Capítulo Cinquenta e Dois – Cabeça de Touro

Mantenha a calma, não se arrisque Dançar 5244 palavras 2026-01-30 14:16:46

Capítulo 52 – Cabeça de Boi

Vida passada.

23 de dezembro de 2021.

Costa oeste do país das Folhas de Bordo, pequena cidade.

Uma casa de madeira.

O jardim e o gramado estavam claramente bem cuidados no dia a dia. Faltava apenas um dia para o Natal e, no quintal, já penduraram bolas coloridas e fitas; havia também uma árvore de Natal, pela metade podada, enfeitando o jardim.

Perto do beiral, uma estufa de vidro protegia inúmeras plantas do frio, onde flores e folhas exuberantes cresciam em plena vitalidade.

Dentro da casa, em um cômodo iluminado pela luz do sol, uma mesa de estilo oriental com cantos curvos; sobre ela, uma folha de papel de arroz alvíssima, presa nas pontas por pesos de bronze em forma de cabeça de tigre.

Uma mulher estava em pé diante da mesa, segurando o telefone.

“…A última mensagem dele… silêncio absoluto… nos vemos na próxima vida, Cabeça de Boi.”

“Certo, estou em missão agora, não posso falar mais.” A mulher respondeu com calma, encerrando a ligação com leveza.

“Então… ele morreu?” Ela suspirou, murmurando para si mesma: “Ainda gosta de me chamar de Cabeça de Boi… detesto esse apelido.”

Como se a notícia da morte daquela pessoa não tivesse produzido nela a menor emoção.

Com tranquilidade, guardou o telefone.

Ergueu a mão e, com dedos delicados, pegou um bastão de tinta que começou a moer suavemente sobre uma pedra de entintar decorada com padrões de lótus e ondulações.

Cada gesto seu era suave, minucioso, metódico.

Depois de algum tempo, repousou a tinta e pegou um pincel de pêlo de lobo apoiado sobre o suporte.

Mergulhou-o na tinta e começou a escrever no papel de arroz.

No ambiente aquecido, o rosto delicado da mulher mantinha uma expressão serena; vestida de vermelho, a palidez doentia de sua face se tornava ainda mais evidente.

O detalhe mais estranho era o longo cabelo branco como a neve.

Com um leve movimento de pulso, os traços fluiram pelo papel:

A brisa da primavera não poupa a beleza,
Por que lamentar os anos que branqueiam as têmporas?

Ao terminar de escrever, a mulher pousou o pincel, fitou a caligrafia por alguns segundos, soltou um suspiro e assentiu, visivelmente satisfeita.

“Na verdade, eu entendo a sua mentalidade, gente como você.”

A mulher de cabelos brancos falou pausadamente, erguendo o olhar para um homem de meia-idade sentado no sofá do cômodo.

O homem, com cerca de cinquenta anos, tinha um rosto quadrado outrora imponente, agora tomado pelo medo. Encostado sem forças no sofá, queria se mover, mas não conseguia sair do lugar.

A mulher assoprou de leve sobre o papel, continuando: “Gente como você faz grandes coisas, embolsa o dinheiro e foge para cá, como se este lugar fosse um refúgio, fingindo que todas as maldades cometidas não têm mais nada a ver com você.

No dia a dia, cuida das plantas, finge elegância com antiguidades e objetos de arte.

Escreve, pinta.

O demônio virou santo, não é?

Mas que mundo é esse onde basta largar a faca para virar Buda? É assim tão fácil?

E as famílias destruídas por sua culpa, os lares despedaçados, as pessoas que perderam tudo por sua fraude, aqueles que venderam o que tinham enganados por você…

Você diz que largou a faca, mas será que as vítimas podem mesmo riscar tudo assim?”

Nessa altura, a mulher sorriu de leve, com certo sarcasmo: “Claro, não sou nenhuma justiceira. Estou aqui porque alguém pagou pela sua cabeça. Não foi muito, um milhão. Um trabalho pequeno, ninguém quis, então aceitei.”

“Eu posso te dar mais!” O homem de meia-idade cravou os dentes, rosto avermelhado, lutando para se mexer, mas sem conseguir qualquer movimento.

“Eu sei, você tem dinheiro, desviou milhões com aquela fraude no seu país. Mas… não dá. Se fosse outro em meu lugar, talvez você comprasse sua vida por alguns milhões.”

Ela olhou para ele, fria: “Mas comigo, não há negociação.”

Deu uma pausa e sorriu de novo:

“O Senhor da Morte quer você morto; minha tarefa é buscar sua alma. Lembre-se de mim ao descer à estrada do além: sou a ceifadora a serviço do Senhor da Morte.”

Em seguida, pegou uma pistola da mesa, rosqueou silenciador.

Puf! Puf!

Dois tiros!

Um na testa, outro no peito.

O homem parou de se mexer.

A mulher caminhou até o sofá e olhou em silêncio para o corpo. Após alguns segundos, levantou a arma outra vez e disparou mais vezes.

Esgotou o carregador.

Guardou a arma, olhou de novo para o cadáver, depois se virou e saiu.

Seus passos eram leves. Saiu pela porta, lançou um olhar às flores na estufa do jardim.

“Hmpf, beleza que não resiste ao vento nem à chuva.”

Caminhou até a rua, entrou num carro estacionado.

Serena, ligou o motor e partiu. À medida que o carro avançava, a linha costeira se tornava mais nítida ao longe.

Na cabeça, voltava repetidamente o diálogo de quando se sentou diante daquele sujeito pela primeira vez.

“Qual seu nome?”

“Peixe Nai Tang.”

“Peixe de peixe com chucrute?”

“…Isso.”

“Nai Tang de bala de leite?”

“Não, é Nai! Significa grande caldeirão, instrumento ritual usado por imperadores antigos, conhece os Nove Caldeirões?”

“…Não sei, que ideograma? Escreve pra eu ver.”

“….” Pega o pincel…

“Ah, esse Nai. E Tang?”

“De Hai Tang, a flor!”

“…Ah, Nai Tang… NT… então vou te chamar de Cabeça de Boi daqui pra frente!”

“Esse apelido é pior que Bala de Leite! Não quero…”

“Não, você é que vai! O Senhor da Morte precisa de um Cabeça de Boi em sua lista.”

“E quem será o Rosto de Cavalo?”

“Não sei, quando aparecer alguém apropriado a gente vê.”

Aquele sujeito… aquele sujeito… morreu?

Os dedos no volante se fecharam devagar, mas um leve sorriso apareceu em seu rosto.

“Enquanto houver montanhas no coração, não é preciso buscar flores para agradar aos outros. Mas se as montanhas já se foram, o que resta de apego?”

Dizendo isso, largou o volante, pegou o celular e enviou uma última mensagem.

“Cabeça de Boi… saindo.”

Naquela tarde de inverno, um carro avançou pela linha costeira, o veículo prateado descreveu um arco estranho pelo ar e, rompendo a areia, mergulhou nas ondas revoltas!

De volta a este tempo.

26 de março de 2001.

Velho Sun se levantou, acompanhando o visitante até a porta.

Ao lado de Liu, o trabalhador, havia ainda um homem de terno, expressão tranquila, imponente.

“Bem, senhor Sun, vamos nos despedir. Nossos termos ficam para sua consideração.”

Velho Sun sorriu com reserva e os acompanhou até a saída.

Mal fechou a porta e voltava à sala, ouviu batidas novamente.

Virou-se e abriu, deparando-se com…

O miúdo de traços delicados.

Por dentro, Sun sentia certa repulsa.

Chen Nuo sorria… Enfim, não se bate em quem chega sorrindo.

Atrás dele, um homem de jaqueta.

“O que foi?”

“Viemos medir o vidro.”

… Sun rangeu os dentes, mas deixou entrar.

Era o dono da vidraçaria. Entrou, fez algumas perguntas e foi direto ao quarto principal.

“Aqui?” Apontou para a janela tapada com jornal.

“Isso, vê se agiliza, não dá pra ficar com buraco na janela.”

“Pode deixar, amanhã entrego. Vai embalado!”

Depois de medir, Chen Nuo pagou.

Sun observou tudo de braços cruzados, sem qualquer gentileza.

Bem feito!

Naquela noite, após quebrarem o vidro, Sun correu até a janela e viu as costas do miúdo fugindo!

Como dizem, foi pego em flagrante!

Despachado o vidraceiro, Sun, de expressão carregada, ia dizer algo, mas Chen Nuo se adiantou:

“Encontrei com o Liu… hm, professor Liu?”

Sun pensou: “Sim, ele veio com o diretor Zhao da empresa de educação, conversamos sobre algumas coisas.”

“Assuntos da escola?” Chen Nuo sentou-se e, por hábito, estendeu a mão para o maço de cigarros na mesa, mas Sun o encarou, arregalando os olhos.

“Hábito, só hábito.” Chen Nuo sorriu e mudou de assunto: “Vieram renovar seu contrato?”

“Como adivinhou?”

“Chute.”

Não era difícil de supor.

O oitavo colégio mudaria de sistema ao fim do semestre, passando de público para privado. O grupo empresarial de educação tinha grandes planos.

E o que é mais importante numa escola privada? O corpo docente, claro.

No auge da escola, vinte anos atrás, a maior taxa de aprovação foi quando Sun era diretor de turma.

Ele também era o único premiado como excelente professor ainda em atividade.

Se a escola continuasse pública, poderia ser negligenciado. Mas para o capitalista dono da escola, o que importa é lucro. Sun, a maior carta do baralho, seria mantido a todo custo.

Com certeza vieram para negociar.

“Querem que você dirija uma turma?”

“Turma de formandos, diretor de turma, líder de série, além de coordenador pedagógico.”

“O salário melhorou, né?”

“Sim, comparado com antes… Ei! Moleque, por que tanta pergunta sobre dinheiro?”

Chen Nuo olhou para Sun e pensou: pegue leve, camarada, ainda me deve vinte mil.

Mas parecia que a negociação não deu certo.

“Não assinou?”

Sun suspirou.

É claro que queria assinar. Ele realmente gostava de ensinar. E ainda melhoraram as condições. Um homem de meia-idade, com família para sustentar.

Era tentador, sem dúvida.

Mas…

Chen Nuo entendeu: ainda era por conta da história do empréstimo.

Sun prezava muito sua reputação; aquele episódio manchou seu nome, até hoje havia fofocas, e ele não tinha coragem de voltar.

“Já chega, moleque, por que tanto interesse? Hoje nada de matar aula, vá para a escola!”

Moleque?

Chen Nuo sorriu para Sun.

Camarada Sun, se eu fosse mais ousado, sua filha já estaria de licença maternidade.

Despediu-se e saiu da casa de Sun.

Mas não foi para a escola; deu uma volta na lan house do bairro, jogou um pouco de StarCraft e só voltou para a aula na última chamada da tarde.

“Chen Nuo, sábado a escola vai organizar um passeio de primavera. Que tal trazer a pequena Ye também?”

Assim que viu Chen Nuo, Sun Keke correu para ele.

Passeio de primavera?

Soava tão distante. Havia mais de vinte anos que não ouvia isso.

Pensou um pouco; sem planos para sábado, acenou com a cabeça.

Para um jovem, entre as poucas coisas que valiam a pena nos tempos de estudante, os passeios de primavera e outono estavam entre as melhores.

Chen Nuo se lembrava, na infância, das excursões escolares:

Ônibus lotados.

Muita cantoria e risadas pelo caminho.

Filas para entrar em pontos turísticos apinhados.

Mochilas abarrotadas de salgadinhos e refrigerantes.

E, claro, a maior felicidade era sentar ao lado da menina de quem gostava…

O passeio seria na Montanha Langya. Não era a famosa Montanha dos Cinco Heróis. Nem tinha relação com a Lista de Langya ou com o elegante Mei Changsu.

Mesmo assim, Langya era conhecida. Todos já ouviram falar do Pavilhão do Velho Bêbado.

“Em torno de Chuzhou, tudo é montanha; ao sudoeste, as mais belas são as de Langya.”

Viu? Mais uma citação pra encher linha, nem precisei falar de comida.

Langya ficava em Chuzhou, na província de Hui. Não era longe de Jinling, pouco mais de uma hora de viagem.

Antes da mudança, a escola Oitava não era rica, mas também não era miserável.

Alugaram alguns ônibus para levar centenas de alunos do primeiro e segundo anos.

E o terceiro ano? Passeio de primavera? Nada disso! Era época de estudar para o vestibular, nada de passeio.

No ônibus, Chen Nuo suspirou aliviado.

Foi por pouco.

Quase um triângulo amoroso ali.

Na hora de escolher o lugar, sentou-se sozinho, então… Li, a garota coreana, e Sun, a garota chinesa, ficaram olhando para ele em silêncio.

Chen Nuo, com um sorriso, puxou a pequena Ye para sentar ao seu lado.

As duas moças se entreolharam.

Li Yingwan, mais decidida, resmungou e desceu. Filha de empresário, tinha carro à disposição; só pegaria o ônibus para sentar com Chen Nuo.

Sun Keke também resmungou e sentou-se na fileira à frente.

O camarada Sun, professor, conferia a lista na frente do ônibus.

Sim, ele também foi ao passeio. A professora Wu, diretora de turma, alegou que a perna machucada no inverno anterior não permitia caminhadas – na verdade, era pura preguiça.

Levar dezenas de adolescentes para passear… para os alunos é diversão.

Para o professor, é pesadelo.

Jovens cheios de energia, correndo e brincando, cada um com suas ideias, impossível controlar.

Uma dor de cabeça.

Por isso, Wu ficou de fora, alegou dor na perna. Todos os professores jovens e sem tempo de serviço tiveram que ir.

Como monitores improvisados.

Então Sun foi, mesmo sendo experiente, porque era prestativo – e, claro, porque sua filha estava entre os alunos.

No ônibus, estudantes começaram a cantar animados. Adolescente é assim.

Se não for um pouco exagerado na juventude, quando será?

O Senhor do Submundo, Chen, não se impressionava.

Pouco depois.

Xiao Ye mordia uma maçã que Sun Keke lhe deu, olhando o irmão cantar com os demais: “Você sempre é tão sensível, tão sensível, carrega tudo sozinho…”

Sun se sentia desconfortável. Por que aquele moleque ficava olhando para ele enquanto cantava isso?

Quando terminou, começou outra:

“Agora você está ferido, tão ferido, tão ferido…”

De novo olhando para mim?

O que isso significa?

[Fim do capítulo de hoje. Por favor, deem seu voto de recomendação, voto mensal e apoiem o autor!]