Capítulo Sessenta: O quê?
Capítulo Sessenta: "O quê?"
No dia seguinte, Li Yingwan não apareceu na escola. Provavelmente, sua mãe, tendo vindo para a China, quis aproveitar para reencontrar a família. A escola, naturalmente, facilitou tudo — afinal, a direção do Oitavo Colégio sempre teve sentimentos bem contraditórios em relação à aluna transferida da Coreia do Sul.
Em teoria, sendo filha de um grande capitalista de um país abastado, alguém que investia na cidade, era de se esperar que o governo oferecesse as melhores condições possíveis. Para Li Yingwan, qualquer escola abriria as portas. Mas, curiosamente, ela veio para o Oitavo Colégio — e, segundo informações superiores, foi uma escolha expressa dela. A direção do colégio ficou até desconcertada... Será que a fama da nossa escola chegou tão longe?
Diferente da cautela dos diretores, a empresa de educação ficou exultante. Após a reestruturação, tornaram-se uma escola particular; se conseguissem atrair um grupo de alunos estrangeiros, poderiam até criar um departamento internacional — seria um verdadeiro sucesso.
Assim, o Oitavo Colégio tratou Li Yingwan com extremo cuidado. A direção repetiu inúmeras vezes que nada poderia acontecer com a garota durante sua permanência ali. E de fato, o empenho era visível: durante todos esses meses, nenhum dos alunos problemáticos ousou incomodar Li Yingwan. Claro que não podiam impedir as declarações de amor ou tentativas de agradá-la, mas ninguém dos conhecidos encrenqueiros da escola se atreveu a importuná-la.
Por exemplo, o antigo parceiro de Zhang Linsheng, que agora era conhecido como o “Domyoji” do Oitavo Colégio — no mês passado, era chamado de “Irmão Galo” do Oitavo. Num colégio como esse, onde sempre há alguns casos problemáticos, a vida de Li Yingwan seguiu tranquila, graças a ações discretas, mas firmes, da escola, que advertiu severamente alguns alunos.
E quem foi a pessoa mais feliz com a ausência de Li Yingwan? Sem dúvida, Sun Keke!
Sem precisar ver a "insetinha" irritante, Sun Keke sentiu que o dia estava mais radiante, o sol mais brilhante, e até comeu mais no almoço. Nos intervalos, ela logo se sentou ao lado de Chen Nuo, conversando animadamente — se não fosse dentro da sala de aula, provavelmente já estaria aninhada no rapaz.
Jovens apaixonados são assim, especialmente nos primeiros momentos. Só quem sofreu foi Luo Qing. O dia inteiro, entre cada aula, sentiu-se um estorvo, um verdadeiro “abajur” humano, indo ao banheiro cinco ou seis vezes e, ao voltar, só podia ficar de canto — seu lugar estava ocupado por Sun Keke.
Mas o azar logo se voltou para Sun Keke.
Na segunda aula da tarde, o velho Sun apareceu de repente na sala. Na verdade, só queria conversar com o professor Wu sobre assuntos administrativos. Mas, ao entrar, deu de cara com sua filhinha, coladinha em Chen Nuo, com um olhar apaixonado, encostada no braço do rapaz — e isso porque estavam em público! Se estivessem a sós, provavelmente já estaria no colo de Chen Nuo.
O velho Sun ficou imediatamente com o semblante carregado, levou a mão ao peito, respirou fundo várias vezes para se acalmar e chamou Sun Keke para fora.
Sun Keke ficou apreensiva — estava justamente planejando convidar Chen Nuo para ir ao cinema no fim de semana. Mas depois de sair, não voltou para a aula seguinte. Só apareceu depois do final da aula, com os olhos vermelhos, visivelmente repreendida.
Dessa vez, o velho Sun foi mais duro do que de costume. Na verdade, Sun Keke sempre teve uma ótima educação, e o velho Sun é, de fato, um bom pai e professor. Mas naquele dia, perdeu a paciência.
— Seu pai brigou com você? — Chen Nuo se aproximou, dando tapinhas de consolo.
Sun Keke respondeu timidamente, sem saber se devia se explicar.
— O que ele disse?
— Disse que, na escola, meu comportamento está... inadequado. — Sun Keke corou, percebendo que de fato exagerara, especialmente sendo surpreendida pelo próprio pai.
— Mas não precisava chorar, né? Seu pai é muito mais mole do que parece. Hoje à noite, faça um agrado e tudo se resolve.
— Humpf, ele vai me pôr em aulas extras...
— O quê?
Perguntando mais, logo entendeu. O velho Sun arrumou professores para aulas particulares para Sun Keke. A partir da semana seguinte, aulas de chinês nas segundas, quartas e sextas à noite; inglês nas terças, quintas e sábados. Especialmente inglês, onde Sun Keke tinha as piores notas.
O velho Sun ainda queria garantir que a filha tivesse chance de entrar na universidade, daí o aperto. E, claro, havia outro motivo... nem precisava mencionar.
— Agora, depois da escola, não vou poder te ver... nem aos fins de semana. — Sun Keke fez beicinho. — Meu pai disse que no fim de semana vai arranjar aula de matemática.
Uau.
Chen Nuo sorriu. O velho Sun estava mesmo determinado a impedir que os dois ficassem sozinhos. Olhando para a menina frustrada à sua frente, só pôde suspirar e consolar.
No fim das contas, o velho Sun não estava errado. “O homem só quer que a filha passe no vestibular, não é? Organizou aulas extras, tem todo direito. O que posso dizer?” Não seria possível ir até o velho Sun e reclamar: “Que aula o quê! Namorar não é melhor?” Provavelmente seria expulso a pontapés.
Na saída, Sun Keke foi para casa, suspirando, e Chen Nuo pegou sua bicicleta para o jantar marcado com mãe e filha Vaga-lume.
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Jiang Yingzi deu ainda mais atenção a Chen Nuo do que Li Yingwan havia previsto. O jantar foi marcado num restaurante de pescados no bairro JN1912. Jiang Yingzi, após consultar a filha, descobriu que Chen Nuo gostava de peixe e de sabores leves, por isso escolheu aquele lugar a dedo.
Ciente da situação delicada de Chen Nuo, evitou ir à escola buscá-lo, mas não descuidou da etiqueta. Quando Chen Nuo chegou, ela já o aguardava nas escadas do restaurante, mostrando-se educada e cortês, sem nunca subestimá-lo por ser jovem.
Afinal, após o que presenciou naquela noite na Coreia, Jiang Yingzi ficou profundamente impressionada.
Assim que Chen Nuo estacionou a bicicleta, um assistente de Jiang Yingzi correu para recebê-lo e cuidar do veículo.
— Pode deixar a bicicleta com ele, não se preocupe, ficará tudo certo.
Jiang Yingzi fez uma reverência típica coreana, falou com toda cortesia e liderou o caminho até um salão privado no andar de cima. O restaurante não era grande, mas de alto padrão, e Jiang Yingzi reservou o maior salão, para mostrar respeito ao convidado.
Li Yingwan seguiu a mãe, comportando-se exemplarmente, sem as brincadeiras e afagos de costume, como se fosse uma verdadeira dama, acompanhando cada gesto da mãe. Mas, ao entrar no salão, não se conteve e foi sentar-se ao lado de Chen Nuo, apesar do olhar reprovador da mãe.
— Peço desculpas pela falta de rigor na educação da minha filha. Ela lhe deu muitos transtornos — disse Jiang Yingzi, curvando-se após Chen Nuo se sentar, e só então tomou seu lugar ao lado oposto.
Assim, Chen Nuo ficou ao centro, com mãe e filha Vaga-lume à esquerda e à direita.
Os pratos chegaram rapidamente, todos preparados pelo chef principal, conforme instruções de Jiang Yingzi, que mandou o secretário ficar de prontidão do lado de fora para controlar o serviço.
Chen Nuo percebeu que todos os pratos eram de seu gosto. Li Yingwan, nestes meses, já conhecia suas preferências, depois de tantos almoços juntos, inclusive em sua casa.
Jiang Yingzi mandou trazer uma garrafa de aguardente e, só depois de perguntar cuidadosamente a Chen Nuo, abriu-a.
— Ouvi dizer que não aprecia soju coreano, então trouxe uma cachaça chinesa, produzida aqui na província. Não sei se é do seu agrado, mas imagino que um anfitrião deva servir o que é da sua terra — disse, servindo ela mesma um copo para Chen Nuo, outro para si e, após hesitar, um também para a filha.
Chen Nuo olhou surpreso para aquela mulher.
Jiang Yingzi pigarreou levemente e sinalizou para Li Yingwan. A filha se levantou, e as duas, mãe e filha, posicionaram-se ao lado de Chen Nuo.
— Este brinde é um agradecimento de toda a família Li pelo seu favor. Em respeito, deveria ser um homem da família a fazê-lo, mas meu filho é jovem e está doente, então não o trouxe.
Com tom solene, Jiang Yingzi respirou fundo e bebeu o copo inteiro de uma vez.
Li Yingwan, instruída pela mãe, imitou o gesto, embora logo começou a tossir — afinal, a cachaça chinesa é muito mais forte que o soju coreano. Jiang Yingzi, mesmo sentindo o ardor, conteve-se, expirou duas vezes rapidamente e, então, puxou a filha ainda tossindo e se ajoelhou diante de Chen Nuo.
Mãe e filha realizaram a tradicional saudação coreana, ajoelhando-se, mãos na testa, depois ao chão, em sinal de profunda gratidão.
Chen Nuo, surpreso, levantou-se, tentando evitar o gesto.
— Não precisa disso. Somos amigos de mesma geração, e você é minha senior, não é adequado.
Jiang Yingzi ergueu a cabeça, com expressão solene.
— Não, é necessário.
Ela baixou ainda mais o tom de voz, para que só os três ouvissem:
— Soube por Li Yingwan que foi você quem levou He Zhengzai... Os irmãos da família Che, He Zhengzai... todos foram responsáveis pela morte do meu marido. Você...
Fez uma pausa, depois completou:
— Você vingou meu marido! Por isso, esse gesto é obrigatório.
Diante da firmeza nos olhos da mulher, Chen Nuo apenas suspirou e deixou que concluíssem a cerimônia. Jiang Yingzi curvou-se mais duas vezes, em agradecimento por ter salvo a vida de sua família.
De volta aos lugares, Jiang Yingzi serviu comida e bebida a Chen Nuo, enquanto Li Yingwan, com todo o zelo, separava pedaços de peixe sem espinhas para ele, como uma pequena criada dedicada.
Olhando para o peixe no prato e para o olhar ansioso de Li Yingwan, Chen Nuo apenas comeu em silêncio. Jiang Yingzi pareceu aliviada e serviu-lhe uma tigela de sopa.
— Vim não só para agradecer, mas também para conversar sobre Li Yingwan.
Chen Nuo colocou os hashis de lado e sorriu:
— Eu também queria falar com você sobre isso...
Já havia preparado algumas palavras para sugerir que era melhor levar a filha de volta.
Mas, antes que pudesse continuar, Jiang Yingzi ergueu o copo, obrigando Chen Nuo a brindar novamente.
Ela bebeu tudo de novo, respirou fundo e continuou:
— Minha filha, apesar de um pouco travessa, tem bom senso e sabe se cuidar. Não somos uma família abastada — o pai dela veio de origem humilde, assim como eu. Mas, depois que meu marido começou a prosperar, eduquei bem meus filhos, trazendo até professores para o que eu não sabia ensinar. Por isso, ela sabe fazer de tudo em casa, não é burra, só apronta um pouco, mas com disciplina aprende fácil...
Ué?
Chen Nuo sentiu que havia algo estranho nesse discurso.
— Vim, além de agradecer, para averiguar se minha filha lhe causou problemas aqui na China. Agora que vi que está tudo bem, fico tranquila.
Mas... isso está soando diferente...
— Você é o grande benfeitor da família Li. Salvou nossas vidas, vingou nosso sofrimento. Sem você, nossa casa teria acabado! Naquela noite, He Zhengzai veio decidido a nos exterminar, disso tenho certeza.
Pensei muito em como retribuir tamanho favor.
Dinheiro? A família Li até tem, mas para alguém como você, seria até ofensivo. E, pelo que Li Yingwan me disse, você leva uma vida simples, parece não dar importância ao dinheiro. O que é natural, para alguém de suas habilidades.
Pensei, pensei, e, felizmente, esses meses aqui me deram tranquilidade em relação à minha filha.
Por isso, hoje, quero lhe pedir...
Jiang Yingzi levantou-se mais uma vez e curvou-se diante de Chen Nuo.
— Minha filha, de aparência razoável e não tão tola, sabe cuidar das coisas. Se não se incomodar, gostaria que ela ficasse ao seu lado, servindo-o. A gratidão da família Li pela vida e pela vingança será representada por ela, em nome do pai falecido, permanecendo ao seu lado!
E, dizendo isso, ajoelhou-se novamente.
O quê?!
Chen Nuo ficou estupefato.
Não... Essa cena me parece familiar! Isso não é igual àquela história da senhora Zhuang entregando Shuang’er ao Lorde Wei?!
Minha senhora, estamos em 2001! A dinastia Qing já acabou há tempos!
Ficou louca?
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Toc, toc, toc...