Capítulo Dezesseis 【Aproveitar-se】

Mantenha a calma, não se arrisque Dançar 3969 palavras 2026-01-30 14:11:09

Capítulo Dezesseis – Aproveitando a Situação

O estado de espírito de Chen Nuo era, na verdade, bastante complexo. Ostentava o corpo de um adolescente, mas sua alma era de um velho... e não um velho qualquer, mas um demônio, do tipo mais feroz e cruel.

Quanto à filha do Velho Sun, ele realmente não tinha grandes intenções. Era só aquele comportamento típico de um homem de meia-idade que, ao ver uma jovem bonita, solta algumas palavras de galanteio, só pela diversão. Mas nunca passou disso, nunca teve pensamentos mais ousados.

A avaliação que o Velho Sun fazia de Chen Nuo estava completamente equivocada. Ainda assim, essa bondade quase instintiva do Velho Sun acabou tocando Chen Nuo. Pessoas assim já eram raras, e ficariam cada vez mais raras no futuro. Gente desse tipo... merece ser recompensada. Isso sim é a maior justiça deste mundo.

Depois de concluir os assuntos na Coreia do Sul, Chen Nuo mergulhou numa fase de ócio. Ainda havia coisas por fazer, é claro... mas não eram urgentes. Por isso, decidiu usar aquele tempo para se permitir um período de descanso.

Na vida anterior, passara tempo demais dançando um balé entre balas e lâminas, e mesmo nos oito anos de autoexílio no mar, passava os dias em constante alerta, comandando a equipe, instigando conflitos mundo afora. Nesta vida, sem mais aqueles problemas, Chen Nuo preferiu aproveitar um pouco o papel de “peixe morto”, curtindo o sol e a preguiça.

Por isso, naquela tarde, não foi à escola. Andou sem rumo pelas ruas, passou um tempo numa casa de jogos, depois circulou pelo shopping, e até foi ao cinema assistir a um filme.

Como era dia de semana, o cinema estava quase vazio. Notou um casal sentado nas últimas fileiras e, de propósito, foi sentar-se ao lado deles, só pelo mau humor. O casal aguentou dez minutos e finalmente mudou de lugar. Chen Nuo soltou uma gargalhada, assistiu um pouco do filme e acabou cochilando.

Quando acordou, continuou o passeio. Viu um KFC, comprou um milk-shake e foi tomando enquanto caminhava para casa.

Ao chegar ao prédio onde morava, deparou-se com o rosto de Sun, a beldade da escola.

— Por que você faltou à escola hoje? — perguntou ela.
— Você não sabe o quanto meu pai se preocupa com você?
— Sabia que, só neste final de semana, ele pedalou várias vezes até seu bairro, tentando arrumar um emprego pra você? Ontem à noite voltou mancando, disse que caiu da bicicleta, na hora do banho vi que tinha um baita hematoma na perna!

— Chen Nuo, não dá pra você ser menos desligado? — A garota parecia estar guardando tudo aquilo há horas, e despejou tudo de uma vez.

Era muita informação. Chen Nuo ouviu tudo e, pensativo, olhou para o rosto corado da jovem.

— Quanto tempo você ficou me esperando?
— Hã? — ela respondeu, surpresa.

Chen Nuo franziu o cenho, segurou a mão da garota e comentou:
— Está tão fria... Esperou quanto tempo?

A menina ficou paralisada. Nunca um rapaz fora tão ousado a ponto de lhe pegar a mão assim, sem cerimônia. Tentou se desvencilhar, mas não conseguiu, e seu rosto ficou ainda mais vermelho:

— Só... só um pouquinho...

— Vem comigo — disse Chen Nuo, puxando-a em direção ao prédio. Só então ela se assustou, soltou a mão dele e recuou:

— Não, não... não pode...

Chen Nuo sorriu, olhando para o céu:

— É, realmente não é apropriado. Então vamos a outro lugar.

Assim, levou a garota, ainda confusa, até uma cafeteria chamada Hera — daquelas que servem chá, café, pratos rápidos como bifes, e têm salas para jogar cartas ou mahjong.

Sentaram-se num canto sossegado. O rubor no rosto da menina não apenas persistia, mas parecia prestes a extravasar.

Chen Nuo chamou o garçom e pediu um chocolate quente para ela, um chá verde para si mesmo, alguns petiscos e, ao notar o olhar da garota, ainda pediu uma fruteira.

A princípio, ela estava nervosa, mas bastou um gole do chocolate quente para seus olhos se iluminarem de alegria. Naquela idade, meninos e meninas ainda adoram doces, sem se preocupar com dieta.

A conversa variou bastante. Chen Nuo, experiente e vindo de vinte anos no futuro, logo tomou controle do ritmo, extraindo informações sem esforço. Sun, a beldade, ainda era inocente, protegida desde pequena pelo pai superprotetor, e acabou contando tudo, até o que não devia.

Chen Nuo queria saber mais sobre o Velho Sun. Ela contou bastante, mas, ao mencionar um certo episódio, o olhar de Chen Nuo ficou sério.

Há alguns anos, o Velho Sun ainda não era diretor, mas sim professor e chefe de turma.

— Naquela época, meu pai sempre trazia um aluno pra jantar em casa — contou ela —, um rapaz bem mais velho, alto, com cara de bravo, que até me assustava. Ouvi meus pais dizendo que ele não tinha família, e não era bom aluno, vivia se metendo em brigas. Uma vez, meu pai tentou impedi-lo, abraçou-o para não deixá-lo sair, e acabou levando um tombo.

Chen Nuo, levemente irritado, tirou um cigarro, mas, ao olhar para a menina, guardou de volta.

Ela continuou:

— Depois, numa noite, esse rapaz apareceu em casa, ajoelhou diante do meu pai, chorando, pedindo desculpas, dizendo que não valia a pena cuidar dele. Meu pai ficou muito triste naquele dia.

A menina era tagarela, falava sem muita lógica. Contou que esse rapaz sempre foi gentil com ela, como um irmão mais velho, e às vezes trazia balas. Na época, ela estava no primário: primeiro tinha medo, depois passou a tratá-lo como irmão.

Depois...

— Alguns anos depois, meu pai deixou de ser chefe de turma e virou diretor. Minha mãe brigou muito com ele por causa disso. Antes, ele era o melhor professor da escola, apesar de ser uma escola ruim, as melhores turmas eram sempre as dele. Mas, de repente, ele não quis mais. Ouvi dizer que, como diretor, perdeu muitos bônus e prêmios. Mas ele nunca explicou o motivo.

— Você lembra o nome do rapaz? — perguntou Chen Nuo.

— Sim... Han Kejian. Esse nome foi meu pai que deu, para que ele superasse as dificuldades da vida. Meu pai gostava tanto dele que, até no Ano Novo, separava o melhor peixe para ele levar pra casa. Ah, ele era bom em matemática, meu pai dizia que tinha talento, mas desperdiçou o ensino fundamental. Lembro que, quando ia lá pra casa, até me ajudava com dever de matemática.

Chen Nuo assentiu.

A conversa então mudou de rumo, e a menina passou a falar das trivialidades da escola. Notando que ela adorava os tomatinhos da fruteira — que, naquela época, ainda eram chamados de tomatinhos mesmo, e não de “tomate-cereja” —, Chen Nuo viu que ela logo acabou com todos e pediu outro prato.

Por volta das oito, o celular dela tocou. Atendeu nervosa, respondeu algumas frases hesitantes. Chen Nuo ouviu ela dizer:

— Estou na casa de uma colega, na casa da Lin Xiaona... Tá bom, já estou indo...

Antes que ela dissesse mais alguma coisa, Chen Nuo se levantou:

— Vamos, vou te levar pra casa.

Acompanhou-a até o prédio dos professores da escola e não disse muito mais. Percebeu que ela relutava em subir, mas fingiu não notar, virou-se e foi embora. No entanto, esperou escondido até vê-la subir, e só foi embora depois que as luzes do quinto andar se acenderam.

Em uma noite, Chen Nuo esclareceu muitas coisas. O processo foi simples: rodou pelos cibercafés e lan houses próximos à escola, distribuiu alguns maços de cigarros caros, aproximando-se dos garotos de aparência mais delinquente.

Depois de alguns maços, ficou sabendo de tudo.

Han Kejian, apelidado de Han Fortão, era famoso entre os marginais da região. “Era”, porque já estava morto. Fora esfaqueado até a morte, há uns quatro ou cinco anos, numa viela, atrás de uma lixeira. Mais de dez facadas. Foi naquele mesmo ano que o Velho Sun desistiu de ser professor, tornando-se um diretor desiludido.

Chen Nuo entendeu tudo.

···

No dia seguinte, o Velho Sun entrou na sala bem na hora e, ao ver Chen Nuo sentado em seu lugar, sorriu satisfeito. Chen Nuo retribuiu o sorriso.

Mesmo quando o Velho Sun, arranjando desculpas, mandou-o limpar a sala depois da aula, Chen Nuo não reclamou. Já tinha compreendido a intenção dele.

Para o Velho Sun, Chen Nuo era um garoto solitário, perdido por problemas familiares. Não podia deixá-lo afastar-se do grupo. Colocá-lo para limpar a neve do pátio, ou para ser responsável pela limpeza, não era retaliação... Bem, talvez um pouco. Mas, acima de tudo, era para que Chen Nuo se integrasse ao coletivo, participasse das atividades e vivesse como um verdadeiro... estudante!

Correu pra lá e pra cá, carregou baldes d’água, limpou a sala junto com outros colegas. Todos riam e brincavam, e Chen Nuo também entrou na brincadeira. Era uma rotina infantil, mas reconfortante.

Depois, o Velho Sun o levou para jantar em casa. Claro que, quanto ao contato da filha com Chen Nuo, mantinha o olhar atento de um sentinela.

A mãe da Sun, como sempre, estava de plantão e nem chegou a vê-los. Antes de ir embora, o Velho Sun ainda lhe entregou um saco preto de plástico.

— Peixe congelado, que a escola distribuiu. Aqui em casa somos só três, não damos conta. Leve, corte uns pedaços e cozinhe como preferir, é fácil.

Chen Nuo não disse nada, nem recusou. Pegou o pacote, sentindo o peso.

Quando estava de saída, o Velho Sun o chamou de novo:

— Espere aí, não saia. Comprei umas tangerinas hoje, comprei demais. Leve algumas pra casa.

Chen Nuo pensou: “Ora, Velho Sun, está querendo se dar bem às minhas custas?”

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