Capítulo Setenta e Quatro: Uma Travessa de Raviolis

Mantenha a calma, não se arrisque Dançar 6479 palavras 2026-01-30 14:20:56

Capítulo Setenta e Quatro – Um Prato de Raviolis

Chen Nuo estava a comer massa.

Um grande prato de massa de vaca estufada com ovo extra. Pediu para a massa ser bem fina.

Alguns dentes de alho estavam já descascados na sua mão, dois na palma, um entre os dedos.

Uma garfada de massa, um gole de caldo, e uma trinca de alho.

Passava das dez da noite e, a esta hora, apenas a pequena loja “Massa de Guo” continuava aberta ao fundo do prédio.

Lá fora, o vento começava a soprar, quente, trazendo consigo um leve odor húmido.

Este tempo... provavelmente ia chover de novo. Na cidade de Jinling, no fim de abril, a época das chuvas já se faz sentir. Esse ar úmido faz sempre cócegas no nariz.

Chen Nuo terminou de comer, bebeu metade do caldo e suspirou, satisfeito.

— Dono, da próxima vez ponha mais carne, sim? — disse ele, sorrindo ao pagar.

— Queres que ponha uma vaca inteira? — resmungou o dono, revirando os olhos. — Sabes que o preço da carne está sempre a subir!

Chen Nuo sorriu e estendeu um cigarro. O dono aceitou, olhou e comentou:

— Oh, é um Zhonghua.

Prendeu o cigarro à orelha e acenou:

— Vai, vai, que já vou fechar.

Ao contrário de muitos donos de lojas de massa do sul, que costumam ser hui, este era han, um homem de meia-idade de aspeto robusto, que, segundo diziam, tinha sido soldado no noroeste em jovem.

Chen Nuo saiu da loja com as mãos nos bolsos, caminhando pela rua à noite.

Já se passavam dois dias desde que emprestara a mota.

Zhang Linsheng, esse sujeito, estranhamente não apareceu na escola, faltou às aulas.

Chen Nuo não se preocupou muito... Para um aluno do tipo de Hao Nan, faltar era normal.

Voltava agora da casa do Professor Jiang. Zhang Linsheng continuava sumido, o que aguçou ainda mais sua curiosidade.

Hmm... Será que fugiu com a minha mota?

Foi quando chegou à entrada do prédio e viu um táxi parar.

Dele saiu uma mulher vestida de forma espalhafatosa, cambaleando, que ainda acenou para o homem dentro do carro.

— Zhang, obrigada pela boleia! Até à próxima.

A uns três ou cinco metros, Chen Nuo já sentia o forte cheiro de perfume — coisa que ele detestava.

Ignorou, passou de lado e entrou no prédio.

Alguns passos depois, ouviu passos atrás de si, a mulher cambaleava ao andar e remexia na bolsa.

Chen Nuo reconhecia-a. Era sua vizinha de porta.

Tinha-a visto nos primeiros dias desde que “voltou” para este mundo.

Pelo modo de se vestir, portar-se e falar, e por vê-la várias vezes trazida por diferentes homens em plena madrugada... Era fácil de adivinhar o que fazia.

No início, ela até lhe acenava, talvez por achar o “rapaz bonito de dentes brancos e lábios rosados” simpático.

Mas, ao notar a frieza de Chen Nuo, logo perdeu o interesse.

Hum, pensa que por ser bonito é especial!

Subiram juntos as escadas.

Ao chegar ao andar, Chen Nuo tirou a chave para abrir a porta, enquanto a mulher, atrapalhada, deixou a bolsa cair. Caíram cigarro, isqueiro e um telemóvel.

Chen Nuo ouviu-a praguejar baixinho.

Ignorou, entrou e fechou a porta.

Foi à cozinha encher a chaleira, colocou no fogão, lavou uma maçã Fuji e, sem descascar, trincou-a.

Ia entrar no quarto quando bateram à porta.

Abriu. Era a vizinha.

O rosto, sob a maquilhagem carregada, mostrava traços jovens, ainda que vulgares.

Chen Nuo franziu o sobrolho:

— Que foi?

— Vizinho gato, moro na porta ao lado — disse ela, visivelmente embriagada, mas lúcida. — Perdi a chave e preciso muito ir ao WC, posso usar o teu?

Chen Nuo reparou nas pernas da mulher, apertadas de nervoso.

— ...Entra.

Ela entrou a correr direto ao banheiro.

Chen Nuo sentou-se na sala e ligou a TV.

Passados uns minutos, estranhou a demora.

Quando a mulher saiu, Chen Nuo ergueu o olhar: hã?

Entrara cheia de maquilhagem, mas saiu de rosto limpo.

Sem maquilhagem, não era feia, mas tampouco bela. Apenas uma rapariga comum.

Os olhos eram bonitos, mas as maçãs do rosto um pouco altas.

Dava-lhe uns setenta pontos, com esforço.

— Desculpa, aproveitei para tirar a maquilhagem — disse ela, agora parecendo bem mais jovem. — Nos últimos dias tenho tido alergia, se não tirar, amanhã fico cheia de borbulhas.

Chen Nuo acenou.

— Podes ajudar-me com mais uma coisa?

Ele olhou-a em silêncio.

— Perdi a chave, minha colega ainda não voltou. Posso usar teu telefone para ligar-lhe?

— Não tens telemóvel?

Ela mostrou um Motorola vermelho:

— Sem bateria.

— ...Liga ali.

Ela sorriu e foi marcar o número.

— Alô! Qu, quando voltas? Perdi a chave, deve estar no vestiário! Ainda na empresa? Anda logo! Estes clientes não acabam? Despacha-te que estou presa fora!

Desligou, um pouco envergonhada:

— Vai demorar. Posso esperar aqui?

Chen Nuo ficou calado.

— Ajuda-me, vizinho gato — pediu ela, sentando-se no sofá, oferecendo um cigarro. — Somos vizinhos, não sejas frio.

Chen Nuo recusou o Seven Stars:

— Não fumo misturados.

— Então fumo eu — respondeu, acendendo o cigarro.

— Somos vizinhos e nunca conversámos — disse ela, soprando fumo.

— Onde queres chegar?

— Tanta coisa! — riu ela. — Vamos conversar, como te chamas?

— Takeshi Kaneshiro — respondeu Chen Nuo.

Era óbvio que não queria conversa.

Ela engoliu seco, mas brincou:

— Então eu sou Cecilia Cheung.

Em 2001, Cecilia Cheung era uma estrela em ascensão, depois de filmes como “O Rei da Comédia”. Mas a “deusa” ali...

Chen Nuo olhou-a:

— Não, tu não és. Não tens beleza para isso.

— ...

Ela ficou atónita, digerindo o insulto:

— Falas sempre assim com os outros?

— Normalmente, não — respondeu Chen Nuo. — Mas quando alguém me incomoda à noite, é diferente.

Olhou para a porta, o que queria dizer: podes ir.

Mas subestimou a persistência dela.

A rapariga levantou a mão:

— Ok, então fico calada.

Silêncio.

Chen Nuo suspirou, esperou um pouco, levantou-se quando a água ferveu e foi encher o termo.

Ao voltar, viu que ela adormecera, deitada no sofá.

Franziu o sobrolho, desligou a TV, pegou num livro e sentou-se na outra ponta do sofá a ler.

Pouco depois...

Ouviram-se barulhos lá fora.

Batidas, vozes, alguém a esmurrar uma porta. Não era a dele, era a da frente.

— Abre! Não te escondas! Sei que chegaste a casa!

— Ou abres ou arrombamos!

— Finges-te de morto, é?

— Pinta! Pinta bem grande! Não sabes escrever? Maior!

Chen Nuo levantou-se, olhou para a rapariga.

Ela continuava de olhos fechados, mas as pestanas tremiam — estava acordada.

— Não vais lá ver? Parece tua porta.

Ela abriu os olhos, olhando suplicante:

— Shh! Deixa-me esconder aqui até irem embora, por favor!

Chen Nuo franziu o sobrolho.

Lá fora, continuava a confusão.

— Aqui mesmo! Pinta grande!

Chen Nuo suspirou, levantou-se, e sob o olhar assustado da rapariga, foi abrir a porta.

No corredor, vários homens de aspeto duvidoso, com baldes de tinta e pincéis.

Na parede, caracteres pintados a vermelho.

“Dívida a pagar...”

A palavra “dinheiro” ainda não estava escrita.

A porta da frente já estava toda manchada, assim como a parede — até a parede da casa de Chen Nuo apanhara tinta.

Chen Nuo fitou-os em silêncio.

— O que olhas? — rosnou o líder. — Não te metas, ouviste?

Chen Nuo olhou-o.

Suspirou e ergueu o telemóvel.

— Qual é o número da polícia? Ah, 1... 1...

E foi marcando.

— Que raios fazes, miúdo? Não te metas em sarilhos! — gritou outro.

— Eu não procurei confusão. Vocês é que fazem barulho a estas horas, quem está a perturbar o sossego? Até os mafiosos deviam ter regras — disse Chen Nuo.

— Regras, o quê? — um deles avançou, mas o chefe segurou-o.

Viu que Chen Nuo já marcara dois dígitos.

O chefe riu friamente:

— Muito bem, queres ser herói? Vais arrepender-te.

Não querendo complicações, fez sinal e foram-se embora, não sem antes lançar ameaças.

Quando desceram, Chen Nuo fechou a porta e olhou para a rapariga, que tremia no sofá.

— O-obrigada... — murmurou, trêmula.

Chen Nuo serviu-se de água e bebeu.

Ela levantou-se e aproximou-se.

— Eu... devo-lhes dinheiro.

— Estou sem dinheiro, e tenho família doente.

— Não queria arranjar problemas, mas não tive escolha...

Ela começou a desabafar, mas Chen Nuo pousou o copo e interrompeu:

— Não perguntei, nem quero saber.

Ela calou-se.

Chen Nuo voltou ao sofá, pegou no livro.

Ela ficou sem saber o que fazer, mas como não tinha para onde ir, aguentou-se no sofá.

Meia hora depois, ouviram-se gritos femininos no corredor.

— Mas que raio é isto?!

Ao ouvir a voz, a rapariga saltou do sofá e correu à porta.

No corredor, Qu Xiaoling estava furiosa, vendo as manchas de tinta.

— Finalmente chegaste, Qu Xiaoling.

— Cheguei! Mas o que é isto? O que fizeste agora?

— Depois falamos.

Puxando Qu Xiaoling, a rapariga olhou para Chen Nuo à porta:

— Obrigada, vizinho gato... ah, Takeshi Kaneshiro.

Chen Nuo não respondeu, fechou a porta.

Foi tomar banho, secou o cabelo e preparava-se para ir dormir, quando bateram de novo.

Ao abrir, viu a rapariga à porta, segurando um prato de raviolis ainda a fumegar.

— De porco e couve... Não fui eu que fiz, comprei no supermercado — disse ela, atrapalhada. — É para agradecer por hoje, vi que moras sozinho, deves ter fome à noite, fica como ceia.

Ela olhou para Chen Nuo.

Ele ia recusar, mas o olhar sincero e um pouco ansioso fê-lo aceitar.

— ...Obrigado.

Pegou no prato e acenou.

— Eu chamo-me... Zhang Lina. E tu, podes dizer-me teu nome?

Chen Nuo pensou:

— Daniel Wu.

— ...— ...

Depois de fechar a porta, Chen Nuo pousou os raviolis na mesa e ficou a olhar por uns segundos.

Não tocou, foi para o quarto.

De manhã, acordou, lavou-se, saiu para a escola.

Ao abrir a porta, viu Zhang Lina agachada num canto, esfregando a porta e a parede com uma escova grande, ao lado um balde de água e detergente.

— Bom dia — disse ela, sorrindo-lhe, com o rosto suado.

— Bom dia.

— Não te preocupes, vou limpar tudo! Também limpo a tua porta!

— Obrigado.

Chen Nuo acenou e desceu.

— Ei, Daniel Wu!

Ele parou, olhou para cima.

— Os raviolis estavam bons?

— ...Aceitáveis. Mas da próxima não faças, não sou fã.

Ia seguir caminho.

— Ei, Daniel Wu.

— O que foi?

— Sei que desprezas pessoas como eu, mas ontem... obrigado, e desculpa.

Ela segurava forte a escova ao falar.

— ...Já passou.

Chen Nuo acenou e desceu.

O dia correu normalmente na escola.

O velho Sun já tinha regressado da viagem, Sun Keke andava de olho em Chen Nuo às escondidas.

Li Yingwan continuava de licença, a cuidar de Jiang Yingzi.

Zhang Linsheng... ainda não aparecera.

Ao final da tarde, Chen Nuo voltou a casa, preparando-se para sair mais tarde para acompanhar Sun Keke às aulas extra.

Provavelmente, o velho Jiang ainda escondia as coisas do velho Sun.

Lavou o rosto, quando bateram à porta.

Ao abrir, dois homens de meia-idade estavam à entrada.

Um deles mostrou um crachá com o emblema nacional:

— Olá, camarada, podemos falar um pouco?

Chen Nuo franziu o sobrolho.

— Somos da polícia, viemos só confirmar umas informações. Não te preocupes, é rotina.

— Entrem.

Convidou-os à sala.

Os polícias olharam à volta, depois fixaram-se.

— É assim... Conheces a vizinha da porta em frente?

— Não conheço bem, mas já a vi algumas vezes — respondeu Chen Nuo.

— Podes contar o que sabes? Não te preocupes, só queremos saber o que souberes — disse um, abrindo o bloco de notas.

— São duas raparigas, não muito velhas. Mais nada. Não tenho contacto com elas.

Um polícia anotava.

O outro levantou-se, caminhou casualmente pela sala e viu o prato de raviolis já frios na mesa.

Olhou para o prato:

— Este prato... parece o da casa da frente.

Chen Nuo notou o olhar e respondeu:

— Ah, foi a rapariga da frente que trouxe ontem.

— Não disseste que não tinham contacto?

Chen Nuo explicou:

— Ontem vieram uns homens provocar, parecia cobrança de dívida, fizeram barulho, pintaram com tinta, parecia cena de filme. Saí para ver, até a minha porta ficou suja, ameaçaram-me, disse que chamava a polícia, foram-se embora. Depois, a rapariga veio pedir desculpa e trouxe o prato de raviolis, talvez por achar que me incomodou.

— Não comeste?

— Não gosto de raviolis.

O polícia terminou de escrever, entregou-lhe o bloco:

— Vê se está tudo certo e assina, se não houver erro. Podemos ver a tua identificação?

Chen Nuo mostrou o BI e o cartão de estudante.

— Onde estiveste hoje de dia?

— Na escola. Acabei de chegar antes de vocês.

— Bem, está tudo.

Mudaram de atitude, mais relaxada.

À porta, Chen Nuo perguntou:

— Posso saber o que aconteceu com Zhang Lina?

Os dois polícias olharam-se, trocando um olhar. Um respondeu:

— Morreu.

O outro, ao mesmo tempo, observava discretamente a reação de Chen Nuo.

Ele ficou paralisado.

— É um caso em investigação, não podemos dizer mais. Mas como a conhecias, não faz mal que saibas. Pede só que não fales com ninguém.

Despediu-se, os polícias saíram.

Chen Nuo fechou a porta, voltou à sala.

Olhou para o prato de raviolis frios.

Morta...

Morta.

Chen Nuo franziu o sobrolho.

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