma bolsa jogada, no chão perto da porta, sapatos e sandálias espalhados. No sofá, roupas sujas. Restos de comida sobre a mesa, largados sem nenhum cuidado.
Zhang Linsheng, sem experiência, jamais imaginaria que aquela garota, tão perfumada e delicada, pudesse ter um lar tão desorganizado assim – se ele fosse dez anos mais velho, já teria entendido que a casa de uma mulher solteira costuma ser assim mesmo.
“Não fique aí parado! Sente-se!”
Zhang Linsheng hesitou, suas roupas estavam molhadas, não queria sujar o sofá, então se acomodou em um banquinho de madeira, sentando apenas a metade do corpo.
A menina correu para dentro do quarto e logo voltou com um casaco masculino e uma calça de moletom.
“Vista isso, comprei para meu pai, ainda não levei para ele, está novo. Aqui só tenho essa roupa de homem.”
Ela jogou as peças no colo de Zhang Linsheng, e acrescentou: “Troque no meu quarto, vou tomar banho logo, estou encharcada.”
Parecia fazer sentido.
Zhang Linsheng estava de casaco, a chuva fina da primavera não o molhou por completo, porque viera de bicicleta e ela usou sua capa para protegê-lo, então apenas o casaco estava molhado, o resto seco.
Mas a garota estava diferente, vestia apenas um vestido vermelho de decote profundo e costas nuas, já completamente encharcado.
Assim que terminou, entrou direto no banheiro, fechou a porta, logo o barulho do chuveiro começou.
Zhang Linsheng, com seus dezoito anos, jamais passara por uma situação dessas. Sentou-se, atônito, ouvindo o som da água e seu coração batendo descompassado.
Na mente, só conseguia lembrar da imagem dela no KTV, vestindo aquele vestido vermelho, justo e fino, delineando aquela silhueta...
Sacudiu a cabeça, pegou as roupas e entrou no quarto.
Ao passar pela porta do banheiro, hesitou um instante... Mas afinal, era apenas um garoto, ainda não tinha idade para safadezas, não fez nada indecente.
Havia dois quartos, um trancado, outro aberto.
Entrou, encontrou o interruptor na parede, acendeu a luz e ficou espantado.
O quarto estava ainda mais bagunçado.
A colcha da cama não estava arrumada, amontoada de qualquer jeito; era uma cama de casal, mas cheia de roupas largadas ao lado. Uma cadeira ao lado do guarda-roupa, com bolsa em cima, uma meia pendurada no encosto. Uma penteadeira antiga, com o espelho rachado, remendado com cola, parecendo uma cicatriz. O tampo coberto de maquiagens e batons espalhados.
No chão, duas caixas abarrotadas de roupas.
Resumindo, aquele pequeno quarto era tão cheio e desorganizado que mal dava para encontrar onde pisar.
E o ambiente estava impregnado de um perfume.
No criado-mudo, um maço de cigarros, o cinzeiro lotado, e um tubo de batatas fritas aberto.
Zhang Linsheng trocou de roupa rapidamente.
Sem ousar olhar muito, saiu do quarto e voltou à sala.
A garota ainda tomava banho, o som da água continuava.
Zhang Linsheng olhou o relógio, já era tarde...
Mas seu pai estava de turno noturno, e a mãe não voltaria para casa.
O rapaz tentou se tranquilizar...
Sentia que talvez devesse ir embora, mas... não queria. Não sabia o que estava esperando, nem tinha grandes expectativas. Apenas queria... esperar mais um pouco.
Sim, pelo menos esperar a dona da casa sair, cumprimentá-la antes de ir.
Assim arranjou uma desculpa para si mesmo.
•
A chuva ainda caía, incessante.
Chen Nuo sentiu o quarto abafado e foi abrir a janela.
Olhou o relógio, virou-se e disse: “Vamos, vou te levar para casa. Quer que o motorista venha te buscar?”
“Eu... posso não voltar hoje?” A menina corou, levantando o olhar com uma expressão de súplica para Chen Nuo.
Seu coração disparou, mas ele fingiu sorrir: “O que foi? Quer se entregar?”
Li Yingwan ficou em silêncio, falando baixo: “Mamãe me perguntou tanta coisa hoje, perguntou... perguntou até onde eu e você chegamos depois de tanto tempo juntos.”
“E você respondeu o quê?”
“Eu... disse que estava treinando trava-línguas.”
Apesar do clima meio estranho, Chen Nuo não conteve o riso.
“Eu... mamãe conversou muito comigo hoje... Se eu voltar, vai falar de novo. Não quero ouvir, tudo bem, Oppa?”
O rosto de Li Yingwan estava tão vermelho que parecia sangrar, murmurando como um mosquito: “Eu... eu quero dormir aqui hoje, pode ser?”
Chen Nuo suspirou.
Olhou para a menina, cabeça baixa e expressão teimosa.
Parecia se fundir com aquela “Vaga-lume” do passado.
Acabou cedendo.
Chen Nuo foi para seu quarto.
“Apague a TV antes de dormir, você dorme no quarto da Yezi hoje.”
A porta se fechou.
•
O barulho do chuveiro, que parecia interminável, finalmente cessou.
Zhang Linsheng se endireitou, esperando ansioso diante do banheiro, mas ninguém saiu. O som do secador de cabelo veio do interior.
O rapaz suspirou, meio frustrado e se achou ridículo: o que estava esperando, afinal?
Não sabia, mas queria esperar mais um pouco.
Sim... esperar ela sair, cumprimentar e ir embora.
Pegou o maço de cigarros, estava vazio, amassou e jogou fora.
Sentiu-se inquieto, sem cigarro.
Lembrou do maço no criado-mudo do quarto.
Hm... Se eu entrar e pegar um, não tem problema, né?
Sem pensar direito, foi até o quarto, pegou um cigarro, e ao sair, bateu o pé na quina da cama, dobrando-se de dor, mas segurando para não gritar.
Mancando, caminhou para a sala, justo ao passar pelo banheiro, a porta se abriu.
A mulher apareceu, vendo o rapaz encolhido, com postura estranha, ficou surpresa e com uma expressão curiosa: “O que... está fazendo?”
Eh...
Zhang Linsheng suou.
Pensou, ergueu o cigarro e disse secamente: “Acabaram meus cigarros, peguei um no seu quarto.”
Ela conteve o riso, examinando o jovem: “Tem certeza que não estava ouvindo meu banho?”
“Não!” Zhang Linsheng respondeu apressado, corando.
Hm... Não era sempre tão cool, tinha um lado infantil.
A mulher riu por dentro.
Na sala, ela pegou um isqueiro e jogou para Zhang Linsheng: “Fume.”
Hm...
Zhang Linsheng hesitou...
Pensou: então... fumo e vou embora?
A mulher ligou a TV, procurou um canal de série, foi à geladeira, pegou duas latas de refrigerante, e de algum lugar surgiu um pacote de batatas fritas, que abriu com os dentes.
Sentou-se no sofá: “Senta, não fica aí parado, assiste TV.”
Zhang Linsheng, vermelho, usou o cigarro para disfarçar, sentando ao lado dela.
Tentou não olhar para o pijama de seda da mulher, tão leve e fino.
Embora o decote estivesse bem fechado...
Mas tão perto, o perfume dela invadia seu nariz.
A mulher mudou de posição, o pijama deslizou...
Uma perna branca apareceu.
O rapaz prendeu a respiração, engasgando com o cigarro...
“Cof, cof, cof, cof...”
Vendo o rapaz sufocado, ela riu e deu leves tapinhas.
“Como consegue engasgar fumando?”
Fez ele tomar refrigerante para aliviar.
Zhang Linsheng sentia-se desconfortável, como se tivesse um prego sob o corpo, olhos fixos na tela, mas não conseguia evitar olhar de soslaio para aquela coxa branca...
Depois de um tempo.
“Tá gostando?” Ela virou-se para ele.
“...Ah! Eu...”
“O programa é bom?”
Hao Nan, aliviado, respondeu baixinho: “Mais ou menos.”
“Também acho, vou trocar.”
Ela ofereceu batatas fritas.
“Coma.”
Eh... Zhang Linsheng ficou indeciso.
•
Hesitou um segundo.
Tudo bem... então... como e vou embora?
Ela trocou de canal, passou um esquete qualquer.
Depois de alguns minutos, algo na fala do programa a fez rir, e, de modo natural, ela segurou o ombro de Zhang Linsheng, rindo sem parar.
Zhang Linsheng sentiu o sangue subir à cabeça!
Com esse gesto, o decote do pijama abriu um pouco, revelando uma porção de pele branca...
Gulp.
A batata frita, nem mastigou, engoliu inteira.
•
Batidas na porta do quarto de Chen Nuo.
Ele suspirou.
Levantou e abriu.
Li Yingwan estava do lado de fora, braços cruzados, olhando para os pés.
“Oppa, posso entrar?”
“Não vai dormir?”
“Eu... estou com medo.”
“Medo do escuro? De ficar sozinha? Ou de trovão?”
Chen Nuo riu por dentro e suspirou de propósito, cedendo espaço.
O olhar da menina era complexo, hesitou, mas entrou.
O quarto de Chen Nuo era pequeno, nem cadeira havia, então ela se sentou na beira da cama.
Ao se acomodar, Chen Nuo soltou uma frase que a fez saltar.
“Tudo isso foi tua mãe que te ensinou?”
“Ah!! Não, não... hm hm hm...”
“Foi ou não?”
“Ah...”
A menina ficou aflita, olhos vermelhos, mas, afinal, era uma “Vaga-lume”, teimosa e obstinada.
Provocada pelas palavras de Chen Nuo, a mágoa foi substituída por uma força.
“E daí! Não sou bonita? Oppa! Por que não gosta de mim?!”
“Eh...”
“Não sou mais criança! Não te pareço bonita? Não quer dormir comigo?”
Chen Nuo ficou surpreso.
A imagem do passado se sobrepôs à menina.
Naquela noite, ela também sentou diante dele, com aquela voz fria e estranha: “Não sou bonita? Por que não quer dormir comigo?”
Após um momento de silêncio, Chen Nuo se aproximou.
•
O esquete terminou.
A mulher pegou o controle e desligou a TV.
Zhang Linsheng ficou surpreso.
Ela virou-se, sorrindo para o rapaz.
“Já dei sinais suficientes, não? Bonitão. Te chamei para vir tão tarde, vestindo pijama ao teu lado, ainda mostrei as pernas, encostei em você... Bonitão, você é homem? Não vai fazer nada?”
Zhang Linsheng: (lll¬ω¬)
•
Chen Nuo se inclinou, Li Yingwan tremia, soltou um “hm” baixinho e tombou para trás, apertando as mãos, olhos fechados com força, meio assustada, meio esperando algo.
Ouvia a respiração de Chen Nuo cada vez mais perto, o som das mãos mexendo em algum lugar.
A menina abriu os olhos, com coragem...
E?
De repente, tudo ficou escuro, e uma colcha virou de ambos os lados, envolvendo-a.
Chen Nuo foi rápido, enrolou a menina na colcha, girou-a, e Li Yingwan se enrolou como uma cebola num pão.
Ele não se incomodou com os gritos e protestos, pegou uma corda de cortina, e amarrou a colcha.
Uma volta, duas, pronto!
Puxou a parte que cobria a cabeça dela, deixando o rosto exposto, e ela gritou: “Ei!!! O que está fazendo, Oppa?!”
“Não grite! Vai dormir assim hoje! Se continuar fazendo bagunça, te penduro pela janela... Eu cumpro, hein!”
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[Toc, toc, toc, pedindo votos!!!]
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