Capítulo Noventa e Dois: A Chegada dos Tempos Turbulentos
— Você, um mero discípulo externo, ousa se comportar com insolência diante de mim? Sabe quem está aqui? Meu irmão mais velho... — Nesse momento, Wan Si não conseguiu conter as palavras e as soltou, querendo continuar, mas Tian Yi lançou-lhe um olhar e ela logo engoliu o restante do que queria dizer.
O homem à sua frente, ao ouvir a palavra “irmão mais velho”, ficou visivelmente assustado e imediatamente se prostrou em reverência. — Sou apenas um humilde servo, não sabia que era o irmão mais velho em viagem de treinamento, perturbei sua paz, mereço a morte. Peço que me perdoe, foi uma falta de conhecimento. — Ao terminar, retirou de si um elegante saquinho de seda e o ofereceu. — Uma pequena demonstração de respeito, espero que aceite, irmão mais velho!
Tian Yi rapidamente recusou com um gesto. — Não é necessário. Da próxima vez, não aja de forma precipitada. Seja qual for a situação, esclareça antes de falar. Não faça julgamentos apressados, pois, se irritar outra pessoa, talvez não encontre alguém tão tolerante quanto eu!
— Guardarei isso com cuidado, com muito cuidado! Irmão mais velho, que tenha uma boa viagem! —
Sem lhe dar chance de terminar, Tian Yi já havia partido com os demais. O pequeno ajudante, vendo que a situação não era favorável, tentou fugir, mas foi agarrado pelo homem da túnica azul. — Queria escapar? Maldito! Por sua culpa, estou nessa desgraça. Irmãos, batam nele! —
Ouviu-se imediatamente uma sequência de ruídos e súplicas lamentáveis, difíceis de suportar. Tian Yi e seu grupo já estavam longe, sem se preocupar com o que ocorreria naquele lugar.
— Wan Si, daqui em diante não lhe é permitido revelar sua identidade diante dos demais.
— Entendido, irmão mais velho. Só falei porque aquele homem era muito irritante. Do contrário, não teria dito nada!
— É verdade, Tian Yi, não fique bravo. Ela não teve intenção — comentou Tian Ying ao lado.
— Irmã, não estou zangado com ela, está tudo bem. Só não esperava que os discípulos externos da seita tivessem se tornado tão interesseiros, tão desprovidos de razão!
— Pronto! Vamos seguir. Não podemos deixar que eles estraguem nosso ânimo — acrescentou Wan Yang.
— Irmão Jin, agora compreendo o quanto foi difícil para você naquele tempo!
— Dizem que cultivar é bom, mas, ao entrar nesse caminho, vivemos menos livres e felizes do que os mortais!
— Jin, não se deixe abater. Tudo isso já passou. O futuro ainda é incerto. Tian Yi disse que uma grande calamidade está por vir, então aproveitemos cada dia enquanto podemos! Vamos beber! Já quase esqueci o sabor do vinho! —
Tian Yi também riu alto.
— Realmente estamos nos preocupando à toa! Irmãs, pequena discípula, vamos beber vinho!
Assim, os seis caminharam até uma taberna. Um atendente com roupas simples estava na porta e, ao vê-los se aproximar, correu ao encontro. — Senhores, por favor, entrem. Temos ótimas mesas reservadas. Se desejarem hospedar-se, também dispomos de excelentes quartos. Seis lugares, por favor.
— Traga primeiro dois pratos de carne e uma jarra de vinho. Hoje queremos celebrar e beber à vontade. Prepare logo!
— Claro, esperem um momento. Vou preparar tudo e já trago para vocês! —
— Irmão mais velho, isso é uma taberna! Que lugar bonito, quanta comida! — Wan Si exibia seus pequenos dentes brancos, parecendo uma tigresa.
— Irmã, mantenha a compostura. Cuidado para que o irmão mais velho não deixe de gostar de você! —
— Oh! — disse Wan Si, olhando para o irmão mais velho sentado ali.
Imediatamente mudou sua postura, sentou-se com elegância e olhou fixamente para o atendente que ia e vinha. Logo, os pratos de carne chegaram. Quando ela ia pegar um pedaço, olhou para o irmão mais velho, endireitou-se, pegou uma fatia com os palitinhos e a colocou delicadamente na boca, mastigando devagar.
Tian Yi, ao ver seu comportamento, começou a rir alto. Ao lado, Xiao Hu e Jin não resistiram e acompanharam Tian Yi nas risadas.
— Coma como sempre, não precisa se atrapalhar. Se continuar assim, ninguém mais vai comer. Apenas seja natural — disse Tian Yi, contendo o riso.
— Se eu agir assim, irmão mais velho, você deixará de gostar de mim?
— Nunca, mas coma tranquila!
Wan Si sorriu, pois o que mais importava era saber que o irmão mais velho ainda gostava dela. Wan Yang e Tian Ying riram suavemente ao observar a brincadeira dos dois.
— Quando terminarmos, vamos descansar aqui esta noite. Amanhã partimos cedo. Estamos quase fora dos limites da Seita Celestial. Lá fora é o verdadeiro treinamento no mundo.
— Sim, está bem.
O tempo passou rapidamente. Do lado de fora, o mundo já estava mergulhado no caos, irreconhecível. Desde que a notícia da morte de Qian Hai chegou à Seita Qian, sob a liderança de Qian Feng, ela expandiu-se de maneira fulminante, conquistando todas as seitas ao redor, grandes e pequenas. Capturar! Saquear! Quem não obedecesse, era morto!
Com sua política de ferro, a Seita Qian cresceu de forma explosiva, tornando-se poderosa. Agora, ninguém podia deter seu avanço. A seita já não representava mais a humanidade; abandonaram seus princípios, entregando-se à matança. Muitos cultivadores fugiram para buscar abrigo em outros lugares.
Como o método de Qian Feng fazia a seita crescer rapidamente, outras seitas começaram a imitar, promovendo massacres contínuos. Gradualmente, as lutas e conquistas entre cultivadores se intensificaram. Para obter mais recursos, algumas seitas passaram a atacar pessoas comuns.
No início, as seitas criticavam severamente a matança e o recrutamento de mortais. Mas logo, toda voz contrária desapareceu. Os mortais passaram a sofrer saques e mortes.
Em geral, os mortais sempre almejaram o cultivo e sonharam com o momento de se tornarem imortais. Quando perceberam que as seitas abriram os critérios de recrutamento, bastava inscrever-se para entrar. Assim, o número de discípulos explodiu e, com a pressão por recursos, iniciou-se uma nova onda de roubos e assassinatos.
Alguns, antes apenas mortais vítimas de tiranos da aldeia, voltavam após aprender habilidades e matavam seus antigos opressores. Esse tipo de vingança tornou-se comum; contudo, o resultado era sempre o mesmo: após matar o tirano, o vingador assumia seu lugar, perpetuando o ciclo. Muitas aldeias ficaram desertas, o cenário era de desolação, como se fosse o fim do mundo.
Por dez léguas não se via alma viva; o chão coberto de ervas secas, o choro das crianças ecoava no vento frio que varria as folhas caídas. O silêncio era mais eloquente que qualquer grito.
Quadros de tragédia humana surgiam diante dos olhos. A humanidade havia perdido todo traço de compaixão; o mundo era dominado por fraude, sequestro, matança, uma atmosfera de sangue cobrindo os céus.
Algumas seitas tornaram-se piores que ladrões, já não viam os mortais como pessoas. Só pensavam em cultivar e em capturar mulheres mortais, de modo que os comuns só podiam sentir raiva em segredo. Todos dentro das seitas estavam ocupados em aumentar seu poder, gritando com medo: — A grande calamidade chegou, o mundo está em caos! —
Esses gritos se espalharam entre o povo, todos viviam assustados, sem saber para onde fugir. Práticas desumanas surgiam sem controle; ninguém cuidava de ninguém, pois mal conseguiam sobreviver.
Cada cultivador temia ser fraco demais; mortais aproveitavam seus dias para cometer crimes que antes nem ousavam imaginar: assassinatos, incêndios, toda sorte de maldades.
Nesse momento, de algum lugar, surgiu um manual de técnicas que permitia usar pessoas como ingredientes de alquimia. Qualquer mortal podia cultivá-lo, absorvendo diretamente o sangue e energia dos outros para fortalecer-se. Em certos estágios, era possível até absorver a carne e sangue de cultivadores.
Por ser simples e rápido, essa técnica fez todos esquecerem que eram humanos, sem qualquer sentimento.
O manual se espalhou rapidamente, provocando paranoia. Irmãos de seita começaram a se matar, até hábitos abomináveis como devorar pais e filhos surgiram. O mundo lá fora estava totalmente deformado.
Tian Yi e os outros despertaram cedo e partiram. Finalmente chegaram à fronteira da seita. O local era um tumulto, com guardas de túnicas amarelas na porta da cidade, inspecionando cuidadosamente quem entrava.
— O que está acontecendo? — Tian Yi e seu grupo avançaram.
Na entrada, viam-se pessoas vestidas em farrapos, entrando e saindo. Alguns traziam marcas de sangue, o rosto exausto, todos vigilantes, atentos ao menor movimento ao redor. Se alguém se aproximava, recuavam rapidamente, sempre alertas a qualquer mudança.