Capítulo Quatro: Renascendo das Cinzas
— Explosão infantil? Espere um pouco... — disse Qian Senlin com um tom sombrio. — Explosão infantil? Você não deseja mais reencarnar? Vale a pena tudo isso por seu irmão? Volte comigo, o Mestre da Seita apenas lhes manterá em prisão domiciliar, não irá matá-los.
— Ha... cof cof... Voltar? Voltar para ser usada por Qian Feng para ameaçar meu irmão? Sonhe! Nunca!
— Contudo, se você permitir que ela vá embora, qual o problema em eu retornar com você?
— Ela? Acha mesmo que alguém tão frágil conseguirá sair viva daqui? Além disso, está envenenada. Mesmo protegida com sua energia espiritual, só sobreviverá por um ano. Como ela vai viver sozinha?
— Isso não é da sua conta! Basta concordar em deixá-la ir. Ou será que você tem medo dela... hehe...
— Está bem! Concordo em deixá-la ir — respondeu Qian Senlin.
— Chefe, isso não é apropriado. O Mestre da Seita foi claro quanto à vida ou morte... — murmurou Qian Tou, sombrio ao lado.
— Qian Tou? Minhas palavras não valem nada? Você pode relatar tudo ao Mestre depois, mas por agora é melhor me obedecer. Caso contrário, minha Palma Venenosa não perdoará ninguém.
Qian Tou, rangendo os dentes, acenou para seus homens, dispersando-os rapidamente pela floresta.
Qian Hai baixou o olhar para Yingying.
— Tome cuidado no caminho, procure pelo Vovô Xiang, ele poderá te salvar — disse, retirando algumas moedas espirituais e entregando-as à menina.
— Papai... papai... não quero te deixar... — soluçou Yingying.
— Vá agora!
Qian Hai acompanhou com os olhos a figura de Yingying se afastando lentamente, até que ela sumiu no horizonte enevoado. Então, virou-se para trás com um longo suspiro.
— Vamos, irei com vocês — disse, ajeitando as vestes. Ainda recordava dos tempos em que fora um homem elegante e respeitado. Sorriu amargamente ao ver um velho amigo reduzido àquela situação.
Eles se aproximaram devagar.
— Qian Senlin, cuide-se!
Ao terminar, Qian Hai sacou novamente sua Arma do Destino, bradando em alto e bom som:
— Pela última vez, por meu irmão!
— Explodir... explodir!
Ouviram-se dois gritos secos. De repente, não restava mais cor no mundo. Uma luz branca e ofuscante emanou do corpo de Qian Hai, transformando todo o vale em terra arrasada.
Corpo e alma destruídos, Qian Hai deixou de existir neste mundo. Gritos angustiados ecoaram ao redor.
— Ah... ah!
— Qian Hai, vou te matar, confiei tanto em você! — berrou Qian Senlin, tomado de ódio.
— Chefe, e agora...? — arriscou um dos homens.
— Vão! Tragam de volta aquela garota, viva ou morta! — ordenou, arrastando seu corpo ensanguentado para longe.
— Atrás dela! — Qian Tou e seus asseclas sumiram na floresta.
Corra... preciso correr, preciso sobreviver. Preciso salvar meu irmão...
— Irmão?
Ela tocou de leve o pingente de jade no pescoço. Então, ali dentro estava o irmão que nunca conhecera. Que curiosidade sentia...
— Ué, por que essa pedra de nove cores não entra no anel? Que estranho... Deixa para lá.
Colocou-a no bolso do casaco, distraída.
O rosto da menina exibia uma pureza e clareza que tocava qualquer um. Mesmo pálida, seus traços infantis mostravam uma determinação firme.
Por montanhas e rios, não ousou parar um instante sequer. Pequena e frágil, era como um graveto ao vento, sem apoio algum neste vasto mundo.
Passava os dias na floresta; por sorte, o pai lhe ensinara desde cedo a sobreviver na mata. Os últimos dias foram exaustivos, e ela desejava apenas um lugar para descansar. Porém, o céu não favorece sempre a mesma pessoa. À noite, desabou uma tempestade, trovões e relâmpagos incessantes tornavam a noite assustadora. Uma menininha de rosto pálido encolhia-se num buraco de árvore, tentando se abrigar.
Retirou a pedra de gravação de som que o pai lhe dera e escutou: seu irmão não estava morto, apenas sua alma estava fragmentada e guardada junto ao pingente. Mas para salvá-lo, precisaria ir aos Quatro Grandes Mundos Celestiais. Algo que ela jamais ouvira falar. Descobriu também que sua mãe era... Ela, tão confusa, não percebia que o perigo se aproximava.
— Que tempo miserável, ainda chovendo! Qian Tou, vamos descansar um pouco? Por causa de uma menina envenenada não precisamos ter pressa... — reclamavam os homens de Qian Tou.
— Vocês não sabem de nada! É a filha de Qian Yun. Vocês acham que isso é pouca coisa? Olhem bem, temos que encontrá-la! — respondeu ele, os olhos flamejando de crueldade.
Ergueram escudos de energia espiritual para se proteger da chuva.
— Qian Tou, acho que tem alguém aqui dentro! — gritou um deles, excitado.
— Dorme tão tranquila... Que gracinha, uma pena ser tão pequena — disse Qian Tou, aproximando-se.
— Ora, realmente é ela! Puxem-na para fora! Sem conversa fiada!
Yingying abriu os olhos, confusa.
— Quem são vocês? Soltem... soltem-me! — gritou, desesperada.
— Vamos te mandar para junto do seu irmão azarado! — rosnou Qian Tou, sacando uma longa lâmina e fitando-a com crueldade.
A menina estendeu as mãos, suplicando por piedade. Precisava ir para o Oriente, encontrar o Vovô Xiang, não sabia ainda como salvar o irmão. Tanta coisa por fazer... Não queria morrer ali. Esperava, do fundo do coração, que o pai viesse salvá-la, como sempre fizera. Seu olhar se tornou firme e, com voz teimosa, declarou:
— Meu pai vai me encontrar, vai me salvar!
As risadas cruéis dos homens ecoaram.
— Te salvar? Seu pobre pai já morreu, não virá mais.
— Mentira! Meu pai não pode estar morto! — murmurou, largando as mãos e apertando as bordas do casaco, esfregando a pedra no bolso. Diante dela, a dor era imensa, uma solidão infinita. A morte parecia distante, mas tão próxima... Dias atrás, vivia tranquila ao lado do pai. Agora, sentia o mundo gelado, mas suas mãos permaneciam aquecidas.
De repente, uma lâmina atravessou seu peito. O sangue escorreu sem parar.
Naquele instante, o mundo pareceu silenciar.
— Vamos, deixem-na morrer aqui — disse Qian Tou, olhando para o céu. — Voltemos ao templo.
Num piscar de olhos, Qian Tou e seus homens desapareceram na floresta.
A chuva continuava a cair, a noite se adensava, o mundo inteiro transbordava de teimosia e inconformismo.
Ninguém soube dizer quando a mão da menina se colocou sobre o peito. O sangue não jorrava mais. Em meio à névoa, vislumbrou alguém se aproximando.
— Irmão... — murmurou Yingying, confusa. — É mesmo você? Estou com tanto medo, tão cansada...
Seus dedos cerraram com força a pedra de jade, como se ali residisse todo o seu mundo.
— Papai já se foi... irmão... — lágrimas de tristeza escorreram pelo rosto.
Naquela noite escura, uma figura branca emergiu lentamente de sua testa. Era um menino: pele alva, traços delicados e ao mesmo tempo belos. Seu olhar terno pousou sobre a menina, a mão acariciando suavemente seus cabelos. Olhou para a pedra de nove cores na mão dela e, com voz suave e juvenil, chamou:
— Maninha...
Logo uma luz branca penetrou o ferimento, que miraculosamente começou a se fechar. O som de batidas de coração voltou a ecoar, e, para surpresa do mundo, a pedra espiritual também passou a pulsar, como se tivesse vida própria.