Capítulo Um: Ativação do Sistema
Dinastia da Ascensão Alada, Passagem do Trovão e do Vento.
O sol poente, rubro como sangue, projetava sua luz esmaecida sobre a imponente fortaleza de oitocentos li, erguida em pedra azulada.
Não havia ali qualquer traço de beleza; ao contrário, o crepúsculo apenas acentuava a sensação de antiguidade e desgaste.
Sobre os muros, guerreiros empunhavam lanças, vigiando atentos cada direção.
Quando o sol mergulhou no horizonte, já no interior do palácio do senhor da cidade—
“Su Zhe, embora haja um compromisso entre nós, e tenhamos sido amigos desde a infância, percebo agora que não é você quem ocupa meu coração. Por isso, decidi romper o noivado. Seu pai, o Marquês Divino da Guerra, já consentiu. Peço que você aceite!”
Com um estrondo, Su Zhe pressionou com força a carta sobre a mesa, soltando um longo suspiro. Jamais pensara, sendo ele o ilustre Marquês Campeão, nascido em família nobre, que passaria pela humilhação de ser rejeitado em casamento—um verdadeiro contrassenso do destino.
Sua noiva era também de família proeminente, filha do Mestre Supremo do Sol Verdadeiro, o atual Conselheiro Real da Dinastia da Ascensão Alada. Fora o próprio conselheiro que, anos atrás, veio pedir a mão de Su Zhe, selando a união. Agora, o compromisso era desfeito, e uma raiva silenciosa brotava no coração de Su Zhe.
Foi então que uma voz ecoou em sua mente:
"Ding, o sistema de registro divino está com noventa e nove vírgula nove por cento de energia acumulada. Ativação prevista em doze horas. Por favor, aguarde com paciência!"
Vestido com armadura negra adornada com dragões, Su Zhe recostou-se na poltrona de pele de tigre ao ouvir a mensagem.
A luz bruxuleante das velas projetava sombras em seu rosto anguloso, conferindo ao salão uma atmosfera opressora.
Se alguém observasse atentamente, notaria uma cicatriz horrenda em seu pescoço, semelhante ao rastro de uma centopeia—marca de seus anos defendendo as fronteiras. Além do pescoço, outras feridas cobriam seu corpo, tantas que seria impossível listá-las.
Há vinte anos, Su Zhe atravessou o véu do tempo e chegou a este mundo como herdeiro legítimo da casa do Marquês Divino da Guerra da Dinastia da Ascensão Alada. Desde cedo demonstrou talento incomum, atraindo o olhar dos altos dignitários. Aos quinze, foi enviado à fronteira.
Em apenas cinco anos, ascendeu de simples capitão a Marquês Campeão, acumulando glórias militares e sendo considerado um prodígio sem igual. Seu cultivo atingira o Reino do Núcleo Dourado.
Contudo, a presença de dois marqueses em uma mesma família despertou a suspeita do Rei Alado, que via com crescente inquietação o poder de Su Zhe. Dias atrás, soube por carta que seu pai fora destituído do comando militar, obrigado a viver em reclusão, e sua família tornara-se refém velada do reino.
Apesar do descontentamento, Su Zhe nada podia fazer. Por gerações, os Su sempre serviram ao reino, jamais cogitando rebelião. Quando ousava expressar insatisfação, recebia severas reprimendas do pai.
Além disso, em dois meses ele seria chamado à capital para casar-se com a filha do conselheiro, sua amiga de infância. Deixaria de comandar tropas sozinho, o que talvez aliviasse as suspeitas do rei. Quem poderia prever que ela, agora, romperia o noivado?
Lembrava-se claramente do dia em que recebeu o título de marquês; Zhang Yunlan jurara casar-se apenas com ele. Como a vida pode ser inconstante!
Apesar da frustração, Su Zhe, forjado no fogo e sangue, não se deixaria abalar por aquilo.
Foi então que passos leves e decididos ecoaram pelo salão, fazendo suas sobrancelhas franzirem. Ordenara que ninguém entrasse sem permissão, mas alguém ousou adentrar.
Seus olhos brilharam ferozes, exalando a aura assassina acumulada em anos de batalhas—o salão transformou-se num abismo infernal, e o recém-chegado empalideceu.
Erguendo um distintivo, o visitante declarou em tom cortante:
“Ordem real! O Marquês Campeão não deve agir com desrespeito!”
Logo, uma energia gélida preencheu o ambiente, confrontando o domínio de Su Zhe. Este então ergueu o olhar.
Diante dele estava um eunuco de rosto pálido, vestido em traje azul com desenhos de pássaros, usando um chapéu de seda. Nos olhos, um brilho sinistro. Atrás, uma guarda trazia caixas de presentes.
Su Zhe reconheceu o eunuco: Li Can, confidente do Rei Alado, cuja força era insondável. Raramente saía do palácio—o que fazia ali, na fronteira? Não era de se estranhar que ninguém o tivesse anunciado; provavelmente chegaram impelindo a ordem real.
Contudo, Su Zhe conteve a ira, retirando lentamente sua pressão avassaladora.
Ao levantar-se, o som metálico da armadura ecoou pelo salão. Dando um passo à frente, declarou:
“Su Zhe recebe a ordem!”
Imponente, seu porte e aura de guerreiro impunham respeito. Ainda assim, Li Can sorriu e disse:
“Marquês Campeão, Vossa Majestade lhe tem em alta conta. Há três dias, foram preparados alguns quitutes no palácio, e o primeiro a quem pensaram em enviar foi você. Apressei-me para trazê-los. Prove, por favor!”
Su Zhe franziu a testa, um presságio sombrio tomando seu peito. Oferecer comida sem motivo? Certamente havia algo por trás.
Li Can nada explicou, apenas fez sinal para que a guarda abrisse uma caixa de alimentos. Diante de um pedaço de carne finamente preparado, Su Zhe sentiu o peito apertar, suas pernas vacilando—um mau pressentimento, como se algo terrível tivesse ocorrido.
Fitou o eunuco e perguntou, grave:
“Senhor Li, pode me dizer que carne é esta?”
O eunuco respondeu, com um sorriso gélido:
“O quê? O Marquês Campeão duvida de Sua Majestade?”
A advertência estava clara em sua voz—sua força era tamanha que nem mesmo um marquês poderia enfrentá-lo facilmente.
Mas, nesse instante, uma confusão soou do lado de fora. Alguém gritava:
“Peguem o assassino!”
Su Zhe olhou para a entrada e viu uma figura correndo em sua direção, empunhando uma longa lâmina, fendendo quem tentava deter seu avanço.
Por fim, o invasor entrou no salão—Su Zhe reconheceu-o de imediato: um jovem da Casa Su, seu primo, que crescera ao seu lado. Agora, porém, estava desfigurado, o braço direito decepado, armadura em frangalhos, o corpo coberto de sangue e uma flecha cravada no peito. Só o puro desespero mantinha-o de pé.
Su Zhe gelou por inteiro, lançando um olhar cortante aos soldados que perseguiam o primo:
“Fora daqui!”
Mas notou que eram rostos desconhecidos—não eram sua guarda pessoal, por isso ignoraram a ordem e avançaram.
Su Zhe não hesitou—desferiu um soco, técnica letal de batalha, capaz de dizimar exércitos.
Um rugido soou, e a energia do golpe tomou a forma de uma cabeça de tigre branco, investindo contra os soldados, que foram despedaçados em névoas de sangue.
Neste momento, o primo também avistou a carne sobre a mesa. Seus olhos se arregalaram de horror e, olhando para Su Zhe, gritou, em desespero:
“Irmão, não coma essa carne! É carne do Marquês! O tirano, ouvindo a rainha bruxa, acreditou que o coração do Marquês, por ser um espírito de longevidade, traria vida eterna. Eles ameaçaram sua vida para forçar o Marquês à obediência. Não só arrancaram seu coração como o cozinharam, enviando este eunuco para testá-lo, ver se você pretende trair! Eu fugi de Cidade Real para avisá-lo. Mais de mil membros da Casa Su morreram ou se dispersaram pelo caminho...”
Nem terminou de falar: Li Can lançou-lhe uma palma assassina à distância. Uma marca negra cortou o ar e acertou o primo de Su Zhe, que tombou morto antes que pudesse ser salvo.
O semblante de Li Can tornou-se sombrio ao encarar Su Zhe:
“Marquês Campeão, apenas cumpro ordens. Já que sabe de tudo, posso contar-lhe. Sua Majestade ordenou: se comer esta carne, revelo-lhe toda a verdade. Se continuar leal à Dinastia da Ascensão Alada, seu título permanecerá. Se trair, será executado no ato. Todo o palácio já está tomado pela guarda real. Pense bem! E, se não me engano, a senhorita do clã do conselheiro já rompeu o noivado com você. Mas, se comer esta carne, continuará sendo marquês; seu futuro no reino será brilhante, e aquela jovem acabará voltando para você—com o caráter deles, mesmo que não queira, não poderá recusar!”
Enquanto falava, seus olhos fixavam Su Zhe. Depois, voltou-se para a guarda:
“O que estão esperando? Sirvam o Marquês Campeão!”
Sua voz era dura e cruel.
Foi então que, na mente de Su Zhe, ressoou novamente a voz do sistema:
“Ding, parabéns ao anfitrião. O sistema de registro divino completou o armazenamento de energia e está ativo. Deseja abrir seu grande prêmio?”