Capítulo Noventa e Sete: A Entrada de Yaochuan
— Eu? O mestre me mandou sair para ganhar experiência! Mas, depois que saí, não conhecia quase ninguém, então fui seguindo o pessoal até aqui, aproveitando para ajudar alguns doentes pelo caminho.
— E vocês? Por que também saíram?
— Também viemos para ganhar experiência. Não esperávamos encontrar o mundo lá fora tão caótico. O irmão Dourado ficou inconsciente sem motivo aparente... A propósito, irmão Ervas, como estão as coisas em Nova Cidade Eterna?
— Não sei ao certo. Desde que vocês partiram, voltei com o mestre para o portão da montanha e não saí mais. Mas ouvi dizer que lá está um caos: os grandes clãs se digladiam, e agora surgiu uma técnica demoníaca devastadora... As pessoas vivem em sofrimento.
— Irmão Ervas, ouviu falar de algo estranho acontecendo na Montanha dos Cinco Picos?
— Parece que mudou bastante. Segundo relatos, lá surgiu uma seita chamada Seita da Montanha. Dizem que ela é protegida por clãs vizinhos e é quase impossível que estrangeiros entrem.
— Seita da Montanha? Sabe quem a fundou?
Ervas pensou um pouco.
— Não sei. Tianyi, vocês não vieram da Montanha dos Cinco Picos? Vocês estão nesse caminho por quê? Querem voltar para lá, dar uma olhada?
— Sim. Já estamos fora há bastante tempo, sinto saudades daquele lugar.
— É, quem passa tanto tempo longe, uma hora sente falta de casa. Tianyi, pelo que vejo, você ainda não atingiu o estágio de Fundação, e mesmo assim seu mestre permitiu que saíssem? Lá está muito perigoso, tem briga quase todo dia!
— Irmão Ervas, minha irmã já atingiu esse estágio, ela me protege pelo caminho, não se preocupe. Além disso, já não sou mais uma criança indefesa, sei cuidar de mim mesmo.
Nesse momento, Tianying se aproximou:
— Irmão, vá ver o irmão Dourado, ele disse que precisa falar com você.
— Certo, vou lá. Continuem conversando.
Dourado já havia se recuperado. Relembrar o ocorrido ainda o feria profundamente, mas agora conseguira dominar aquele temor oculto. Jamais imaginara que fosse realmente o irmão Montanha. Preferia não saber, mas os fatos estavam postos; fugir não adiantaria.
— Tianyi, você chegou! — Dourado, ao vê-lo entrar, esforçou-se para se sentar. Tianyi apressou-se em ajudá-lo.
— Irmão Dourado, não se mova tanto. Ervas disse para você descansar alguns dias. Disseram que você levou um susto? O que aconteceu afinal?
— Tianyi, venha aqui.
— O que foi? Por que tanto mistério, irmão Dourado? — Tianyi sorriu levemente.
— Vi alguns indícios naquele livro. Temo que seja como você suspeitava... Lá estão as anotações do irmão Montanha. — Dourado falou, aliviando-se com um profundo suspiro.
— O quê! Você diz que naquele livro estão as anotações do irmão Montanha? Tem certeza? — Tianyi sempre suspeitara, mas nunca tivera provas. No fundo, relutava em aceitar que o irmão Montanha pudesse ser esse tipo de pessoa; desconfiava, mas ainda preservava uma réstia de esperança. Não permitia que ninguém o chamasse de cultivador demoníaco. Ao ouvir as palavras de Dourado, sentiu como se uma montanha desabasse sobre si, tomado por uma inquietação sem saída.
Jamais pensara que realmente seria o irmão Montanha. Cenas do passado lhe vieram à mente, estampando a dor em seu rosto. Ele falou, sombrio:
— Tem certeza, irmão Dourado? Não pode ser engano? Ou alguém mais poderia ter o mesmo hábito?
— Não é engano! — E, dizendo isso, tirou o livro de debaixo do cobertor, folheou até a última página e apontou para o último caractere. — O irmão, não importa que palavra escreva, sempre termina o último traço do último caractere com um leve gancho para cima. Já falamos disso diversas vezes, e ele nunca mudou. Chegou a dizer que era uma característica só dele. É raro alguém escrever desse modo!
— Irmão Dourado, não vamos tirar conclusões precipitadas. O irmão Pequeno Tigre sabe disso?
— Não, não contei. A amizade deles é profunda como o mar; sem provas, não posso dizer nada. Com o temperamento dele, se souber, vai causar uma confusão. Só contei a você. Por ora, não espalhe. Quando chegarmos lá, tudo ficará claro!
— Está bem. Também não quero acreditar que o irmão Montanha tenha feito aquilo. Você acha que o Velho Mestre das Ervas não morreu? Do contrário, tal técnica não teria aparecido.
Tianyi e Dourado ficaram longamente imersos em seus pensamentos.
Nesse momento, ouviram o Pequeno Tigre gritar do lado de fora:
— Dourado, olha o que consegui para você! Frango assado! Hoje em dia é uma raridade por aqui, quase não se vê gente, conseguir um frango foi difícil, andei muito até encontrar. Coma, vai te fortalecer!
— Irmão Tigre, descanse um pouco. Quando Dourado estava desacordado, você era o mais preocupado.
— Não se preocupe! Estou inteiro! Tianyi, coma um pouco também. Ah, Dourado, quando você estava desacordado, murmurou sobre o irmão Montanha. O que houve?
Cof, cof...
Dourado disfarçou:
— Nada. Fiquei preocupado com o irmão Montanha. O mundo está tão caótico, não sei como ele está.
O Pequeno Tigre colocou o frango diante de Dourado:
— Ele deve estar bem! Lá na montanha, com natureza exuberante e tantos irmãos cuidando dele... Vai ver até já tem filhos, só esperando a gente voltar para beber juntos! Não é, Dourado?
— Acho que sim. Estávamos falando sobre ele agora mesmo, querendo voltar logo e, juntos, retornar ao clã. Seremos todos reunidos de novo, brindando à liberdade.
— Nosso foco agora não é voltar correndo, mas você se recuperar bem. Quando estiver pronto, partimos. Não precisa pressa.
Tianyi então disse:
— Irmão Dourado, ouça o irmão Tigre! Recupere-se, depois seguimos. Há tempo.
— Está bem, farei como dizem.
Logo depois, Tianyi viu que Dourado fechara os olhos para descansar, então saiu. Pequeno Tigre também se entediou e foi para fora.
— Irmão, Pequeno Tigre, será que o irmão Ervas pode viajar conosco? — perguntou Tianying ao ver o irmão sair.
— Seria ótimo! Assim teremos mais proteção no caminho.
Com a presença de Ervas, o grupo se fortaleceria bastante. Tianyi acreditava que aquele livro certamente atrairia ladrões, e seria bom estar preparado para enfrentá-los todos.
— Tianyi, obrigado. Assim terei companhia na viagem, pois sozinho era mesmo entediante.
— Ora, irmão Ervas, nós é que ficamos felizes! — respondeu Tianyi.
Notaram que Ervas estava bem mais comunicativo do que antes. Quando criança, ele mal falava e seguia apenas as ordens do mestre; parecia que a solidão da experiência o tornara mais aberto.
— Agora que temos o irmão Ervas conosco, nosso grupo está maior! — concluiu Tianyi, apresentando Yuan Yang e Yuan Si a ele. Todos se familiarizaram, e Yuan Yang aceitou logo a companhia; Yuan Si, então, nem se fala: para ela, o que o irmão mais velho dissesse era lei, sempre com aquele jeito infantil.
Ervas simpatizou logo com as duas. Yuan Si, curiosa como sempre, vivia a rodeá-lo, pedindo dicas de cura e salvamento. Sem saída, ele ia ensinando-a aos poucos. Assim, o grupo seguiu seu caminho para a Montanha dos Cinco Picos, parando e andando.
Dourado, após o abalo e com o tratamento de Ervas, logo se recuperou completamente, sem qualquer sinal de preocupação.
Pelo caminho, sempre que surgia alguma injustiça, Yuan Si tomava a frente, com Pequeno Tigre ao lado para intimidar. Eram situações simples, fáceis de resolver: ladrões de estrada levavam uns sopapos, opressores dos fracos eram postos em fuga. Lidavam com isso todos os dias, e a novidade das primeiras aventuras foi aos poucos se esvaindo.