Capítulo Oitenta e Oito – O Palhaço Está Entre Nós

Mantenha a calma, não se arrisque Dançar 5925 palavras 2026-01-30 14:21:11

Capítulo Oitenta e Oito — O Palhaço Está Entre Nós

Às duas da tarde, os alto-falantes do Colégio Oitavo começaram pontualmente a tocar a “Marcha dos Atletas”. Sim, exatamente aquela música que toca toda manhã antes dos exercícios matinais. Ao som da música, alunos do ensino fundamental e médio, de todas as séries e turmas, saíam organizados das salas de aula e dirigiam-se ao grande campo, formando filas conforme a rotina dos exercícios da manhã.

Na tribuna, um pedestal com microfone estava preparado. O velho diretor da escola, seu assistente, o professor Sun e outros líderes estavam presentes. Ao lado, algumas cadeiras estavam dispostas, onde também se encontravam o senhor Zhao, diretor do grupo educacional, e outros executivos da companhia... Até Liu, o funcionário, estava lá, sentado na ponta mais distante.

O velho diretor foi o primeiro a discursar, falando, como de praxe, sobre as taxas de aprovação da escola, a disciplina e a importância dos estudos para as turmas do último ano, além de outros discursos grandiosos — tudo direcionado aos líderes da secretaria de educação presentes.

Em seguida, um diretor da secretaria de educação fez um longo discurso repleto de formalidades. No final de maio, o clima já estava um pouco quente, e, às duas da tarde, o sol era forte, fazendo os alunos quase cochilarem sob o calor. No meio da multidão, Luo Qing não parava de bocejar.

Finalmente, o diretor terminou de falar. O senhor Zhao, do grupo educacional, subiu ao palco. Diferente dos outros, ele era um homem de negócios e seu discurso foi muito mais interessante. Com entusiasmo e promessas, falou com paixão, chegando a traçar grandes planos: melhorar os salários dos professores, implementar educação de qualidade, ampliar prédios escolares, renovar o refeitório, construir uma biblioteca... Enfim, uma lista extensa.

No fim, distribuiu materiais para todos. Cada aluno recebeu uma carta aos pais, para levar para casa, informando sobre os grandiosos projetos pós-reforma da escola. Na verdade, esses assuntos seriam repetidos na reunião de pais.

Quando o senhor Zhao terminou, os alunos aplaudiram e até o diretor da secretaria de educação sorria de satisfação. Se tudo aquilo se concretizasse, essa reforma seria um grande trunfo político!

Após o discurso, Zhao virou-se para trás, tapando o microfone com a mão, e sorriu para alguém sentado na fileira de cadeiras: “Gostaria de dizer algumas palavras também?”

No centro daquela fileira, sentava-se uma mulher. Ela apenas sorriu levemente e fez um gesto discreto com a mão. Usava óculos escuros grandes, impossibilitando ver seu rosto, mas o batom destacava-se. Usava um trench coat xadrez, que, apesar de cobrir o corpo, era leve e ajustado ao corpo. As barras do casaco deixavam à mostra suas pernas, cobertas por meias pretas, e ela calçava saltos altos.

Seu traje destoava totalmente dos líderes escolares ou dos executivos da empresa. Tinha um ar elegante e sofisticado, apesar de o casaco ser, à primeira vista, bem discreto.

Na multidão, Luo Qing cochichou: “Coco, olha aquela mulher.”

“Hã?” Sun Coco estava distraída.

“Acho que ela é importante. Olha a roupa dela.”

“O quê? Aquela roupa xadrez?”

“Aquilo é Burberry. Só esse casaco custa mais de dez mil, quase vinte mil.”

Sun Coco arregalou os olhos. Mais de dez mil, quase vinte mil? Lembrava que, há alguns anos, quando seus pais compraram o apartamento funcional da escola, ouviram dizer que custou menos de trinta mil. Comprar uma roupa por mais de dez mil? Estava literalmente vestindo metade de uma casa!

A garota não resistiu e olhou mais atentamente para a mulher ao lado da tribuna.

“Que roupa é essa que custa tanto?”

“Marca de luxo mundial”, explicou Luo Qing, filho de família abastada. “Marca usada pela realeza britânica, claro que é cara.”

Em 2001, Burberry ainda não havia entrado em grande escala no mercado chinês, e poucos reconheciam a marca.

Zhang Linsheng, no meio da fila do terceiro ano, também notou a mulher na tribuna. Mas sentiu algo estranho... Apesar dos óculos escuros, sentia-se como se um olhar oculto varresse toda a fila de estudantes...

*

Após os discursos, os alunos foram dispensados e voltaram às salas de aula. Ao dispersarem, os líderes escolares, o diretor da secretaria e o pessoal da empresa trocaram algumas palavras formais.

O professor Sun, considerado o maior talento educacional do colégio Oitavo e uma estrela em ascensão no sistema educacional do distrito, foi chamado para várias conversas.

O senhor Zhao, nas entrelinhas, queria apresentar o professor Sun à mulher do casaco Burberry, mas ela, assim que terminou o evento, foi embora imediatamente. Ficaria para a próxima.

Zhao puxou o professor Sun de lado: “Professor Sun, é preciso trabalhar com afinco! Nosso colégio tem muito futuro! No próximo semestre, teremos dois diretores: um nomeado pela empresa, cuidando apenas da administração, e você será o vice-diretor, responsável por todo o ensino!”

O professor Sun sentiu crescer uma ambição e assentiu.

Nesse momento, viu o velho Jiang entrar pelo portão, indo direto até a tribuna, onde puxou o professor Sun e murmurou:

“Professor Sun, preciso de um favor. Vou pedir uns dias de licença.”

“Hã?” O professor Sun estranhou e levou Jiang para o lado. “Problemas em casa? A doença do Song...”

“Sim, não vou entrar em detalhes. Uns quatro ou cinco dias. Encontre alguém para cobrir minhas aulas, é só revisão e exercícios, não fará diferença.”

“Tudo bem, cuide da sua família. Se precisar de algo, fale comigo sem cerimônia.”

O velho Jiang estava em apuros. Planejava descansar alguns anos após o último trabalho, mas, embora agora tivesse algum dinheiro, não podia ficar parado. Só aceitava trabalhos locais, pois não queria se afastar da esposa. Esse critério limitava muito suas opções, então, quando surgia uma oportunidade, precisava agarrá-la.

*

Jiang Yingzi, contrariada, acompanhava a filha nos arredores do Monte do General, no distrito de JN, onde havia um gramado recém-desenvolvido. Ao entardecer, muitos soltam pipas e passeiam com cachorros por ali.

Dizem que, em breve, vários condomínios de luxo serão construídos na região, tornando-a o futuro bairro nobre do distrito. Uma ótima localização, mas ainda pouco movimentada.

Jiang Yingzi não entendia por que a filha insistira tanto em ir ali. Já estavam há mais de uma hora no gramado e Li Yingwan nem parecia interessada em soltar pipas, apenas sentada, trocando mensagens no celular — o que poderia fazer em casa.

Jiang Yingzi suspirou, começando a suspeitar do motivo. Depois do acidente de carro, sua preocupação com Chen Nuo aumentara a níveis máximos! Tentou investigar o atentado, mas não obteve resultados. Contratou um detetive particular na Coreia do Sul para averiguar rivais de negócios, mas nada foi descoberto. Ainda assim, tomou providências: além da secretária, trocou de motorista por um ex-militar, alguém que poderia ser guarda-costas disfarçado.

O sol já estava se pondo quando Li Yingwan mandou outra mensagem e só então se virou para Jiang Yingzi:

“Vamos jantar? Conheço um lugar ótimo.”

Jiang Yingzi apenas assentiu. Mãe e filha entraram no carro, e, assim que partiram, um tordo desceu de uma árvore, pulou algumas vezes e voou.

Chen Nuo estava sentado no outro lado da rua, numa sorveteria. Deixou a bebida, pôs um boné e saiu.

*

O jantar foi numa feira noturna perto da Rua Leste do distrito, próximo ao hotel onde Jiang Yingzi se hospedava. Várias barracas ao ar livre, com mesas e cadeiras sob toldos. As cozinhas eram nas lojas ao lado. A placa dizia “Ganso Velho do Leste”.

Era um prato famoso da região: um grande tacho de ferro sobre a mesa, com caldo vermelho borbulhante, pedaços de carne de ganso com osso, cozidos até ficarem desmanchando, temperados com sal, pimenta e um toque picante. Ao morder, a carne se soltava facilmente do osso.

O segredo do prato era o ponto de cozimento: tinha que estar desmanchando. No tacho, havia pedaços grandes de batata, igualmente macios e impregnados pelo sabor do caldo.

Apesar das preocupações, Jiang Yingzi e Li Yingwan comeram algumas porções. O centro gastronômico era novo, ainda sem muito movimento, mas aquela barraca de ganso era bastante popular.

Crianças brincavam na praça, enquanto idosos dançavam — naquela época, ainda não se chamava “dança de praça”.

*

O velho Jiang estava sentado no canteiro, usando um boné de aba longa e uma jaqueta cinza. Seu tordo estava empoleirado no toldo da barraca onde mãe e filha jantavam.

O semblante de Jiang não era relaxado, seus olhos examinavam a praça incansavelmente.

*

Chen Nuo estava bem mais tranquilo. Sentado em um quarto de um pequeno hotel na fileira de casas em frente ao restaurante, encontrou um ponto cego, de onde podia ver a praça pela janela do segundo andar.

Diante dele, um prato de lagostins apimentados, comprados no caminho. O notebook estava aberto, ao lado de uma pilha de cascas de lagostim. No fim de maio, já era época de lagostim.

Chen Nuo descascava os crustáceos, bebendo cerveja gelada, de olho na moça de pernas longas e, de vez em quando, no velho Jiang ao longe.

Cinco pessoas... Desta vez, deveria conseguir cinco pen drives.

*

O jantar se estendeu até depois das oito. A praça já estava quase vazia. Os idosos haviam voltado para casa — naquela época, ainda não havia o hábito de dançar até tarde. O horário era bem no intervalo entre o jantar e a ceia, deixando a praça deserta.

Jiang Yingzi já estava satisfeita, mas, como a filha não disse que queria ir embora, ela também não se mexeu. Já havia entendido: a filha era o canal pelo qual Chen Nuo a monitorava.

Portanto... outra vez, alguém viria procurar problemas?

*

O velho Jiang segurava um pãozinho de gergelim, já pela metade. O tordo voltou, e ele jogou um pouco de comida, assobiando suavemente, em uma comunicação quase mágica com o pássaro. Depois, deixou que ele voasse de volta à praça.

Terminando o pãozinho, Jiang pegou sua garrafa térmica, abriu, soprou as folhas de chá e tomou uns goles.

Ah, ser um homem de meia-idade e ganhar a vida não é fácil. Jiang sentiu pena de si mesmo.

...

De repente, Jiang largou a xícara e levantou-se num salto! Aqueles olhos antes opacos tornaram-se agudos como relâmpagos!

Na praça, não muito longe de onde a mãe e a filha jantavam, uma figura estava de pé, estendeu a mão... e o tordo de Jiang pousou obedientemente nela, imóvel.

A pessoa parecia sorrir, acariciando levemente as penas do pássaro.

Jiang ficou atônito!

Seu próprio pássaro, treinado por métodos especiais, só aceitava ele mesmo — nem sua esposa conseguia alimentá-lo. Agora, um estranho conseguia controlar o tordo sem qualquer resistência!

“Oh, que interessante! Faz tempo que não vejo alguém capaz de se comunicar com aves.” Uma boca carnuda desenhou um sorriso curioso.

A mulher na praça era alta, com curvas impressionantes, roubando o olhar de todos os homens que passavam. Os cabelos caíam ondulados sobre os ombros.

Esse tipo de mulher tem uma característica: basta se aproximar, e pouco importa seu rosto ou roupa — tudo que se sente é uma presença arrebatadora! Cada gesto, cada sorriso, cada olhar — tudo nela parecia atiçar o desejo dos homens.

Se fosse em tempos antigos, seria chamada de femme fatale!

Toc, toc, toc-toc... O som dos saltos altos ecoava pelo piso da praça. Ela parecia olhar para mãe e filha, mas, após soltar o tordo, virou-se e caminhou na direção do velho Jiang!

Eram mais de vinte metros, e ela desfilava sem pressa, cada passo carregando uma aura poderosa.

Jiang não se mexeu! Sentia os pelos do corpo se eriçarem, como um felino diante do perigo — aquele instinto de presa diante do predador! Apenas o olhar da mulher já fazia sua respiração falhar.

Só pensava: Que força!

*

A mulher parou diante dele, suspirou levemente.

“Então, é assim que você é...”, disse ela, semicerrando os olhos.

Hein? Jiang estremeceu por dentro. O que isso queria dizer?

“Na verdade, eu deveria eliminar o alvo primeiro. Mas, já que encontrei você... é claro que vou te dar prioridade! Você sabia que hoje só aceitei esse trabalho de última hora? Mas, veja só, você também entrou! Sabe o quanto isso me deixou feliz?”

Jiang: ???

A mulher gargalhou, apontando para ele: “É o destino! Só aceitei esse trabalho por impulso e, veja só, você também aceitou! Hahahahahaha!”

Com um sorriso profundo, exibiu os dentes brancos e disse palavra por palavra: “Ficou feliz, não é, me chamando de velha? Incendiário de corações!”

*

Chen Nuo ainda estava à janela do segundo andar, comendo lagostim, quando, de repente, arregalou os olhos...

Puf!

Cuspiu a cerveja na vidraça! O lagostim caiu da mão na mesa.

“Que droga!!!”

O suor escorria pela testa de Chen Nuo. Como aquela mulher aparecera ali? E ainda atrás do velho Jiang?!

E os cinco assassinos?

Instintivamente, olhou para o site de missões no computador...

Sol Nascente.
Proibida a entrada de estranhos.
O Vazio é a Cor.
Sonhando de Dia.
Príncipes e Reis.

Espere!

Sol Nascente (Sol), Proibida a entrada de estranhos (Vida), O Vazio é a Cor (Vazio), Sonhando de Dia (Branco), Príncipes e Reis (Rei)...

Meu Deus!

Chen Nuo teve um súbito estalo!

Sol e Vida formam Estrela...
Vazio...
Branco e Rei formam Imperatriz...

Droga... A Imperatriz das Estrelas!

A velha sem vergonha! Veio com cinco identidades falsas!

Chen Nuo saltou da cadeira, descendo as escadas apressado. Ao mesmo tempo, sacou o celular e digitou rapidamente duas palavras:

“Fuja agora!”

*

[Peço votos!]

*