Capítulo Cinquenta e Quatro: Notícias da Família
Naquele momento, o soberano Li exibia um semblante nada agradável, mas ainda assim forçou um sorriso ao dizer:
— Majestade Zhou, que palavras são essas? O Império Muyun sempre honrou os heróis da raça humana. Com feitos tão grandiosos em prol da estabilidade de nossas fronteiras, como poderíamos considerá-lo inimigo? O passado não passa de um mal-entendido entre irmãos. Peço que nos perdoe!
Enquanto falava, mostrava-se prestes a ajoelhar-se.
Ao presenciar tal cena, um traço de frieza e desprezo passou pelos olhos de Su Zhe. Ele então declarou calmamente:
— Se não deseja lutar, então retire-se. Já que o Sétimo Ancião já lhe impôs sua punição, este rei não se dará ao trabalho de lutar contra alguém com o poder selado.
Com a voz ainda ecoando, o soberano Li não ousou hesitar e apressou-se em responder:
— Partirei imediatamente!
Preparava-se para se retirar. Vendo o segundo tio cambalear, com os poderes destruídos, Shengxin apressou-se a dizer:
— Segundo tio, deixe-me acompanhá-lo de volta!
No entanto, o soberano Li, ouvindo isso, não demonstrou gratidão; empurrou-a rudemente para o lado e disse:
— Você raramente sai, quase não tem amigos. Aproveite e faça companhia ao rei Zhou, é melhor assim. Não preciso que cuide de mim!
Após essas palavras, atravessou os portões do palácio. Assim que cruzou a soleira, quebrou de imediato o talismã de jade que trazia. Sozinho, não ousaria jamais retornar, então precisava de escolta.
Shengxin, por sua vez, viu o tio partir com um olhar resignado e não teve escolha senão informar seu pai, o imperador. Depois, virou-se um tanto constrangida para Su Zhe:
— Obrigada por poupar a vida do meu tio.
— Não há de quê, ele já recebeu a punição que merecia, não?
Respondeu Su Zhe, sorrindo.
Shengxin apenas assentiu. Afinal, a culpa recaía sobre o Império Muyun. Su Zhe, desde o início, não pronunciara uma palavra sequer diante do Sétimo Ancião, um ato de extrema generosidade. Salvou o império de uma catástrofe. Se tivesse demonstrado qualquer insatisfação, o Sétimo Ancião teria exterminado toda a linhagem real sem hesitar. Afinal, quem portava a Espada de Mérito era tratado como nobre do império, com privilégios especiais.
O que Shengxin não sabia era que Su Zhe não se calara por piedade, mas sim porque detestava pedir favores — e menos ainda desejava depender do poder alheio.
Su Zhe, por sua vez, pouco sabia do que se passava no coração de Shengxin. Mas, uma vez que ela estava ali, era seu dever como anfitrião recebê-la.
Com esse pensamento, sorriu e disse:
— Vamos conversar no grande salão e, aproveitando, provar algumas das delícias típicas de Da Zhou!
Havia um sorriso gentil em sua voz.
Shengxin, é claro, não recusou. Na última vez, ainda no domínio das bestas, já experimentara uma estranha sensação de conforto ao lado de Su Zhe. Agora, estando ali, não via motivo para não aceitar o convite.
Logo que entraram no salão, uma variedade de pratos foi servida à mesa. Ao notar que só eles dois estavam ali, Shengxin perguntou, curiosa:
— Só nós dois? Você não tem uma rainha?
Afinal, para um rei daquela idade, já deveria ter filhos — e, naturalmente, uma rainha.
Diante da pergunta, Su Zhe esboçou um sorriso amargo:
— Ainda não.
E logo começou a comer, erguendo também uma ânfora de vinho e bebendo em grandes goles.
Apesar de deter enorme poder em Da Zhou e ser considerado um herói da raça humana, Su Zhe sentia-se profundamente solitário. Sua família fora massacrada, uma dor eterna que carregava na alma. Fora dois irmãos de confiança, não lhe restara mais nada. Nada poderia preencher o vazio afetivo.
Bebeu uma ânfora inteira como se fosse um poço sem fundo, e logo tomou outra. A cicatriz em seu rosto parecia pulsar a cada movimento da garganta, como uma centopeia monstruosa.
Shengxin não sabia pelo que ele passara, apenas observava em silêncio, bebendo lentamente uma taça de vinho de vez em quando. O salão era permeado por uma atmosfera de solidão.
Naquele momento, Su Zhe assemelhava-se a um rei animal, feroz e ermo, lambendo suas próprias feridas com goles de álcool.
Foi então que Zhao Xing entrou apressado. Ao ver Su Zhe bebendo, anunciou:
— Majestade, chegaram notícias. O massacre do clã Hou não foi total. O povo do Clã do Deus dos Ventos conseguiu resgatar alguns sobreviventes. No entanto, como a operação de resgate foi descoberta, o imperador déspota ordenou o extermínio do clã, forçando seu líder e os sobreviventes do clã Hou a fugir, lutando durante a fuga até entrarem no Império Cangwu. Dizem que atualmente estão abrigados em uma cidade chamada Fengli.
Ao ouvir isso, Su Zhe levantou-se de imediato, avançando até Zhao Xing:
— O que diz é verdade?
— Desde que partiu para o domínio das bestas, e achando que não mais voltaria, enviei gente para buscar notícias do clã Hou, sempre esperando que ao menos um descendente sobrevivesse. Agora, finalmente, recebemos notícias!
Zhao Xing respondeu com sinceridade no olhar.
Diante disso, Su Zhe não hesitou:
— Ótimo. Notifique o Exército da Armadura Negra, que partam comigo agora mesmo para Fengli!
Ao saber do paradeiro de seus familiares, não queria perder mais um minuto.
Zhao Xing, sem hesitar, respondeu respeitosamente:
— Como ordenar, Majestade.
E saiu para fazer os preparativos.
Enquanto isso, em Fengli, numa residência decadente, ouvia-se o choro de uma mulher. Aproximando-se, via-se tratar de uma senhora de meia-idade, com traços de nobreza, embora vestida de modo simples e gasto. Se Su Zhe estivesse ali, a reconheceria como sua tia.
Ao lado dela, sentado numa cadeira, um homem vestindo um manto azul-escuro exibia o rosto pálido, ainda não recuperado dos ferimentos. Era o líder do Clã do Deus dos Ventos.
Ele disse à tia de Su Zhe:
— Não se preocupe, enquanto eu respirar, trarei Meier de volta. Que importa que seja filho do senhor da cidade? Se for preciso, causamos uma reviravolta em Fengli e depois partimos! Que atrevimento, raptar alguém em plena rua!
A tia de Su Zhe respondeu, resignada:
— Nossa família já arrastou o clã à morte de tantos discípulos... Agora, que enfim encontramos um abrigo, como vou ter coragem de incomodá-lo ainda mais? Agradeço muito sua ajuda, mas quanto ao resgate, tentarei por conta própria.
Ditas essas palavras, preparou-se para sair. O clã Hou podia ter perdido tudo, mas não a dignidade. O Clã do Deus dos Ventos já fizera o suficiente; não podiam permitir que o líder sacrificasse ainda mais.