Capítulo Quarenta e Nove — O Passageiro do Vento Favorável
Capítulo Quarenta e Nove – O Passageiro de Carona
O jantar consistiu em uma cesta de pães, recém-saídos do forno. Esta pousada, com seu estilo colonial, ainda mantinha o serviço próprio de padaria nos fundos. Água mineral acompanhou o pão, encerrando assim a refeição da noite — pois os pratos locais, como o curry e a sopa de feijão, Chen Nuo não ousaria provar nem sob ameaça de morte.
Por volta das sete da noite, Chen Nuo saiu tranquilamente da pousada e caminhou pelas ruas de Catmandu. Naquela época, quase não havia turistas chineses na cidade… O que mais fazia sucesso então eram os destinos do Sudeste Asiático, como Singapura, Malásia e Tailândia.
Seria apenas na era das novas mídias, muitos anos depois, que este lugar ganharia fama graças a uma parceria entre influenciadores digitais e intermediários do turismo, promovendo o famoso “índice de felicidade mais elevado do mundo”. Ninguém sabe que entidade obscura criou tal índice — os próprios nepaleses certamente não o reconhecem.
O termo “jovem literato”, nos anos setenta e oitenta, ainda era um elogio, pois carregava peso cultural. Naquela época, ser um jovem literato exigia erudição: era preciso conhecer Tagore, Shelley, Yeats e, no contexto chinês, citar poetas como Haizi, Gu Cheng, Shu Ting e Bei Dao de cor.
Nos anos noventa, o termo perdeu um pouco de força, mas ainda era necessário ter lido Wang Xiaobo, San Mao e saber discutir a Nouvelle Vague do cinema, além de decorar frases de Wong Kar-wai.
Após 2000, tudo desandou. Com a explosão da internet, o grupo dos jovens literatos foi invadido por muitos que só queriam aparentar. Não que fingir fosse novidade — os antigos já gostavam de impressionar —, mas o problema é que a nova leva só sabia fingir, e mal.
Antes de 2000, os jovens literatos realmente tinham uma vantagem cultural. Depois, com a universalização do ensino superior, qualquer um era universitário. Diante de um pseudo-intelectual afetado, o povo só podia se irritar: “Quem nunca foi à universidade? Por que você, justamente, acha que pode se exibir?”
Sem bagagem literária, bastam frases feitas tiradas de textos motivacionais para tentarem posar de sofisticados. Com o avanço das novas mídias, a coisa ficou ainda mais absurda: em seu próprio perfil, vivem numa falsa serenidade; nos espaços dos outros, só falam vulgaridades. Livros, de fato, leram poucos — passam o tempo no Xiaohongshu.
Por quê? Porque o custo de fingir caiu. Não é mais preciso ler clássicos ou poemas; entender ou não, não importa — nem é preciso ler. Influenciadores resumem tudo e entregam frases de efeito prontas: “Tome, não precisa ler o livro todo, com essas duas frases já dá para impressionar.”
Voltando ao assunto: aqueles jovens literatos que acreditam piamente que o Nepal é o lugar mais feliz do mundo são, em parte, os mesmos que vão de carona ao Tibete e proclamam ter alcançado a purificação da alma… São o mesmo grupo.
Sim, são aqueles que, rejeitando o avião, seguem de carona pela estrada Sichuan-Tibete, fantasiadas como ciganas, pegando carona durante o dia, “trocando favores” à noite, oferecendo o próprio corpo em troca de transporte, hospedagem e comida, até chegarem ao portão do Palácio de Potala.
Então, diante do céu limpo e do ar rarefeito, gritam: “Minha alma foi purificada!” Depois, postam textos afetados nas redes sociais, junto com fotos de seus rostos sujos e queimados pelo sol do planalto.
Toda uma pose de quem transcendeu o mundo material, alma elevada e espírito purificado… Purificação, uma ova. Será que já lavaram o cheiro azedo do corpo? Que hipocrisia.
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Chen Nuo deu uma volta e voltou carregando sacolas. Ao retornar à pousada, o pacote enviado por correio já o esperava no quarto. Conferiu os itens, arrumou tudo e desceu ao saguão para procurar o proprietário.
“Preciso ir para Lukla e depois para o EBC.”
O dono da pousada era um inglês, pele morena, olhar astuto. Olhando para o hóspede, sorriu: “Vai fazer trilha?”
“Não, de avião.”
“Amigo, se for para o EBC, recomendo que voe até Lukla e siga a pé. Pode contratar alguns xerpas, alugar iaques para o transporte e ainda apreciar a paisagem pelo caminho.”
Chen Nuo sorriu: “Estou com pressa, por favor, me ajude com isso.”
O proprietário se chamava Wilson, um típico nome britânico. Sua pousada em Catmandu parecia modesta, mas era popular entre entusiastas do montanhismo. Ele próprio era membro de algumas associações locais — do tipo respeitado.
Muitos alpinistas que visitavam o Nepal pela primeira vez buscavam informações e ajuda com ele — mediante pagamento, é claro. Esse foi o principal motivo de Chen Nuo escolher essa pousada.
Seu destino era o EBC.
Nome completo: Acampamento Base do Everest
Também conhecido como: Acampamento Base do Everest.
Localizado a cerca de 5.300 metros de altitude, é o acampamento usado por todas as equipes e entusiastas que pretendem escalar o Everest, antes do ataque final à montanha.
(Nota: O EBC do Nepal fica no lado sul do Everest; do lado chinês, no Tibete, há o acampamento do lado norte. Como o lado sul é menos perigoso, a maioria dos alpinistas no mundo escolhe a rota nepalesa — a do lado chinês é muito mais arriscada.)
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Wilson hesitou um pouco, mas ao ver Chen Nuo colocar um maço de dólares sobre a mesa, sorriu.
“Tenho alguns velhos amigos indo para o EBC. Estão descansando em Lukla e amanhã um helicóptero os levará ao EBC. Sabe, o helicóptero de Lukla ao EBC não é barato e preciso perguntar se aceitam um passageiro a mais.”
Chen Nuo pensou e acrescentou mais algumas notas na mesa. Desta vez, Wilson sorriu genuinamente.
“Meus amigos são generosos, creio que não recusarão um jovem alpinista oriental.”
Ele recolheu o dinheiro.
“Jovem, não é da minha conta, mas preciso dizer: escalar o Everest não é brincadeira. Você tem capacidade e preparo suficientes?” Wilson serviu um café e empurrou a xícara: “Conheço bons xerpas, posso conseguir um guia confiável, e se precisar da licença para escalar o Everest, também consigo por um preço razoável.”
Sim, a licença. Por lei nepalesa, é obrigatório obter permissão para escalar o Everest — custa dez mil dólares.
“Não se preocupe,” Chen Nuo sorriu. “Não pretendo escalar o Everest, só quero fazer trilha nos arredores. Não sou nenhum tolo.”
“Ótimo.” Wilson manteve o sorriso. “Todo ano aparecem aventureiros cheios de sonhos românticos, sem preparo, querendo subir o Everest… e todo ano alguns ficam pelo caminho. Se só vai caminhar nos arredores do EBC, não quer mesmo que eu arranje um bom guia xerpa?”
Chen Nuo bebeu um gole do café e respondeu: “Por favor, agilize o voo, quero aproveitar o helicóptero de seus amigos.”
“Então, nada de dormir bem esta noite. Vou contatar o aeroporto de Catmandu; amanhã de manhã há um voo para Lukla. Lá, encontrará meus amigos e seguirá de helicóptero ao EBC.”
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A vila de Lukla é lendária no mundo do montanhismo.
No mapa, parece insignificante, mas sua localização é estratégica. Quem pretende escalar o Everest pela rota sul do Nepal faz de Lukla o último ponto de reunião e abastecimento.
Situada a 2.840 metros, tem poucos habitantes.
Ali está um dos aeroportos mais famosos do mundo: o Aeroporto de Lukla.
Sua fama vem do título de “aeroporto mais perigoso do mundo”. A pista, conhecida como “a pista do teto do mundo”, tem apenas quinhentos metros e só aceita aviões pequenos. No final da pista, há um penhasco de setecentos metros — se o avião não frear a tempo, o desastre é certo.
Além disso, a pista é inclinada.
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21 de março de 2001, 9h40 da manhã.
Aeroporto de Lukla.
A jovem Neve Devonshire se encolheu, protegendo-se do frio sob a torre de controle, observando os pais conversarem com o piloto. O tio, por sua vez, discutia com um guia local, conferindo os equipamentos.
Aos dezoito anos, Neve era atlética: dominava natação, equitação, tinha licença de mergulho autônomo e era experiente em paraquedismo, além de frequentar o clube de esqui de Eton.
Loura, Neve não era uma daquelas damas aristocráticas frágeis. O sobrenome Devonshire atestava sua linhagem ancestral.
Podemos dizer que era uma jovem apaixonada por esportes, até mesmo os radicais. Seus traços eram marcantes e seu rosto, raro entre as europeias, era delicado. O rubor saudável e juvenil, resultado de anos de atividade física, dava-lhe um ar cheio de vida e energia. O corpo esguio e forte transbordava vitalidade juvenil.
Vinda de uma família aristocrática de esportistas — o pai, Rock Devonshire, era um renomado alpinista; a mãe, ex-remadora de Cambridge; o tio, mestre em hipismo — Neve herdara os genes atléticos da família e se destacava em tudo… Se não fosse pela existência da irmã mais velha.
Neve olhou para a silhueta elegante junto ao helicóptero, examinando a cabine.
Lux Devonshire, vinte e quatro anos. O dourado dos cabelos e a beleza da família.
Se Neve, aos dezoito, era o reflexo dos bons genes familiares, Lux, aos vinte e quatro, era o prodígio dos Devonshire, a sombra que eclipsava a irmã.
Neve era exímia esquiadora. Mas Lux, aos dezenove, já era membro sênior da renomada Associação de Esqui de Sölden. Aos vinte, cruzou o Canal da Mancha a nado, ganhando manchetes no Times. Era também especialista em técnicas de escalada alpina.
Em suma, tudo que Neve dominava, Lux fazia melhor. Herdeira da beleza da família e dona de formas esculturais, Lux também era queridinha da mídia, tendo estampado capas de revistas esportivas.
A viagem ao Nepal era uma espécie de “férias” para os Devonshire. Não pretendiam escalar o Everest desta vez. O objetivo era levar as duas filhas ao acampamento base, sentir o clima do montanhismo e, especialmente para a jovem Neve, experimentar a atmosfera da escalada ao explorar o Lobuche, famoso como o termômetro do Everest.
Sem problemas de orçamento, os Devonshire não iam, como os comuns, fazer a trilha a pé de Lukla ao EBC, nem contratar iaques para carregar suprimentos. Optaram por ir de helicóptero, economizando sete ou oito dias.
Sim… o poder do dinheiro.
“Pronto, meninas, está na hora de partir.”
Tio Benjamin, com sua barba cerrada, aproximou-se. Era irmão da mãe das garotas.
Bem, segundo a tradição chinesa, seria chamado de tio materno, mas os europeus não fazem diferença — chamam todos de tio.
“Já podemos partir?” Neve, já impaciente, perguntou: “Papai disse que ainda falta um passageiro?”
Neve não disfarçava o mau humor.
Benjamin ergueu a cabeça, protegendo os olhos do sol.
O som de um motor ecoava no céu.
Logo, um pequeno avião prateado pousou suavemente na pista, parando em segurança.
“Acho que nosso passageiro atrasado chegou.” Benjamin sorriu e saiu correndo.
Neve, de cara fechada, fitava o pequeno avião ao longe.
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Dez minutos depois, Chen Nuo estava diante da família Devonshire.
O jovem vestia um traje vermelho de montanhismo, usava óculos de proteção e exibia um sorriso branco e radiante.
O pai das meninas, Rock, olhou para o visitante: “Foi Wilson quem recomendou? Preciso ver seu passaporte, senhor.”
“Sem problemas.”
Chen Nuo entregou o documento ao homem elegante.
Rock o abriu e leu: “Seu nome é…”
“Chenyang.” Chen Nuo mentiu sem pestanejar. “Vinte e um anos, de Hong Kong.”
Não havia dúvida: o passaporte era falso, feito ali mesmo em Catmandu no dia anterior, por cinquenta dólares.
Desde que chegara, usava esse passaporte para tudo — pousadas, encontros —, pois em Catmandu não havia sistema online de checagem, facilitando a vida de quem precisava passar despercebido.
Como esperado, Rock não desconfiou e devolveu o passaporte, apenas comentando: “Seu inglês é muito bom, e o sotaque, perfeito. Já esteve em Londres?”
“Algumas vezes, a turismo.” Chen Nuo sorriu. “Sou torcedor do Arsenal.”
Instantaneamente, Rock se mostrou mais amistoso: “Ótimo, toda nossa família torce para o Arsenal. Bem-vindo ao grupo, senhor Chen.”
O homem apertou a mão de Chen Nuo, mantendo a típica seriedade britânica: “Que fique claro: você só pagou pelo assento no avião. Não somos responsáveis por seus atos ou consequências, e nossa relação termina ao pousarmos no EBC.”
“Compreendo, sou apenas um passageiro de carona.” O jovem sorriu, exibindo os dentes brancos.
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