Capítulo Oitenta e Cinco: Encontro com o Mestre
Tian Yi observava o olhar inocente de seus irmãos e irmãs discípulos, sentindo-se confuso por dentro. Como podia uma simples frase de felicitação soar tão deslocada ao ser dita? Desde que Wanyao retornara, o velho mestre e ela conviviam com uma harmonia rara, como se buscassem compensar todo o tempo perdido de outrora. Diariamente, tinham conversas intermináveis, discutiam inúmeros assuntos, sem voltar ao tema de testar pessoalmente os jovens. Assim, todos desfrutavam livremente daquele lugar.
Poucos dias depois, Tian Ying chegou ao sopé da montanha, sendo recebida pessoalmente por Tian Yi.
— Irmão, o líder do clã me deu sua palavra. Em breve, ele mesmo me ajudará a alcançar a iluminação, e então poderei romper de vez o estágio da fundação!
— Sério? Que maravilha! Quando tiver oportunidade, também perguntarei ao mestre se posso sair para me aprimorar ao teu lado.
— Ótimo! Imagina só, nós dois vagando pela região, defendendo a justiça com nossas espadas! — exclamou Tian Ying, com olhos brilhando como pequenos astros.
— Não esperava que minha irmã tivesse esse coração de heroína. Então, eu te acompanharei pelos caminhos do mundo, repartindo riquezas, punindo o mal, exaltando o bem, realizando os feitos que estiverem ao nosso alcance.
Ao ouvir tais palavras, Tian Ying ficou ali, pensativa, e um sorriso suave surgiu em seus lábios.
— Irmã, por que está sorrindo? Tem algo de engraçado?
— Nada, nada! Vamos, subamos a montanha. Já sinto saudades daqueles pequenos irmãos e irmãs discípulos!
— Mestra, que bom que chegou! Nosso irmão mais velho anda tão desanimado ultimamente... olha a cara dele ao te ver! — brincou Tian Wu, ao lado.
— Sai daqui! Vai brincar longe! Irmã, não lhe dê ouvidos, vamos sentar ali! — Tian Yi desviou o assunto, segurando a mão delicada de Tian Ying. Juntos, chegaram a um recanto encantador: o chão coberto de relva verde, árvores entrelaçadas por cipós antigos, borboletas dançando, passarinhos voando de um lado a outro, o verde exuberante e a água cristalina compunham um quadro idílico. Uma pequena lebre branca saltava pela relva, olhando curiosa para os recém-chegados. Vendo que não a perturbavam, deixou de erguer as orelhas brancas e continuou a comer, imóvel.
— Tian Yi, que paisagem maravilhosa! Como descobriu esse lugar? — Tian Ying, falando, se aproximou da lebre.
— Foi por acaso. Arrumei um pouco e, quando não tenho nada para fazer, venho aqui. Penso no passado, e meu espírito se acalma rapidamente.
— Obrigada, Tian Yi! — disse Tian Ying, com ternura.
A lebre, sem entender o que acontecia, foi gentilmente levantada por mãos suaves. Olhou com olhos vermelhos para a inesperada visitante, assustada, parou até de mastigar, as orelhas eretas. Tian Ying acariciou delicadamente sua cabeça, e a lebre, sentindo-se segura, voltou a mastigar, como se comer no ar fosse uma experiência agradável.
— Que coisinha fofa! Ela sempre é assim?
Tian Yi ficou sem resposta. Nunca prestara muita atenção àquela lebre. Antes, era bem maior; agora, essa era pequena.
— Bem... a anterior era muito maior, talvez essa seja filha dela. De todo modo, é corajosa! Antes, cada um cuidava de si: ela comia, eu me sentava.
As palavras dele fizeram Tian Ying sorrir. O leve movimento dos seus trajes, o brilho dos olhos, a delicadeza do corpo, o perfume sutil, tudo fazia o coração de Tian Yi vibrar.
A mão alva como jade cintilava diante de Tian Yi; a face ruborizada, delicada, parecia banhada em seda dourada.
— Uma lebre tão adorável e você nem reparou nela! Devia ter me trazido aqui antes.
— Sim, irmã, você tem razão — Tian Yi finalmente voltou a si.
— Eles são tão felizes! Têm pai, mãe, um filhote adorável... Devem viver em plena felicidade.
Tian Ying pôs a lebre suavemente de volta à relva e, deitando-se próximo, convidou Tian Yi com um gesto, alisando o capim ao lado.
— Deite-se, não está cansado sentado? — seus olhos falavam por si.
Tian Yi deitou-se ao lado dela, e juntos começaram a falar sobre o futuro. Sem perceber, suas mãos se entrelaçaram, e logo o sono os envolveu.
Ali permaneceram, mãos unidas, olhando o céu ao longe. Quando estavam prestes a dormir, sentiram algo peludo mexendo entre as mãos. Abriram os olhos, encontrando a lebre, que agora farejava entre seus dedos, provavelmente buscando um local para dormir após saciar-se. Achou uma posição confortável e adormeceu.
Eles sorriram um para o outro, observando a lebre, e também se deixaram levar pelo sono.
A brisa suave trouxe o crepúsculo. No quadro vivo daquele cenário, relva verde sob o pôr do sol, dois jovens de aparência celestial deitados lado a lado, com uma lebre adormecida entre as mãos, uma imagem de serenidade e doçura nasceu naquele instante.
O frio se intensificou, Tian Yi abriu os olhos lentamente, e ao se encontrarem com Tian Ying, a lebre também despertou, olhando confusa para os dois rostos familiares. Após se espreguiçar, olhou para trás e saltou rumo ao pôr do sol distante.
Ambos se levantaram.
— Irmã...
— Sim? O que foi?
— Nada... você está linda! — Naquele momento, um raio dourado iluminou o rosto de Tian Ying, tornando-o ainda mais radiante e misterioso.
— O que está dizendo, irmão? — Tian Ying, envergonhada, saiu correndo, deixando um rastro perfumado. Tian Yi inspirou profundamente, tomado de êxtase e determinação.
— Mestra, quando chegou? Irmão mais velho, o que estavam fazendo? — Wan Si apareceu do nada, com olhar astuto.
— Não estávamos fazendo nada. Fui buscar sua mestra, depois demos uma volta. Você está querendo saber dos meus passos?
— Não, não! Só que a irmã procurou você várias vezes hoje, não te achou. Depois soube que estava buscando a mestra, então voltou. Fiquei esperando vocês aqui.
— Esperta! Onde está o mestre?
— Lá dentro! Você vai falar com ele?
— Sim, um assunto. Não fique perguntando, vá arrumar o quarto ao lado para a mestra se instalar.
— Está bem! Irmão, você trata a mestra tão bem! — E saiu apressada com Tian Ying.
— Mestre, está aí? — Tian Yi chamou à porta.
— Sim! Pra que tanto grito? Não estou surdo, rapaz. Aproveitou o dia? — O velho Xing sorriu, satisfeito com o discípulo, cujo talento e caráter eram excepcionais. Só o físico era um enigma.
— Mestre, preciso contar uma coisa. Tenho uma espada dentro de mim!
— O quê? Repita!
— Velho, você realmente está com problemas de audição! Uma espada dentro de mim!
O mestre olhou incrédulo.
— Está dizendo que tem uma espada no corpo? Está brincando? Se tivesse uma espada aí, já estaria morto! E ainda está pulando feito criança... fale direito!
— É verdade, mestre! Se não acredita, veja você mesmo!
O mestre, desacreditando, pediu:
— Venha cá! Vou ver. Não acredito que haja mesmo uma espada dentro de você...