Capítulo Vinte e Seis – Jornada Noturna

Mantenha a calma, não se arrisque Dançar 4288 palavras 2026-01-30 14:12:15

Capítulo Vinte e Seis – Noite Adentro

O Irmão Faca sentiu um calafrio subir por suas costas, dos calcanhares até a nuca.

— Parece que da última vez a lição não foi suficiente — Chen Nuo balançou a cabeça. — Irmão Faca, está querendo me ensinar de novo como agir?

Um dos amigos do Irmão Faca, sem perceber a expressão do companheiro, soltou um grito como de costume:

— Cai fora! Irmão Faca está falando com a Irmã Faca, de onde você surgiu, seu merda? Quer apanhar, é isso?

Chen Nuo estava prestes a responder, mas, de repente, uma voz ainda mais arrogante ecoou no meio da multidão.

— Quem é que quer bater no meu amigo?

Luo Qing abriu caminho entre o povo, chegando até Chen Nuo e a bela Sun. Sorrindo com confiança, falou:

— Chen Nuo, não se preocupe! Eu estou aqui!

Sem esperar resposta, virou-se para os rapazes do Irmão Faca, ostentando um sorriso frio. Sacudiu o uniforme escolar, ergueu o queixo e provocou de propósito:

— Quem é que está procurando encrenca?

O Irmão Faca hesitava, mas um dos seus não aguentou:

— Acho que é você que quer apanhar, não é...

Não terminou a frase. Luo Qing já tinha avançado, estufando o peito:

— Pois então, bate em mim!

Do outro lado, no rosto do rapaz surgiu um lampejo de raiva, já erguendo o braço. Luo Qing riu friamente:

— Meu pai é o Grande Pá de Luo! Tenta bater em mim pra ver! Vamos lá!

O nome soou e o ambiente congelou. O braço do sujeito, suspenso no ar, hesitou e não desceu. Todos do outro lado, inclusive o Irmão Faca, paralisaram, evidentemente assustados com o nome “Grande Pá de Luo”.

— Você... você é filho do Grande... do Senhor Luo? — o Irmão Faca, mesmo sendo o líder, teve de perguntar.

— Sou sim. Não queria bater em mim? Então venha — Luo Qing riu com desdém.

O Irmão Faca teve um leve espasmo no canto do olho. Mudou o tom, rangendo os dentes:

— Foi um mal-entendido, irmão. Só estávamos conversando com seu colega, nada demais. Olha... hoje, em respeito ao Senhor Luo, vamos deixar por isso mesmo. Foi engano, estamos indo.

Já ia sair com os seus, quando Luo Qing gritou:

— Irmão Cabaça! Tem gente querendo me bater, você não vai fazer nada?

No canto da casa de jogos, três homens de uns trinta e poucos anos, com cara de durões, fumavam e jogavam cartas. Ao ouvirem o chamado de Luo Qing, mudaram a expressão, largaram as cartas e vieram a passos largos, olhos faiscando.

O líder, chamado Cabaça, fazia jus ao nome: baixo, forte, cabelo raspado, uma jaqueta de couro jogada nos ombros, as mangas arregaçadas e um dragão tatuado pelo antebraço. Abriu caminho pela multidão e entrou.

Vendo Luo Qing intacto, Cabaça assentiu, virou-se e encarou o grupo do Irmão Faca:

— Quem foi o filho da puta que procurou encrenca?

Luo Qing apontou para o Irmão Faca:

— Ele disse que ia bater em mim.

— Mas que merda... — Cabaça nem perdeu tempo, agarrou o Irmão Faca pelo pescoço e o puxou.

O Irmão Faca ficou em choque. Na verdade, nem tinha sido ele quem falou aquilo!

— Cara, foi mal-entendido!

PÁ!

Um tapa estalou forte no rosto.

O Irmão Faca levou a mão à face:

— Eu não disse que ia bater!

PÁ!

Outro tapa.

Os olhos do Irmão Faca marejaram:

— Cara, eu errei, eu disse, em respeito ao Senhor Luo...

PÁ!

Esse foi ainda mais forte!

Cabaça rosnou:

— Em respeito à tua mãe! Um merdinha como você querendo dar respeito ao meu chefe?

PÁ! PÁ! PÁ! PÁ!

Foram uns dez tapas, um atrás do outro. O pobre Irmão Faca ficou com sangue escorrendo do nariz e da boca, o rosto todo inchado.

Chen Nuo tapou os olhos da pequena Yezi, olhando para o Irmão Faca com um suspiro.

Quanta crueldade...

Os amigos do Irmão Faca, humilhados, tentaram reagir:

— Porra...

Mas os dois brutamontes atrás de Cabaça riram frios, deram dois passos e, com um chute cada, derrubaram dois caras, pisando-lhes o rosto.

Outro abriu o zíper do casaco, revelando uma faca presa à cintura.

— Tenta, tenta mexer!

Os moleques congelaram.

O Irmão Faca já chorava, cuspiu sangue.

— Cara, eu errei, me perdoa...

Cabaça olhou para Luo Qing:

— E aí, Qingzi, o que faço?

Luo Qing hesitou, fez uma careta e acenou.

Cabaça ergueu o Irmão Faca, virou-o e deu-lhe um chute no traseiro:

— Some daqui!

O grupo do Irmão Faca fugiu apavorado. Cabaça olhou para Luo Qing:

— Pronto, Qingzi, estou indo. Qualquer coisa, chama.

Ainda saudou Chen Nuo e os outros com a cabeça.

Chen Nuo suspirou, deu umas palmadinhas na assustada bela Sun e olhou para Luo Qing.

Luo Qing riu:

— Essa casa de jogos também é do meu pai.

Chen Nuo riu:

— Você não é só um filhinho de papai, parece até um príncipe da máfia.

Luo Qing deu de ombros:

— Príncipe nada. Eu nem me envolvo nos negócios do meu pai. Mas se você precisar de algo, pode contar comigo. Se alguém mexer com você, eu resolvo.

— Hum... — Chen Nuo pensou por um instante, sincero: — Obrigado.

O pai de Luo Qing, o Grande Pá de Luo, era uma daquelas figuras lendárias locais, um verdadeiro “cabra da pesada”.

Não era como o Irmão Lei.

Era um veterano de verdade.

Chamavam-no de Grande Pá porque, nos velhos tempos, ele era operário numa estatal de areia e brita, manuseando a pá no meio do cascalho. Depois enriqueceu, ninguém sabe direito como, e hoje é figurão nas redondezas. A antiga fábrica estatal acabou virando de propriedade dele. Domina o fornecimento de areia para a construção civil local e tem uma frota de dezenas de caminhões de entulho.

Nos últimos anos, entrou no ramo do entretenimento: abriu KTVs, casas de jogos...

Um verdadeiro chefão regional.

Mas, com tanta riqueza, como é que Luo Qing foi parar no Colégio Oitavo, uma escola de quinta categoria?

A resposta era simples.

Luo Qing contou a Chen Nuo que, no exame de admissão, tirou 36 em matemática e 21 em química. Nem chegou a quatrocentos pontos no total.

Primeiro, porque naquela época o ensino ainda não era tão mercantilizado. Não bastava pagar para entrar nas melhores escolas.

Segundo, o Grande Pá só ficou rico recentemente. Era um emergente, sem conexões com as elites.

Com as notas que tinha, entrar no Oitavo já foi com muito esforço. Mesmo sendo uma escola ruim, ainda era pública e regular.

Luo Qing não queria estudar no exterior, e o pai nem cogitava. Escolas privadas de elite? Em Nanjing, antes dos anos 2000, nem existiam.

Assim, Luo Qing acabou no Oitavo, levando a vida como dava.

No KFC iluminado e espaçoso, Luo Qing, meio envergonhado, contou sua história. Chen Nuo ouviu com leveza, mas a bela Sun se surpreendeu.

Chen Nuo olhou para Luo Qing com mais consideração.

Na juventude, quando morou em Nanjing, Chen Nuo já ouvira falar do Grande Pá de Luo.

Mas, pelo que soube depois, o chefe não teve um fim muito bom.

Afinal, era só um “cabra da pesada”, sem bases sólidas. A região de Jiangning era periférica, e o Grande Pá dominou o mercado de areia por um tempo. Mas, com o crescimento de Nanjing, e a expansão da cidade universitária, o desenvolvimento imobiliário atraiu tubarões de verdade.

Quando a região deixou de ser periférica e virou novo centro da cidade, todos quiseram sua fatia. O Grande Pá, com raízes rasas, logo foi esmagado pelos grandes.

Dizem que... o fim foi trágico.

Olhando para o despreocupado Luo Qing, Chen Nuo calculou: a família Luo ainda teria um ou dois anos de glória.

Suspirou, afastando essas lembranças.

Gostava do colega. No colégio era discreto, não se metia em problemas, não gostava de estudar, lia romances, tranquilo e confiável.

Agora que sabia de sua origem, ainda mais admirava: naqueles tempos, um filho de gente rica e influente não oprimia os outros, não se gabava, era cordial com todos. Raro.

Se fosse outro, com um pai daqueles, já estaria correndo atrás das meninas ou se impondo com um bando de capangas.

Pensando bem, Luo Qing era mesmo discreto. Nem exibia riqueza. Vestia-se limpo e arrumado, tinha uma bicicleta melhorzinha, só isso.

Tinha um jeito calmo, até introspectivo, e era, no fundo, uma boa pessoa.

Quanto mais pensava, mais simpatizava.

Os jovens passaram a tarde rindo e conversando no KFC, só se despediram às sete ou oito da noite.

Voltaram juntos à escola para deixar a bela Sun em casa, mas Luo Qing só a acompanhou até o portão, depois se foi. Chen Nuo levou a irmã e acompanhou Sun até o apartamento.

Ao abrir a porta, tudo estava escuro. O velho Sun ainda não chegara, nem a mãe de Sun.

A bela Sun parecia acostumada. Ao entrar, hesitou se convidava Chen Nuo e a irmã para ficar.

Chen Nuo entendeu o dilema e sorriu, achando uma desculpa para se despedir.

Chen Xiao Ye, ainda criança, já estava ficando com sono. Chen Nuo se agachou para que a irmã subisse em suas costas.

Ao passar pelo portão da escola, viu o colégio às escuras, portão trancado, prédio administrativo apagado. Franziu a testa.

O velho Sun não estava em casa, mas o colégio também estava vazio. Onde ele estaria?

Após hesitar um instante, Chen Nuo voltou correndo ao apartamento da bela Sun, bateu à porta. Sun, já em roupa de casa, o atendeu surpresa:

— Ué? Voltou por quê?

Ela corou.

Chen Nuo suspirou:

— Seu pai ainda não voltou?

— Não... — Sun ficou ainda mais corada.

Chen Nuo sorriu:

— Preciso pedir um favor. Tenho que sair esta noite e não posso deixar minha irmã sozinha. Posso deixar a Yezi aqui com você?

Sun piscou, surpresa:

— Mas... pra onde você vai tão tarde?

Chen Nuo pensou em inventar uma desculpa, mas ao olhar nos olhos limpos da bela Sun, calou-se e suspirou:

— Melhor não perguntar, está bem?

Entrou, deixou a pequena Chen Xiao Ye, já adormecida, no sofá.

— Amanhã cedo venho buscá-la.

— Mas... — Sun quase gritou, mas conteve-se, temendo acordar a menina, e segurou o braço de Chen Nuo:

— Espera! O que aconteceu? O que você vai fazer tão tarde?

Chen Nuo soltou a mão dela, deu-lhe um afago na cabeça e falou suavemente:

— Fica calma, não pergunte.

Sem esperar resposta, saiu correndo escada abaixo.

No caminho, Sun ainda ligou várias vezes. Chen Nuo, então, pôs o celular no silencioso e o guardou no bolso. Chegou até a rua, pegou um táxi e informou o endereço.

...

Empresa de Desenvolvimento Urbano do Bairro XX.

Era uma empresa estatal de construção, com participação privada, responsável por projetos imobiliários locais.

O detalhe: era o local de trabalho da mãe da bela Sun, a senhora Yang.

Olhando o celular: oito e quinze da noite.

...

Primeira atualização da manhã.