Capítulo Noventa e Cinco: Wan Si Comete Assassinato
Passado algum tempo, Da Shan ajeitou suas vestes e saiu com um ar imponente e elegante. O salão estava tomado por uma atmosfera decadente, o que fez com que Da Shan, após observar a cena, se virasse e retornasse a um aposento escuro nos fundos do pátio.
Sobre a cama, jazia um ancião sem braços nem pernas, acompanhado por duas mulheres de beleza delicada, que lhe faziam carícias e sorrisos subservientes. O velho soltava gargalhadas sarcásticas.
Apesar da ausência dos membros, seu rosto estava ruborizado e lustroso, e sua voz ressoava forte e clara.
— Mestre Yao! Como está a vida agora? Se tivesse me contado tudo desde cedo, não teria acabado assim, não é? Agora, pode olhar, mas não pode tocar, não é mesmo? — Da Shan soltou um riso debochado.
— Nada mau, meu bom discípulo, você realmente faz jus ao título. Quem diria que seria o último vencedor aqui, que ironia! — respondeu o ancião, sorrindo amargamente.
— Mestre Yao, se não fosse por mim, já estaria morto há tempos. Sem minha ajuda, como poderia desfrutar dessa vida maravilhosa? Se sabia que seria assim, por que não me passou logo a técnica? Não teria chegado a esse fim!
— Muito bem! Da Shan, sua astúcia me impressiona. Recebê-lo como discípulo foi uma bênção em minha vida. Você é ainda mais demoníaco que eu jamais fui. Realmente não imaginei que pudesse criar uma técnica tão cruel. Eu me rendo à sua superioridade!
— Chega de conversa fiada. É melhor permanecer obediente, caso contrário não terei mais consideração alguma!
Naquela hora, Tian Yi e seus companheiros já haviam adormecido. O dia cansativo passou rapidamente.
Ao amanhecer, eles se levantaram cedo e foram até o portão da cidade. Como de costume, o portão estava apinhado de pessoas malvestidas entrando e saindo. O cultivador de manto amarelo ainda examinava minuciosamente cada viajante. Tian Yi e os outros se aproximaram, cumprimentaram-no e pretendiam sair da cidade.
O homem então se apressou até eles.
— Irmão mais velho, vai sair? Não está seguro lá fora!
— Não se preocupe, só vamos dar uma olhada, não iremos longe. Fique tranquilo!
— Voltem logo!
Após uma breve despedida, Tian Yi e seus amigos deixaram a cidade. Ao contemplar a multidão do lado de fora, sentiram uma leve opressão no coração e voltaram-se para olhar a cidade mais uma vez.
— Vamos!
Naquela região, as cidades ainda se faziam notar, e algumas pessoas insistiam em permanecer nos lugares onde viveram por tanto tempo. Ao longe, na estrada, outros caminhavam lentamente.
— Socorro! Alguém está nos assaltando!
Tian Yi e seus companheiros ouviram os gritos e correram até o local. Viram cinco ou seis homens espancando alguns idosos carregando fardos nas costas, enquanto os demais mantinham distância, receosos de intervir.
— Parem! O que estão fazendo? Covardes, atacando velhos!
Sem hesitar, avançaram para afastar os agressores, mas um deles, sem dizer palavra, continuou a espancar os anciãos.
— Isso é assunto da minha família, não se metam!
— Bater em idosos é assunto de família? Não tente enganar! — retrucou Xiao Hu, indignado.
— Enganar? Olhe ao redor, alguém está nos impedindo? Velho, diga você mesmo: não sou seu neto?
Um dos idosos levantou-se com dificuldade.
— Você não merece ser meu neto. Fui bondoso ao trazê-lo até aqui, prestes a entrar na cidade, e você tentou roubar e fugir? Se não fosse o último da família, já teria acabado com você!
— Agora, com estranhos do seu lado, ficou corajoso, não é? Você arruinou meu caminho de cultivador, não posso nem pegar um pouco de dinheiro?
— Bah! Que caminho de cultivador é esse? Nem sei onde arrumou aquele livro inútil, só pensa em treinar. Vai acabar me devorando! Ingrato!
— Inútil? Sabe quanto esforço tivemos para conseguir aquele manual? Suamos sangue e lágrimas e você diz que não vale nada!
— Cultivar, cultivar, é mesmo tão bom assim? Por melhor que seja, não podemos perder a humanidade! “Cãozinho”, escute seu avô, não vamos mais cultivar, venha comigo para a cidade!
Tian Yi finalmente entendeu o que se passava.
— Senhor, o que está acontecendo? Não era ele quem tentava roubá-lo?
— Se houver algum problema, podemos ajudá-lo a obter justiça.
— Vejo que são pessoas de caráter. Não vou esconder nada. Esses meninos encontraram um manual demoníaco, queriam praticar. Eu jamais permitiria! Dizem que quem cultiva isso perde a humanidade e chega a devorar pessoas!
O velho mal acabara de falar quando, ao longe, ouviu-se um tumulto.
— Corram! Um cultivador demoníaco está devorando gente!
O pânico espalhou-se. Todos correram em todas as direções, dificultando qualquer ação imediata de Tian Yi e seus amigos.
Num terreno adiante, havia sangue por toda parte, e restava apenas um corpo esfolado, desprovido de carne e sangue.
Ao lado, um cultivador, evidentemente responsável pelo massacre, mantinha-se calmo, enquanto os outros à volta tremiam de medo, sem ousar fugir.
— Vocês não vão gritar? Quem foi que mais gritou agora há pouco? Por que se calaram? Eu sou um cultivador demoníaco?
O homem soltou uma gargalhada.
— Então vou mostrar o que é um cultivador demoníaco!
Com um olhar feroz, arrancou um pedaço de carne de um desafortunado ao lado e forçou-o a engolir.
— Coma! Depois eu lhe ensino a cultivar!
O infeliz só então notou a carne arrancada de suas costas, gritando de dor, incapaz de suportar.
— É para lá que ele está, mestre! — disseram os amigos, correndo ao local do crime.
A vítima, forçada a engolir a carne, vomitava sem parar, tomada de horror.
O cultivador demoníaco ria alto e cruelmente.
— Eis aí a humanidade de vocês!
— De onde saiu esse demônio para massacrar inocentes? — gritou Xiao Hu, avançando de imediato.
— De onde vieram, moleques? Não sabem quem eu sou? Como ousam desafiar-me?
Tian Yi aproximou-se e o encarou. Era difícil descrever a figura à sua frente: pouco experiente, recém-ingresso no cultivo, mas já se achava poderoso.
— Wan Si, deixe isso com você.
— Mestre, você é mesmo bom! — Wan Si avançou sorrindo.
Qualquer um percebia que aqueles não eram adversários fáceis, mas o cultivador continuava arrogante.
— Menina, acha que pode chamar alguém de mestre assim? Venha comigo, posso lhe mostrar os prazeres da vida!
Ele lançou-lhe um sorriso lascivo.
Tian Yi apenas balançou a cabeça de lado, certo de que era um novato, um cultivador errante que começara a praticar recentemente, provavelmente após encontrar aquele manual demoníaco. Pelo comportamento, não era do tipo que inspirava piedade.
— Ousa me insultar? — Wan Si compreendeu a insinuação e, furiosa, avançou sem hesitar. Com seu cultivo avançado, derrotar o oponente era tarefa fácil.
Antes mesmo de terminar o primeiro confronto, Wan Si já o tinha imobilizado no chão com um único golpe.
— Com esse nível, ousa praticar o mal? Quem cultiva magia demoníaca merece morrer!
O cultivador, derrotado por uma garota muito mais jovem, não soube reagir. Há pouco, pavoneava-se; agora, estava prostrado, implorando.
— Por favor, dona, tenha piedade! Não devia ter matado ninguém, perdoe-me! — chorava, desesperado. Quem visse aquela cena sem saber a verdade talvez se compadecesse.
— Wan Si, mate-o. Deixá-lo vivo é um perigo! — ordenou Tian Yi.
— Não, mestre, por favor! — mas nem seus gritos o salvaram.
Wan Si, implacável, brandiu a lâmina. Num lampejo de luz, a cabeça do cultivador rolou pelo chão.
Por já ter participado de competições, Wan Si não se abalou nem um pouco. Matar um malfeitor daqueles não mexia com seu coração.
Muito bem!
O povo, que assistiu à cena, irrompeu em aplausos.
Após o ocorrido, tudo voltou gradativamente ao normal. Organizaram-se e seguiram caminho rumo à Seita Celeste.
— Tanta gente assim... Será que nosso clã conseguirá suportar? — murmurou Tian Yi, pensativo.