Capítulo Quatro: Rebelião
Com a queda da voz de Su Zhe, ele sentiu uma onda de energia percorrendo seus meridianos, chocando-se como uma enchente devastadora. Onde passava, o obstáculo se dissipava num instante, abrindo caminho livre. Sexto nível do Núcleo Dourado. Ele havia ultrapassado, ainda que apenas um estágio, mas sua força de combate elevou-se a um novo patamar.
Ao sair da mansão do governante da cidade, empunhando sua lança de guerra, percebeu que as ruas estavam silenciosas, exceto pelos corpos caídos. Zhang Yu havia fugido com o Exército de Domadores de Demônios. Li Chan estava morto, e a Guarda Imperial fora esmagada pelo Exército de Armaduras Negras, reduzida a carne triturada. Só então Ventania e Trovão passaram verdadeiramente a pertencer-lhe.
Lançou um olhar à mansão do governante, quase destruída, e saltou direto para a sua montaria. Voltando-se para o Exército de Armaduras Negras, ordenou:
— Sigam-me!
Então partiu rumo à sede da Guarda Urbana. Oitenta mil soldados da Guarda Urbana, e nenhum deles à vista. Queria descobrir se também haviam traído.
Ao chegar diante do prédio, percebeu que ali houvera uma batalha feroz, anterior mesmo à luta na mansão. Os leões de pedra à entrada estavam tingidos de sangue, e corpos de guardas jaziam sem quem os velasse.
Sem hesitar, Su Zhe saltou do cavalo e entrou no edifício.
— Tap, tap!
Quando seus passos ecoaram, ao adentrar o salão viu que os altos oficiais da Guarda Urbana estavam todos presos por correntes, confinados ali.
Com um golpe de sua lança, as correntes se partiram. Então, o comandante Li Yi rastejou até seus pés, chorando:
— Senhor, faça justiça por nós! Hoje Zhang Yu entrou aqui com um oficial do palácio, obrigando-nos a cercar a mansão do governante. Recusei-me, preferindo morrer. Eles então começaram a matança dentro do prédio e me aprisionaram aqui!
A voz carregava raiva e mágoa. Afinal, Li Yi e Zhang Yu eram os braços direito e esquerdo de Su Zhe: um cuidava da segurança interna, outro lutava fora. Eram amigos, irmãos de confiança, capazes de entregar as costas um ao outro.
Agora, Zhang Yu traíra. Quem não se revolta, quem não se entristece? Li Yi, que já enfrentou batalhas terríveis, com dezesseis feridas de espada, nunca chorara assim.
Mas a traição de Zhang Yu, essa lhe dilacerava o coração. Vendo Li Yi naquele estado, Su Zhe falou suavemente:
— Levante-se.
Sentindo a gravidade e o temor na voz de Su Zhe, Li Yi recuperou a razão e ergueu-se. Sua armadura negra, ensopada de sangue, fazia daquele gigante calvo de dois metros um homem vulnerável e abatido.
— Senhor, aconteceu algo grave? — perguntou, confuso. Seu senhor sempre fora famoso pela bravura; jamais mostrara tal desolação. Aquilo lhe causava medo.
— Não pergunte. Reúna todos os guardas urbanos disponíveis na arena de treino. Tenho algo a dizer.
— Às ordens!
Sem hesitar, Li Yi retirou-se para cumprir o comando. Su Zhe, por sua vez, conduziu o Exército de Armaduras Negras à arena, caminhando lentamente.
Ali vivera cinco anos. Lembrava-se ainda da ansiedade ao chegar e do medo após a primeira batalha, vendo companheiros feridos e ouvindo seus gritos, o coração mergulhado em sentimentos mistos e impotência. Cinco anos se passaram, e ele tornou-se de ferro, mas hoje aquele sentimento de incerteza ressurgia.
Ao chegar à arena, todos os soldados da Guarda Urbana estavam reunidos, exceto os que guardavam os portões. Sessenta mil homens, compactos e silenciosos.
Li Yi aproximou-se com passos firmes, sua armadura tilintando. Já recuperara toda a imponência de um comandante de batalha. O rosto, sombrio.
Ao se colocar diante de Su Zhe, disse roucamente:
— Senhor, Zhang Yu fugiu com o Exército de Domadores de Demônios. Ninguém sabe para onde.
Su Zhe interrompeu-o com um gesto e subiu ao palanque. Observou os soldados abaixo e respirou fundo:
— Hoje, em Ventania e Trovão, ocorreu algo grandioso. Há dias, meu pai, o Marquês Sagrado da Guerra, foi cozido pelo monarca decadente na capital, que enviou um oficial do palácio trazendo um pedaço de carne para eu compartilhar. Por isso, matei o oficial e preparei-me para rebelar. Zhang Yu decidiu apoiar o rei contra mim. Não me importo, cada um tem seus motivos e direito de escolher. Mas quero ver, hoje, como vocês decidirão. Quem quiser partir, pode ir agora. Não impedirei. Quem ficar, será meu irmão de agora em diante!
Ao falar, seus olhos de tigre varreram o público.
A arena permaneceu silenciosa. Após um momento, um jovem nobre, enviado à fronteira para ganhar experiência, levantou-se. Não esperava enfrentar tal situação. Com cautela, disse:
— Chefe, minha família ainda está na capital, eu...
Não concluiu, mas era claro que queria partir. Su Zhe acenou:
— Não precisa explicar. Cada um tem seus objetivos. Vá. Se eu sobreviver e um dia entrar na capital, vamos beber juntos!
De costas, dirigiu-se aos soldados:
— Dou-lhes quinze minutos. Quem quiser ir, vá!
O tempo passou e alguns partiram, principalmente porque suas famílias estavam na capital. Cerca de mil se dispersaram.
Quando Su Zhe voltou-se e viu os que permaneceram, um brilho de satisfação surgiu em seu olhar. Especialmente ao perceber Li Yi ao seu lado, o coração frio aqueceu um pouco; bateu no ombro do comandante e sorriu:
— De agora em diante, somos apenas irmãos!
Sua voz, carregada de resignação.
Nesse instante, uma figura surgiu correndo de longe, entrando na arena. Ao ver Su Zhe, ajoelhou-se:
— Senhor, localizamos o Exército Sagrado da Guerra! Estão lutando ao sul, em Colina do Tigre, cercados pelo clã dos Búfalos Serpente da raça demoníaca! Parecem ter recebido notícias e estão lutando desesperados para voltar à cidade. O general Zhao Xing já está ferido, mas grita que, por você, não desistirá!
Ao ouvir isso, os olhos de Su Zhe brilharam com intensa fúria. Zhao Xing era seu tenente, um irmão de alma. Agora, enganados por Zhang Yu e levados à Colina do Tigre, queriam exterminar o Exército Sagrado da Guerra.
Pensando nisso, bradou:
— Li Yi, o exército ficará em Ventania e Trovão. Sem minha ordem, quem entrar será executado!
— Às ordens!
Após receber a ordem, Li Yi respondeu prontamente. Su Zhe já saltava para a sela, ordenando:
— Exército de Armaduras Negras, comigo para Colina do Tigre, salvar nossos homens!
— Estrondo!
No momento seguinte, milhares de cavaleiros avançaram. No rosto de Li Yi, apareceu uma preocupação: o clã demoníaco capaz de cercar o Exército Sagrado da Guerra devia ser poderoso, e Su Zhe, com tão poucos homens, corria perigo. Mas conhecendo o temperamento de seu senhor, não ousou impedir.