Capítulo Sessenta e Três – Entre
Capítulo Sessenta e Três 【Entre】
O estrondo do trovão ecoou. O trovão da primavera irrompeu de repente. Em abril, o clima à noite foi marcado por um trovão, e a primeira chuva da estação pareceu chegar um pouco tarde.
Felizmente, Chen Nuo já estava perto de casa, viu as gotas começarem a cair suavemente e acelerou a pedalada. Chegou ao prédio, estacionou a bicicleta — uma Giant de montanha recém-comprada há alguns meses — debaixo do telhado do edifício, onde não seria atingida pela chuva. Subiu, abriu a porta e entrou.
Não se molhou muito, mas ainda assim tirou o casaco, tomou banho e vestiu roupas limpas. Enquanto secava o cabelo molhado, ficou diante do espelho no banheiro, observando seu reflexo.
No espelho, não havia rugas marcando os cantos dos olhos, o rapaz ainda era magro, longe da idade do sobrepeso e da pele oleosa. Os cabelos eram densos, a testa lisa, sem linhas de expressão. O rosto mantinha um leve traço de bochecha de criança, sem o tom apagado que a perda de colágeno traz aos adultos. Traços delicados, nariz alto, lábios um pouco finos — o que normalmente daria um ar de severidade, mas o sorriso preguiçoso, habitual nele, suavizava essa impressão, tornando-o mais simpático.
Ser jovem... Que maravilha.
Era quinta-feira, a Pequena Folha ainda estava na creche.
Chen Nuo não se sentira saciado com o jantar com a mãe e filha Vaga-lume, então preparou miojo — uma embalagem não bastou, abriu logo duas. Nem se deu ao trabalho de cozinhar, viu que ainda havia água quente na garrafa térmica e preparou um grande tigela, tampando-a com a tampa da panela para manter o vapor.
Enquanto controlava o tempo, sentado no sofá, Chen Nuo ficou distraído. O humor, evidentemente, não estava dos melhores.
Nesse momento, ouviu batidas rápidas na porta.
Chen Nuo franziu o cenho, levantou-se e abriu a porta.
Do lado de fora, Li Yingwan estava encharcada, parecia um pintinho molhado. Encurvada, o rosto coberto de gotas, cabelos grudados na cabeça, alguns fios caindo no rosto e pingando água. O uniforme escolar estava completamente ensopado.
Chen Nuo suspirou, deu passagem à jovem.
Li Yingwan entrou, mas ficou parada na sala, sem a vivacidade habitual, cabeça baixa como se tivesse cometido algum erro.
Alguns segundos depois, Chen Nuo ouviu o choro contido da garota.
— Você veio sozinha na chuva? Cadê o motorista? — perguntou Chen Nuo.
— Ele me trouxe. — Li Yingwan respondeu, magoada. — Mas quando cheguei, não tive coragem de subir, fiquei lá embaixo por um bom tempo.
— Ficou rodando na chuva? Que bobagem! — Chen Nuo, resignado, levou a jovem ao banheiro, foi ao quarto buscar uma muda limpa de roupa e jogou para ela.
— Tome banho, troque de roupa, rápido!
Ao sair, Chen Nuo fechou a porta atrás de si.
Sentou-se na sala, olhando para a tigela de miojo. Sentia uma irritação sem motivo, o espírito agitado. Desagradável, de fato. Tudo por causa dos acontecimentos da noite.
Quando o tempo estava certo, tirou a tampa da panela. O aroma característico do miojo inundou o ambiente. Com fome, o cheiro era simplesmente sublime.
O humor melhorou um pouco.
Inspirou profundamente o aroma, pegou os palitos.
Primeiro bocado...
Que alívio!
Chen Nuo soltou um suspiro.
Do banheiro, veio o som da água.
Ligou a televisão, escolheu um canal com um programa de variedades, só então a sala ganhou um pouco de vida.
Comendo miojo e assistindo TV, a irritação no peito foi se dissipando.
Que situação, pensou.
Terminou a tigela, ouviu a água ainda correr no banheiro, olhou o relógio, calculou o tempo, foi à cozinha e pegou mais uma embalagem de miojo. Sacudiu a garrafa térmica, ainda tinha água.
Preparou outra tigela.
·
Li Yingwan saiu do banheiro, envergonhada, sentindo uma humilhação difícil de descrever.
A garota das pernas longas foi à sala.
O jovem assistia TV.
Ela se sentiu perdida.
Se fosse num dia comum, teria se aproximado rindo, encostado no braço do rapaz e chamado "Oppa" com voz manhosa.
Mas naquela noite, algo a travou.
As palavras da mãe, "servir como um animal de carga", despedaçaram dentro dela todo aquele sentimento, aquela dignidade, aquele orgulho misturado ao carinho...
Quebraram-se, caíram por terra!
Parada ali, Li Yingwan não sabia o que fazer.
Felizmente, Chen Nuo levantou o olhar, arqueou a sobrancelha:
— Vai ficar aí parada? Venha sentar!
A garota de pernas longas, com o rosto baixo, moveu-se devagar até o sofá, como se tivesse cometido um erro.
Chen Nuo empurrou a tigela de miojo para ela:
— Coma, senão vai amolecer demais.
Ao tirar a tampa, o cheiro apurado se espalhou.
Em outras ocasiões, Li Yingwan teria gritado com aquele tom exagerado e adorável típico das garotas da Coreia do Sul: "Uau! Miojo! Oppa, você é demais!"
Ou teria pegado os palitos com um sorriso doce e devorado com alegria.
Mas naquele momento, só conseguiu pegar os palitos e comer devagar, enrolando alguns fios de macarrão e levando-os à boca.
Chen Nuo olhou para ela, suspirou por dentro, mas disse:
— Coma logo! Estou esperando para lavar a tigela!
Li Yingwan estremeceu e acelerou o ritmo.
Após terminar a tigela, Chen Nuo levou as duas tigelas para a cozinha e lavou-as rapidamente. Pegou uma maçã grande e vermelha, lavou, cortou ao meio com a faca e voltou à sala.
Li Yingwan estava sentada no sofá, sem mudar de posição, tão comportada que Chen Nuo não pôde evitar sentir-se irritado.
Enfiou metade da maçã na mão dela.
— Coma!
— ...Tá bom.
Mordidas firmes.
A maçã era Fuji, de núcleo açucarado, ainda cara naquela época. Mas Chen Nuo tinha dinheiro — Li Qingshan tinha patrocinado cinquenta mil recentemente. Pequena Folha gostava, então ele comprara uma caixa para casa.
Depois que terminou, Chen Nuo manteve-se em silêncio, focando na TV.
Os programas de variedades daquela época pareciam tolos — claro, vinte anos depois continuam tolos.
Mas, na visão de Chen Nuo, eram não só tolos, mas também bregas.
Um grupo de convidados jogando jogos antiquados, sorteios com prêmios, intercalados por apresentações de música e dança — e assim se montava um programa.
Enquanto assistia, pelo canto do olho viu que a garota terminou a maçã. Só então olhou para Li Yingwan.
Ela vestia uma roupa limpa de Chen Nuo.
Um moletom branco, calça esportiva. Mas no corpo da Vaga-lume, ficava perfeito.
Aos dezessete anos, já quase um metro e setenta, proporções impecáveis, pernas longas, membros finos e elegantes — um verdadeiro cabide para roupas.
Chen Nuo sabia que, se não falasse nada naquela noite, a garota de personalidade obstinada e um tanto obsessiva acabaria adoecendo de tanto reprimir o sentimento.
Sim, era isso: humilhação e raiva.
Uma garota, levando a mãe alegremente para ver o rapaz que ama.
Mas a mãe, quase ajoelhada, entrega a filha como mercadoria, disposta a qualquer coisa, até mesmo a servi-lo como escrava.
Por isso, o coração da garota era um misto de vergonha e raiva!
— Está tarde, foi sua mãe quem te mandou vir? — Chen Nuo sorriu suavemente.
— Sim. — Ela assentiu, depois balançou a cabeça e murmurou: — Eu... eu também quis vir.
Ah, Jiang Yingzi, tão apressada assim?
A garota de pernas longas, em voz baixa e fraca, chamou "Oppa..." e não conseguiu continuar, lágrimas rolando pelo rosto.
— O que sua mãe disse, encare como se fosse um vento passageiro — Chen Nuo balançou a cabeça.
— Mas... — Li Yingwan chorou — Mamãe disse que, se eu não ficar com você, vou voltar para a Coreia do Sul.
— Também não seria ruim. Ficar aqui na China só atrapalhando não é solução para sempre.
Ao ouvir isso, a garota explodiu com tudo que reprimia desde o início da noite.
Chorou alto, de forma dolorosa e triste!
— Você não quer que eu fique perto de você, não é...? — soluçou.
— Você não gosta de mim, me acha irritante, não é...? — soluçou.
— Você gosta daquela Sun Gordinha, não é...? — soluçou.
— Você quer me mandar de volta, não é...? — soluçou.
Soluços e mais soluços.
Chen Nuo viu que a garota chorava tanto que quase escorria ranho, uma bela jovem parecendo uma criança de pré-escola...
De repente, não pôde evitar rir.
— Mamãe disse... se eu voltar para a Coreia, e você não me quiser, ela... ela vai me entregar para os magnatas... Uá!!!
A garota chorou ainda mais.
Chen Nuo suspirou.
Depois de lidar com Jiang Yingzi naquela noite, percebeu como aquela mulher era extremista e obsessiva. Realmente capaz de fazer isso!
— Então, minta para sua mãe dizendo que já está comigo.
A garota continuou a chorar, indignada enquanto chorava:
— Minta? Oppa! Você não gosta de mim, não é...? Por que não posso ser sua mulher...?
Chen Nuo não respondeu.
Foi ao banheiro, pegou uma toalha e entregou à garota.
Chore à vontade, depois se limpe sozinha!
A jovem chorou um pouco mais, depois parou e murmurou:
— Mamãe disse que eu tinha que vir te procurar hoje... Disse que eu tinha que me tornar sua mulher. Eu... eu...
Ela voltou a chorar.
A mente da Vaga-lume estava confusa.
Ser a mulher de Chen Nuo, ela queria muito.
Mas... não desse jeito!
Chen Nuo sorriu.
Minha mulher?
Jiang Yingzi mal podia esperar para entregar a filha, fazendo-a subir na minha cama?
— Então diga a ela, minta, que já é minha mulher.
·
Zhang Lisheng pedalava com força, com a garota de vermelho sentada no banco traseiro.
A chuva de primavera caía sobre eles, a garota tirou o casaco, segurava a cintura de Zhang Lisheng com uma mão, com a outra sustentava algo sobre suas cabeças.
Era mais simbólico do que prático, pois ambos já estavam encharcados.
— Chegamos, é aqui — disse a garota de vermelho ao chegar a um prédio antigo.
Desceram, Zhang Lisheng empurrou a garota para dentro do edifício, deu uma olhada ao redor.
— Então... suba, eu vou embora.
— Não! — a garota de vermelho agarrou sua roupa — Você está todo molhado! Suba comigo! Troque de roupa, e... tenho uma capa de chuva em casa, você pode usá-la.
O coração do rapaz bateu descompassado.
Parecia nervoso, sem saber que expressão fazer, mas aparentava frieza.
Por fim, assentiu.
O espaço sob o telhado já estava ocupado, sem lugar para proteger da chuva.
Zhang Haonan não se importou, pegou uma mountain bike nova que estava ali, colocou-a na chuva e estacionou sua velha bicicleta no lugar protegido.
Subiram juntos, em silêncio.
No escuro, Zhang Lisheng estava confuso, nem percebeu se era no quarto ou no quinto andar.
A mulher à frente parou, ele também.
Era um prédio antigo, semelhante ao que Zhang Lisheng morava.
Cada andar tinha duas unidades.
A garota pegou a chave e abriu a porta.
Zhang Lisheng ficou atrás, ouvindo o som da TV vindo da porta do vizinho, parecia um programa de variedades. Mas havia também o som de choro.
Não importava, era assunto dos outros.
A garota abriu a porta, entrou e acendeu a luz.
Na entrada, olhou para Zhang Lisheng, sorrindo.
— Entre.
— ...É!
·
【Bang bang bang, peço votos!】
·