Capítulo Trinta e Um – Sonho
Xiangxun já estava caído de lado, sem forças para se levantar, com sangue escorrendo do canto da boca, completamente inconsciente, evidentemente em perigo de vida.
Viu-se Tianyi ajoelhado com o joelho direito no chão, sangue jorrando de sua boca, como se não se importasse com a própria vida. Tianying, ao presenciar a cena, correu chorando até ele, levantou-o suavemente, acariciou sua face e, enquanto enxugava ansiosamente o sangue de seus lábios, soluçou: “Irmão bobo, por que você se esforçou tanto? Xiangxun já foi derrotado, ninguém mais vai nos humilhar. De agora em diante, vou reprimir meu próprio cultivo para te acompanhar, não precisa se arriscar assim, está bem?”
Xiaohu e Jinzi rapidamente se aproximaram, observando ao redor, receosos de que algo inesperado acontecesse. De repente, uma figura indistinta desceu dos céus. “O administrador chegou, Tianyi está salvo!”, gritou Xiaohu, feliz.
“Não comemorem tão cedo. Desta vez, o administrador provavelmente vai punir os dois”, comentou alguém na multidão, com um sorriso malicioso.
Os olhos de Xiaohu, grandes como sinos de bronze, lançaram um olhar feroz para eles.
Um clarão branco passou, envolvendo-os. “Considerando as lutas frequentes aqui, seus ferimentos irão sarar pela metade. Agora voltem e cuidem-se”, disse uma voz anciã vinda da figura branca.
Logo depois, ambos se levantaram e se curvaram diante da figura. “Agradecemos ao administrador por nos favorecer”, disseram. O vulto então desapareceu, e o buraco profundo no chão foi nivelado como se nunca tivesse existido.
Xiaohu e Jinzi apressaram-se a ajudar Tianyi a caminhar até o pátio para descansar. Xiangxun também foi levado por alguém sem que se percebesse quando. A multidão dispersou-se em grupos, discutindo animadamente. Com certeza, a batalha daquele dia logo se espalharia por toda a área de treinamento inferior, e talvez, a partir de hoje, a zona marginal finalmente teria um líder.
De volta ao pátio, Tianyi sentou-se em silêncio, pensativo. Ele já sabia que a figura branca era o ancião de sobrancelhas e barbas brancas da portaria, o próprio Grande Patriarca da seita. Não sabia por que ele permanecia ali. Antes de partir, o Grande Patriarca transmitiu-lhe, por telepatia, que a força em seu corpo era centenas, até milhares de vezes mais pura que a energia espiritual do mundo, até mesmo superior à energia celestial, e aconselhou-o a valorizá-la.
Será que seu corpo ainda sofria outras transformações? Tianyi ficou ali, calado, o que deixou Tianying muito ansiosa. Ela logo perguntou: “Irmão, você está bem? Sente algum desconforto? Fale comigo!”
Tianyi despertou do transe, viu a irmã ao seu lado, preocupada, com o rosto pálido ainda marcado por lágrimas, os olhos lindos e cheios de carinho. Instintivamente estendeu as mãos e, com ternura, respondeu: “Irmã, estou bem. Só estava distraído pensando em algumas coisas. Meu corpo já está praticamente recuperado.”
Tianying quis se afastar, mas hesitou, ficando ali com as bochechas coradas, entre a preocupação e a doçura.
“Hum, hum! Bem, Tianyi, se estiver mesmo bem, nós dois vamos buscar alguns remédios para fortalecer seu sangue e energia”, disseram Xiaohu e Jinzi antes de saírem apressados.
“Pode tirar a mão agora, quer se aproveitar da irmã, é? Merece uma surra!”, disse Tianying, afastando o rosto ainda mais vermelho, dando-lhe um leve soquinho com seu punho delicado.
“Ai, irmã, pega leve, dói!” Tianyi fingiu dor, curvando-se e segurando o peito, mas sorrindo de satisfação.
“Ah, Tianyi, você está bem? Não foi de propósito, está doendo? Deixe-me massagear”, disse ela, colocando suas mãozinhas macias para acariciá-lo. De repente, percebeu a expressão travessa dele e exclamou: “Tianyi, você ousa enganar sua irmã!”, levantando-se rapidamente.
Ao vê-lo com aquele ar de deleite, Tianying quase quis esbofeteá-lo de tanta raiva. Ela fez uma carinha emburrada, bufando de indignação.
Tianyi, ainda de olhos semicerrados aproveitando o momento, de repente percebeu a ausência do toque. Abriu os olhos: “Ué, irmã, por que se levantou? Estou com dor!”
“Dor? Olhe só para sua cara de satisfação, não há sinal de dor nenhuma! Fique aí sofrendo sozinho!”, disse ela, virando-se e indo embora.
Tianyi tocou o próprio nariz, pensativo: “O que isso quer dizer? Será um elogio? Vou considerar que sim!” A sua capacidade de se auto-consolar não tinha limites.
“Agora, o Pátio Celestial provavelmente pode se firmar aqui. Após a luta de hoje, já é o bastante para intimidar muitos dos pequenos malfeitores. Espero que não venham mais testar-me, ou sentirão as consequências. Será que essa força em meu corpo só aparece nos momentos de maior perigo? Por que o Grande Patriarca disse que ela é cem vezes mais poderosa que a energia do mundo, até mais forte que a energia celestial? O que será, afinal?” Pensando nisso, adormeceu sentado no banco.
Em meio ao devaneio, ele se viu novamente naquele lugar estranho. Era tão familiar… Uma névoa etérea, palácios magníficos, ruínas que se perdiam no horizonte, erguidas em silêncio, exalando uma atmosfera pesada e melancólica. No centro, uma colossal base de coluna destruída erguia-se solitária, enquanto um zumbido ecoava por todo o espaço. Como veio parar ali outra vez? Lembrava-se de que, na última vez, também fora trazido por aquela força misteriosa. Onde seria aquilo? “Olá! Tem alguém aí…?” Sentiu que sua voz ecoou para muito longe, e até pareceu ouvir algo ao fundo. “Será que não tem ninguém aqui? O que vim fazer neste lugar?” Seguiu em frente para explorar, mas, por mais que andasse, nunca conseguia se aproximar daquela base de coluna gigante. Tianyi resmungava consigo mesmo.
A energia daquele lugar era intensa, muito mais pura que a energia espiritual comum. Se pudesse cultivar ali, seria maravilhoso.
“Ah, não dá mais, é difícil demais chegar até lá. Provavelmente meu cultivo não é suficiente para me sustentar até lá. Sendo assim, vou aproveitar para treinar um pouco aqui e ver o que acontece.”
Sentou-se imediatamente com as pernas cruzadas, acalmou a mente e, de repente, a energia ao redor se precipitou em seu corpo. Desta vez, ele guiou o fluxo aos poucos, sentindo seu corpo se fortalecer, o cultivo aumentar e a força física se aprimorar. Absorvia aquela energia com fome e treinava sem se dar conta do tempo.
Tianying, ao vê-lo imóvel, pensou que Tianyi ainda estivesse aborrecido com ela. Aproximou-se devagar: “Ué? O irmão dormiu sentado aqui? Deve estar muito cansado, como pude ficar brava com ele? Que tolice a minha!” Pegou uma de suas capas verdes e a envolveu sobre ele, sentando-se ao lado em um banquinho. “Estranho… Por que a energia ao redor do Tianyi está tão densa? Mas não percebo fluxo nenhum nesse ambiente. Aqui é tão confortável…” Sem perceber, Tianying acabou adormecendo também, encostada nele.