Capítulo Noventa e Três: Fúria
Os gestos deles deixaram Tianyi e seus companheiros extremamente intrigados. Quando estavam prestes a se aproximar, de repente viram um homem de roupas esfarrapadas que, sem qualquer hesitação, lançou-se a morder uma criança ao seu lado. Imediatamente, alguns cultivadores vestidos de túnicas amarelas avançaram, abatendo-o rapidamente ali mesmo. No entanto, as pessoas em volta dele não reagiram de forma alguma, como se nada tivesse acontecido ao seu redor; cada um seguia seu caminho, apático e indiferente.
"Escutem todos atentamente: este território pertence à Seita Celestial. Aqui, não é permitido que ninguém ataque os seus semelhantes. Caso isso aconteça, a punição é a morte, sem misericórdia!" O cultivador de túnica amarela repetiu esse aviso algumas vezes antes de se calar.
Diante de tamanha estranheza, Tianyi apressou-se em se aproximar com os seus. "Nobre cultivador, poderia nos explicar o que está acontecendo aqui? Por que presenciamos uma cena tão terrível de canibalismo?"
O mesmo cultivador de túnica amarela voltou-se para eles, observando-os por um momento. "Parece que vocês também são da mesma seita, não é? Para ser franco, nos últimos dias, um grande número de pessoas tem chegado até aqui, muitas delas maltrapilhas, sem dizer sequer uma palavra sobre o que passaram lá fora. Mas todos evitam estranhos e não querem ninguém por perto."
"E o que foi aquilo que acabou de acontecer?"
"Ah, isso começou ontem. Não sabemos o motivo, mas por vezes, alguém ataca de repente a pessoa ao lado, devorando sua carne como uma fera enlouquecida. Nessas situações, não temos escolha senão executar os responsáveis."
"Desculpe incomodar, poderia nos levar até o local onde essas pessoas estão alojadas? Quero entender melhor o que se passa."
"Quem é você? Por que tanto interesse?" O cultivador olhou para ele com desconfiança.
Tianyi prontamente entregou sua placa de identificação.
"Ah! Então é discípulo do ancião Xing. Eu sou Xiangmen, responsável pela segurança aqui, cultivador externo da seita. Se precisar de algo, é só pedir, irmão mais velho!"
"Leve-nos até lá, por favor!"
"Claro! Sigam-me." Wan Si observava tudo com curiosidade, impressionada com a crueldade que o ser humano podia alcançar. A cena anterior havia lhe causado um enorme impacto.
Enquanto avançavam, perceberam que as pessoas de roupas esfarrapadas olhavam para o grupo com desconfiança, e bastava alguém se aproximar para que se afastassem rapidamente, como se temessem serem atacados.
Tianyi avistou então uma criança de uns cinco ou seis anos, vestida com trapos, brincando sozinha. Aproximou-se rapidamente e tirou algumas comidas de sua bolsa. "Garotinho, venha cá. Está com fome? Pegue, trouxe algo para você comer."
A criança olhou em volta, caminhando devagar até eles. Estava faminta, mas sua irmã não permitia que falasse ou se aproximasse de ninguém.
"Venha, pequeno, isso é para você!" disse Tianyi, estendendo a comida. De repente, uma mulher coberta de lama, praticamente nua, surgiu e, num movimento rápido, derrubou a comida da mão dele. Pegou a criança nos braços e afastou-se, cheia de terror, ajoelhando-se repetidas vezes e implorando para que os deixassem ir.
Tianyi ainda pensou em se aproximar, mas o olhar apavorado da mulher mostrava que ela estava a ponto de fugir, só hesitando por causa do irmão. Não ousava ir embora, apenas suplicava, ajoelhada, para que não lhes fizessem mal.
"Volte aqui, irmão", disse Tianying, chamando Tianyi de volta. "Deixe comigo, vou tentar." Ela se aproximou e percebeu que, apesar da sujeira, a mulher diante dela não era tão velha quanto parecia.
"Não tenha medo, irmã, não somos maus. Viemos ajudar", disse Tianying com sua voz suave e gentil, o que pareceu acalmar um pouco a mulher. O tremor desapareceu e ela ergueu a cabeça, recuando lentamente.
"Não se assuste, sou cultivadora da Seita Celestial. Viemos para ajudar, somos pessoas boas!" Tianying falava devagar, com calma, para não assustá-las ainda mais.
Com um olhar terno, Tianying esperou um pouco e então chamou: "Venha, pequeno, a irmã tem coisas gostosas para você." Tirou alguns bolos que havia comprado durante a viagem. "Venha, pode comer, eu não vou lhes fazer mal. Eu também já tive um irmãozinho tão adorável quanto você. Venha, a irmã não vai te machucar."
Enquanto falava, lágrimas brotaram nos olhos de Tianying, pois a cena lhe trazia à mente as lembranças de sua infância ao lado de Tianyi.
Então, uma vozinha suave soou: "Irmã, não chore. Você é uma pessoa boa!" O menino se aproximou cauteloso, estendendo sua mãozinha suja para enxugar as lágrimas da bela jovem, mas ao olhar para as mãos imundas, encolheu-as de volta.
"Tome, você deve estar com fome. Coma."
A mulher atrás deles encarava fixamente a cena, pronta para qualquer eventualidade. Se algo desse errado, fugiria com o irmão, mas observou Tianying por muito tempo e não percebeu nenhuma ameaça. Aos poucos, baixou a guarda.
Ela sabia que o irmão estava faminto, mas nada podia fazer. Fugindo por tantos dias, viu de perto a morte e a violência, ficando insensível à dor. Apesar de desejar a morte, não tinha coragem de abandonar o irmão, e ver o sofrimento dele lhe apertava o coração.
Mas o que podia fazer? Precisava estar atenta a qualquer perigo, pois a qualquer momento alguém poderia surgir e atacá-los. Muitas vezes escapou de perigos por pura vigilância. Quando ouviu falar que só a Seita Celestial poderia protegê-los, sentiu uma esperança renovada e atravessou grandes distâncias com o irmão, insensível ao sofrimento do caminho.
Ao chegar finalmente à Seita Celestial, sentiu-se aliviada, achando que enfim estariam a salvo dos demônios canibais. No entanto, logo ao entrar, presenciou uma pessoa sendo devorada diante de seus olhos, uma cena brutal e desesperadora. Se não fosse a intervenção de alguns cultivadores, ela e o irmão teriam tido o mesmo destino.
Todos que vinham de fora estavam dominados pela desconfiança, pois não sabiam quem entre eles teria praticado artes demoníacas. O medo de virar alimento alheio tornava todos frios e indiferentes.
Depois de muito tempo, ela enfim percebeu que Tianying e os outros não lhes fariam mal e se aproximou. Tianying lhes ofereceu mais comida e, depois de saciados, as crianças começaram a conversar animadamente, com Tianying ouvindo ao lado.
"Irmã, eles não são maus. Fale com eles, senão esta bela irmã vai me fazer perguntas que não saberei responder!"
Tianying então voltou-se para a mulher sentada ao lado. "Então você é irmã dele. O destino realmente nos uniu aqui! Poderia me contar o que aconteceu lá fora? Por que tanta gente veio para cá?"
Uma voz suave respondeu: "Não saiam daqui por nada. Lá fora está um caos indescritível, há batalhas e mortes por toda parte. A vida lá fora se tornou impossível, muitos foram capturados ou mortos, outros pioram ainda mais. Eu e meu irmão não tivemos escolha, fugimos até aqui, pois nenhuma outra seita aceitava nos receber. Viajamos por centenas de quilômetros apenas para sobreviver!"
Tianyi se aproximou, mas a mulher recuou alguns passos.
"Irmã, não sou uma má pessoa", disse Tianyi, procurando demonstrar calma.
Ao ouvir isso, Tianyi sentiu-se tomado pela fúria e mandou o cultivador de túnica amarela investigar cuidadosamente todos os que entravam na cidade.