Capítulo Oitenta e Seis – Dívidas e Ressentimentos de Vidas Passadas
Capítulo Oitenta e Seis — As Dívidas de Outras Vidas
A vida do Leizinho também não era fácil. Contava com seu olhar atento, seu faro para as oportunidades e, claro, aquela cabeça reluzente que o tornava inconfundível. Subira a pulso, a ponto de se tornar um parceiro de ouro ao lado de Chen, o Senhor das Trevas. Mas eis que surgiu Zhang Linsheng, que, sem o menor pudor, se agarrou ao Nor e, entre avanços e retiradas, quase conquistou o papel de protagonista feminina. Assim, Leizinho acabou sendo deixado de lado por um bom tempo.
Ora, formar casal não é exclusividade, eu, o Cabeça Brilhante, também posso! Já até pensei em um nome para a dupla!
Pois então, Nor ligou no meio da noite, dizendo que precisava acertar as contas com alguém. E ainda exigiu que batesse o suficiente para render quatro mil yuan em despesas. Leizinho ficou encafifado. Depois de algumas ligações, chamou para a tarefa os amigos mais experientes em brigas. Antes de espancar Gu Kang, ainda aproveitou para flertar com uma moça. Por pouco Gu Kang não ficou inválido, já que nem seguro-saúde tinha! Se houvesse reembolso, o que fosse coberto não entraria na meta, e os quatro mil dariam para deixar Gu Kang paralítico!
Depois da surra, viu Gu Kang, logo cedo, mancando sozinho até o hospital. Ao perguntar, soube que entre tomografias, consultas, remédios e gesso, a conta chegou a quatro mil e seis yuan. Mandou um capanga ficar de olho no hospital. Leizinho se esgotou após um dia e uma noite de trabalho intenso e foi dormir em casa.
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Naquela tarde, Zhang Linsheng foi ao mercado de celulares na Rua Danfeng, em Nanjing. Deu umas voltas, escolheu um Nokia usado. O vendedor pediu quatrocentos, mas ele barganhou até trezentos e cinquenta. Provavelmente era roubado, sem nota ou caixa. As teclas falhavam, mas ainda servia. Colocou o chip, sentiu uma excitação. Afinal, era seu primeiro celular, mesmo que fosse de segunda mão e com a pintura já gasta nos cantos. Mas Zhang Linsheng o segurava como um tesouro.
Passou um mês trabalhando escondido, dizendo à noite que ia para aulas extras, mas, na verdade, descarregava mercadorias no depósito do mercado. Às vezes, ainda acordava cedo para treinar boxe com o velho Jiang. Era puxado.
O pouco que ganhava virou aquele pequeno aparelho. Assim que pôde, discou o número mais familiar para ele.
O telefone tocou longamente, sete ou oito vezes, mas Zhang Linsheng não tinha pressa. Até que finalmente atenderam.
— Alô... quem é? — Uma voz sonolenta, desanimada.
Qu Xuelling claramente ainda não tinha acordado. Trabalhando em turnos, vivia mais à noite; terminava tarde, demorava a dormir, só pegava no sono ao amanhecer. Agora eram mais de três da tarde e ela ainda estava na cama.
Nervoso, Zhang Linsheng conferiu as horas, falou com cuidado:
— Sou eu. Hã, você ainda está dormindo? Te acordei?
Qu Xuelling pulou da cama, animada:
— Hanãozinho! Finalmente me ligou! Ué? É de um número de celular... esse é seu número mesmo?
— Sim, é o meu.
Depois de mais de um mês, Zhang Linsheng finalmente pôde dizer com orgulho o que sempre quis:
— Salva meu número aí, qualquer coisa me liga.
Qu Xuelling respondeu alegremente e completou:
— Hanãozinho, está ocupado mais tarde?
— Hã... não, por quê?
— Vamos jantar juntos hoje? Estou de folga.
— Jantar? — Ele ficou animado, mas também inseguro. — Não vai trabalhar hoje?
— Estou com dor de barriga, bobo. Não posso beber, então folguei — disse ela, rindo ao telefone.
— Ah, tá... Então, o que quer jantar?
— Fondue.
Após desligar, o rapaz até sentiu uma pontinha de desapontamento. Vocês entendem...
Guardou o celular no bolso, foi buscar a bicicleta e, no caminho, acabou esbarrando em alguém. Mas pensando no encontro da noite, nem se importou.
Só que, ao pegar a chave, percebeu: droga! O celular sumira!
Suou frio no mesmo instante, tomado de raiva. Perdera? O bolso era raso, teria caído? Impossível! Alguém trombou nele antes!
Virou-se e correu de volta, avistando o rapaz que o esbarrara, já se unindo a dois comparsas numa esquina.
Tomado de fúria, Zhang Linsheng não pensou duas vezes e acelerou o passo, alcançando o sujeito por trás, agarrando-lhe o braço.
— Devolve meu celular!
Puxou com força; o rapaz, com a mão no bolso, acabou deixando o aparelho cair, que voou pelo ar.
— Meu Nokia!
Ignorou o ladrão, correu e agarrou o aparelho no ar. O toque duro e retangular trouxe uma sensação de alívio imediato.
— Moleque, tá querendo morrer?
Veio um xingamento e um soco. Zhang Linsheng desviou instintivamente, seu corpo movendo-se com uma fluidez natural, como se os dias e noites de treino tivessem criado uma memória muscular perfeita. Inspirou, girou, colou no adversário, expirou, apoiou-se, levantou levemente o ombro e soltou o ar.
A respiração acompanhou o movimento.
Ouviu-se um estrondo! Na rua estreita, uma silhueta voou como se tivesse levado um uppercut, os pés se elevaram uns trinta centímetros do chão e caiu pesadamente, derrubando uma fileira de bicicletas.
Zhang Linsheng finalmente percebeu o que fizera, olhando, boquiaberto.
Fui eu que dei esse golpe?
Os dois comparsas também ficaram chocados.
Eles se entreolharam, hesitaram, mas logo mostraram os dentes e cercaram Zhang Linsheng. Um deles sacou uma lâmina.
Zhang Linsheng ficou tenso. Brigar, tudo bem, mas nunca enfrentara armas. Desviava, mas num descuido a lâmina rasgou sua camisa.
Droga! Era minha camisa nova da Giordano!
Tomado de raiva e pena, seu corpo reagiu automaticamente. Baixou o ombro, avançou, desviou do braço do adversário, colou no sujeito, empurrou com o ombro e, com a mão direita livre, socou o abdômen do inimigo.
Bum!
O homem voou para trás, rolou duas vezes no chão e bateu contra a parede de uma casa.
Zhang Linsheng olhou para o próprio punho, pasmo.
Eu... fiquei tão forte assim?
Mas doeu! Notou um corte no braço, agora sangrando.
Viu o último dos ladrões assoviar. Logo, mais capangas surgiram na esquina.
Não quis arriscar, correu até a bicicleta, montou e pedalou com força.
Só parou duas ruas adiante, sem perseguidores, respirando ofegante e segurando o ferimento.
Esses ladrões de hoje estão ousados demais...
Mas... fui eu mesmo que bati naqueles dois? Dois adultos, mandei os dois voando? Fiquei forte de uma hora para outra?
Será que aquele boxe do velho Jiang é mesmo poderoso?
Com a cabeça cheia de devaneios, Zhang Linsheng pedalou para longe.
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O boxe ensinado pelo velho Jiang não era invenção, mas era apenas o básico. A técnica de respiração também era só uma introdução. Além disso, o velho Jiang nunca ensinara golpes de verdade.
A razão para o súbito aumento de força de Hanãozinho era, claro, a intervenção de Chen, o Senhor das Trevas. Mesmo sendo somente o básico, Chen, usando seu poder mental, guiara Zhang Linsheng a repetir incontáveis vezes o ciclo energético, formando uma memória corporal. Assim, sempre que o corpo de Zhang Linsheng se movia mais intensamente, a memória automática ativava o ritmo de respiração aprendido.
Além disso, o rapaz passou de um robô enferrujado a um prodígio de músculos flexíveis porque, naquela noite, Chen usara sua energia mental para desbloquear todos os canais do corpo de Hanãozinho.
Em termos das velhas histórias de artes marciais, ele havia desbloqueado os dois principais meridianos do corpo!
E, depois disso? Aí, sim, virou um dragão voando no céu!
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Chen estava entrando no site do Polvo. Usava a conta “Macaco Hidráulico”.
A missão de eliminar Jiang Yingzi estava quase vencendo o prazo de trinta dias.
Chen não ficou parado; tentou, duas vezes, mandar mensagens privadas para o contratante, tentando arrancar informações.
Chegou a preparar alguns truques.
Mas algo inesperado aconteceu.
Durante todos esses dias, o contratante nunca respondeu. Nenhuma resposta sequer. Era como se nunca acessasse a conta.
Será que descobriu meu jogo?
Mesmo Chen, com toda sua astúcia, nada podia fazer se o adversário não mordesse a isca.
Talvez tenha percebido, pensou.
Ou não...
De qualquer forma, Chen decidiu não se preocupar.
Se fosse assim, em breve haveria nova tentativa de assassinato contra Jiang Yingzi e ele poderia lucrar novamente. Só de pensar, ficava animado.
Talvez, dessa vez, chamasse o velho Jiang para servir de isca. E, se fosse preciso, não o trairia desta vez.
Verificou novamente o status da missão: ainda pendente.
Se o contratante tivesse percebido, teria cancelado e encomendado de novo, pensou.
Ou estaria só ganhando tempo?
Não parecia o caso.
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No topo de um hotel de luxo em Nanjing.
Na cobertura de um dos prédios mais altos do centro, famosa pela vista espetacular.
O rio Yangtzé, ao longe, e o Lago Xuanwu, tudo à vista.
À noite, olhando de cima para as luzes e o trânsito, sentia-se como se dominasse toda a cidade.
Uma silhueta feminina e esguia estava diante da janela, imóvel, contemplando a paisagem há muito tempo.
Envolta em um roupão, o rosto delicado meio escondido por grossos óculos de armação preta. Sob o tecido, curvas maduras e exuberantes, como um pêssego suculento.
Por fim, o telefone sobre a mesa tocou.
A mulher foi até ele, ainda com um ar distraído, como se não tivesse despertado do transe.
— Meu docinho, — ao atender, sorriu e fez beiço — fiquei fora de casa, não mexeu no meu sorvete no congelador, né? Crianças não podem comer muito doce, você está trocando os dentes ainda...
Do outro lado, silêncio, depois uma voz cristalina respondeu:
— Mestra, acho que está enganada. Na última noite antes de viajar, você comeu todos os doces da geladeira — e também todo o álcool da casa.
— Sério? — estranhou ela.
— Sim! Se eu não te impedisse, você teria roído até os hashis do jantar!
A mulher ficou atônita, depois riu, acenando:
— Deixemos essas bobagens de lado. Tem alguma novidade para me contar?
— Aceitaram minha proposta, — o tom da voz ao telefone era orgulhoso. — Arranquei até o último centavo deles.
— Então... vamos lucrar muito?
— Mestra, só depende de você não causar mais imprevistos.
A mulher pareceu não ouvir o aviso; seus olhos atrás dos óculos brilharam de ganância:
— Muito, muito dinheiro! Vou poder comprar muito álcool!
Abraçou o telefone, rindo feliz, quase boba:
— Docinho, quando ganharmos, te levo para Las Vegas! Podemos apostar e ver muitas garotas dançando no pole dance!
— Professora! Falar essas coisas para uma criança de nove anos não é apropriado!
— É? — Ela riu. — Muitas vezes esqueço sua idade.
— Por favor, não diga mais essas coisas! Estou construindo minha personalidade, você é minha mestra! Não quero crescer e ficar igual a você!
A mulher, conhecida como Imperatriz das Estrelas, balbuciou, depois riu:
— Não diga isso, docinho, eu já bebia escondido aos nove anos... Aliás, no seu último aniversário, coloquei um pouco de rum no bolo e você adorou!
Do outro lado, silêncio, até que Yú Naitang explodiu, furiosa e fofa:
— Lu Xixi!!!
A Imperatriz das Estrelas afastou o fone, mas ainda ouviu a menina gritar:
— É o último aviso! Se fizer isso de novo, deixo de ser sua aluna! Prefiro ir com aquele Magista, que prometeu me dar todos os livros da Sociedade dos Monges se eu chamá-lo de mestre!
A Imperatriz ficou sem argumentos:
— Mas você é minha aluna mais esperta...
— Ainda tenho só nove anos! Você me dando bebida vai atrapalhar meu desenvolvimento intelectual! Louca!
Plá! O telefone foi brutalmente desligado.
A Imperatriz das Estrelas olhou para o aparelho, murmurando:
— Ficou brava? Ai ai, que problema... com que mimo vou agradar minha docinho? Será que devo roubar os manuscritos de Harry Potter, que ainda não foram publicados?
E então, o telefone tocou de novo.
Ela atendeu, sorrindo:
— Docinho, sabia que não ficaria brava comigo, você é minha pupila mais esperta...
— Estou tão brava que desligar uma vez não basta, liguei só para desligar de novo!
Plá! Desligaram novamente.
A Imperatriz das Estrelas ficou olhando o telefone:
— Ai, que dilema...
Desabou na cama, largada sob o roupão que deixava à mostra parte de sua nudez.
— Preciso resolver logo tudo por aqui e voltar para casa. Tomara que o pequeno de Nanjing não me decepcione... Se esse novo pupilo for esperto o bastante, talvez eu possa mesmo 'vender' meu docinho para o Magista... As coleções de livros da Sociedade de Monges dele são tentadoras...
— Mas... não tenho coragem de me separar dela. Docinho é tão fofa, cheirosa, não quero...
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Imperatriz das Estrelas.
Nome verdadeiro, desconhecido. Idade, desconhecida. Habilidades, desconhecidas.
Nível de poder: Controladora.
No submundo mundial, ninguém ignora esse nome.
Não é famosa apenas por seus feitos extraordinários, nem por já ter enfrentado sozinha, mais de uma vez, uma organização de nível A.
Mas sim porque...
— Essa velha é completamente louca!
— Segundo a linha do tempo da vida passada, alguns anos depois, o lendário Senhor das Trevas, Chen, publicou abertamente no site do Polvo um ataque direto à Imperatriz das Estrelas. (Ninguém sabe o motivo da rixa ou por que ele a atacou publicamente.)
E diante da crítica do rival de mesmo nível, a resposta da Imperatriz foi espantosa:
— Canalha, pequeno e nem levanta, ainda tem coragem de falar de mim!
O quê!!
Naquele momento, Chen ficou completamente atônito ao ver a resposta pública da mulher no site!
Que tipo de provocação era essa?!
Ela levou tudo ao extremo, disposta a se explodir só para arrastar o rival junto!
Não era suicídio mútuo?
Eu sou muito bem-dotado, ora! Eu sou forte!
Essa mulher inventa para me difamar!
Nunca dormi com essa louca!
Ela está mentindo só para me prejudicar!
Mas... não adiantou.
Quando uma mulher poderosa faz uma revelação dessas em tom ambíguo, sua palavra ganha credibilidade de “grande chefe”.
Mesmo sendo mentira, todos acreditam!
E assim, até o renascimento de Chen, o submundo inteiro continuava a espalhar o boato de que “o Senhor das Trevas foi namorado da Imperatriz das Estrelas, e era pequeno e mole”.
Por isso, sempre que Chen se lembrava dessa mulher, ficava cheio de ressentimento.
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Hoje ainda, duas postagens, dez mil palavras! Até amanhã.