Capítulo Um: A Origem do Céu e da Terra

O Grande Criador Divino O Banimento Desaparecido 2664 palavras 2026-02-07 13:23:04

O mundo estava envolto em uma névoa turva e indistinta; não se sabia ao certo quando um feixe de luz riscou o céu por completo, como se dilacerasse toda aquela impureza. Logo em seguida, incontáveis clarões irromperam pela fenda, trazendo consigo o princípio de todas as coisas: tudo no universo possui um fim, nada é eterno, e a chegada daquela luz deu origem à vasta imensidão do cosmos estrelado.

O fim transformou-se em terra firme, em montanhas e rios que se estendem por milhas, enquanto o início, de onde a luz provinha, tornou-se o próprio céu caótico. Das miríades de raios surgiram todas as criaturas, dotando a terra de inúmeros mistérios inexplicáveis.

Com o passar de eras incontáveis, cada ser encontrou seu lugar e constituiu sua raça. Quatro grandes povos floresceram: os Humanos, os Demônios, os Espíritos e as Feras. Todos passaram a possuir vida, inteligência e força; alguns até mesmo alcançaram o domínio das energias do céu e da terra.

Quando a sabedoria e o pensamento se enraizaram em todas as coisas, o equilíbrio tornou-se impossível de sustentar. Os Humanos destacaram-se pelo intelecto supremo; os Demônios, pela longevidade inigualável; os Espíritos, pelo controle absoluto das energias; e as Feras, pela força descomunal. Ao alcançar o poder incontrolável, cada raça recusou-se a permanecer esquecida, desejando dominar todo o mundo.

A desordem começou a emergir, prenunciando transformações grandiosas e imprevisíveis. O fim de uma era anunciava o surgimento de outra.

Nas terras governadas pelos Humanos, disputas eclodiam em todos os cantos: os poderosos conquistavam os pequenos, os menores submetiam-se aos mais renomados. Em meio a esse caos, havia uma aldeia insignificante e oculta chamada Vila das Amendoeiras.

Ali, as pessoas levavam uma vida simples e tranquila, colhendo lenha nas montanhas. Quase todos eram fugitivos das guerras entre as grandes terras humanas. Valorizavam cada momento, vivendo pacificamente, sem perturbações. Que serenidade...

— Yingying... Yingying... O papai vai para a montanha, fique aqui em casa, está bem? — bradou uma voz forte e envelhecida.

— Está bem, papai, tenha cuidado no caminho. Vou ao rio pescar alguns peixes para fazermos sopa esta noite — respondeu Yingying.

— Ótimo, cuidado no caminho — disse ele, afagando com carinho as mãos ásperas como galhos de árvore sobre a menina a quem chamava de filha, embora ambos ali tivessem chegado juntos. O rosto transbordava ternura. Ele virou-se, pegou o velho facão que o acompanhava há anos e saiu pelo portão de madeira.

Vendo o pai partir, Yingying arrumou rapidamente a casa, pendurou a pequena cesta de bambu no braço e seguiu para o rio. Ali, sentia-se feliz todos os dias. Ter o pai ao lado fazia-a sentir-se invencível, embora lamentasse não conhecer a mãe. Sempre escutava que, um dia, quando crescesse, saberia a verdade, mas...

— Melhor não pensar nisso agora. Vou pegar um peixe grande para a sopa do papai! — pensou.

Caminhando, logo voltou a sorrir, talvez distraída por outras ideias. Um sorriso suave brotou em seus lábios — quem a visse naquele instante, certamente teria o coração tocado. Em plena juventude, já exalava uma beleza delicada e encantadora!

O rio era límpido, de águas cristalinas que corriam brandas. Chegando à margem, Yingying tirou os sapatos novos e bordados, arregaçou com destreza as calças de flores rosadas, e mergulhou os pezinhos alvos na água fria. Empunhava uma forquilha de madeira escura, fitando atenta os peixes que nadavam. Logo, uma melodia desconhecida escapou seus lábios, ecoando sobre as águas, tingindo o céu de rubor até que a noite começou a cair.

De repente, um peixe estranho, de corpo cintilante e mutante, aproximou-se lentamente.

— Que peixe mais estranho! — exclamou Yingying admirada.

O animal nadou preguiçosamente até seus pés.

— Hihi... Que cócegas! Ai, como ele muda de cor, que coisa curiosa...

— Vou levá-lo para papai ver. Que peixe curioso! — disse, pescando ainda mais alguns peixinhos e, com a cesta cheia, voltou para casa.

Empurrou a porta de ripas de madeira e entrou na modesta cabana, sempre bem arrumada. Preparava-se para cozinhar a sopa quando lembrou do peixe misterioso. Arregaçou as mangas para observá-lo melhor, mas percebeu, surpresa, que ele sangrava.

— O que houve? Seus olhos mudam de cor... e sangram vermelho vivo! Peixinho, o que aconteceu com você?

Vendo o sangue escorrer, sentiu o coração apertado. Acariciou o peixe com delicadeza, murmurando:

— Peixinho, não vou mais te comer. Vou te devolver ao rio...

Sem hesitar, Yingying pegou a cesta e correu até o riacho. Com cuidado, segurou o peixe nas mãos, fez-lhe um carinho e soltou-o gentilmente na água. O peixe estranho a olhou por um instante, piscou e balançou o rabo.

— Será que está me agradecendo? — pensou, absorta.

De repente, uma cascata desabou do céu, a escuridão caiu e trovões ribombaram. Yingying ficou paralisada.

— Vai chover? Como o tempo mudou tão de repente? O que faço agora?

Afastou-se do rio, mas ao olhar para trás, viu o peixe ainda brilhando. No exato lugar onde o soltara, ele mudava de cor sem parar — amarelo, verde, azul, vermelho, branco, laranja, roxo, negro — uma beleza singular.

As cores foram-se tornando cada vez mais suaves até quase sumirem. O peixe nadou em direção à cascata, e então surgiu sobre as águas um portal de luz com nove cores. A cada centímetro que se aproximava do portal, os trovões soavam mais próximos, intercalados com relâmpagos. Aos poucos, tudo ficou turvo diante dos olhos de Yingying.

— O que está acontecendo?

Antes que pudesse reagir, ventos furiosos, relâmpagos e trovões tomaram conta do céu, e toda a luz convergiu para o portal.

Yingying sentiu os raios atravessando seu corpo, como se seu sangue fervesse. Era uma sensação estranha, e a pedra que carregava junto ao peito irradiava um calor suave.

O mundo mergulhou num breu absoluto, restando apenas o portal de nove cores, esplendoroso, emanando uma presença indescritível — a mesma que sentira nos sonhos ao lado do pai, mas agora muito mais intensa.

De súbito, uma luz ofuscante, acompanhada de trovões e relâmpagos, surgiu diante dela e avançou contra o portal. O peixe não teve tempo de escapar e colidiu diretamente com a luz.

O clarão foi tão intenso que Yingying precisou fechar os olhos. Quando, enfim, os reabriu, o mundo estava incrivelmente límpido, e o temporal cessara.

— Mas o que foi isso? Estaria sonhando?

Olhou ao redor, e ao dar um passo, sentiu algo sob os pés: era uma pedra, com a forma de um peixe, cintilando com nove cores.

Movida pela curiosidade, Yingying apanhou a pedra e notou um desenho humano gravado nela, envolto por dois círculos, um preto e outro branco.

— Que estranho... Por que o tempo mudou tão de repente? De onde saiu esta pedra? — murmurou, guardando-a na cesta e apressando-se de volta para casa.

Naquele dia, seu pai voltou mais cedo que o habitual, o que lhe pareceu estranho.

— Papai... papai! — chamou Yingying.

De dentro da cabana, ouviu-se uma voz aflita:

— Yingying, você encontrou alguma coisa estranha hoje?

— Encontrei, sim... — respondeu ela, pensativa. — Achei uma pedra muito esquisita, com nove cores e um desenho humano dentro. Papai, venha ver!

Mal terminara de falar, as mãos ásperas do pai agarraram rapidamente a pedra. Ele a observou, os lábios tremendo, incapaz de dizer uma palavra. Na mente, um zumbido ensurdecedor.

— Como isso é possível? — pensou, atônito. — Como a lendária Pedra do Espírito Primordial apareceu aqui?