Capítulo Onze: O Ancião das Ervas de Manto Branco
Nova Cidade Eterna
– Irmã, esta cidade é enorme! – Tianyi olhava admirado para a grandiosidade da cidade diante de si, ainda que não fosse tão imponente quanto a cidade que via em seus sonhos.
Yingying, ao contemplar a mesma paisagem, não pôde deixar de expressar um suspiro semelhante.
– Tianyi, maninha, vamos entrar na cidade. Vou levar vocês para comer algo gostoso e depois procurar um lugar para ficarmos – disse Xiaohu, com o rosto iluminado de empolgação.
– Certo, vamos procurar uma hospedaria boa. Depois eu levo a maninha para ver um médico – completou Jinzi, dirigindo-se à irmã.
– Garçom, traga duas travessas de carne e duas jarras de vinho. Vocês têm quartos bons aqui? – perguntou ele ao empregado.
– Temos sim, senhor, aguarde um momento – respondeu um rapaz de roupas simples que logo trouxe os pedidos à mesa. – Senhores, aqui está a comida, aproveitem.
– Garçom, queria saber se há algum médico bom na cidade. Preciso que alguém examine a minha irmã – disse Jinzi, colocando sobre a mesa uma pedra espiritual.
O empregado pegou a pedra com toda discrição; afinal, era um cliente importante, pois pedras espirituais eram valiosas naquela terra, muito mais que o ouro ou prata comuns. – Siga reto e vire na próxima esquina. Há uma clínica do Clã dos Remédios, dizem que lá dentro há um curandeiro que raramente atende as pessoas e não aceita ouro ou prata comuns. Vocês podem tentar a sorte lá.
– Irmão, mano, vocês não precisam se preocupar, eu estou bem, para que ir à clínica? – perguntou Yingying, intrigada.
Jinzi olhou para Xiaohu e Tianyi, e depois falou: – Maninha, você já estava envenenada antes. Quando você desmaiou, tentei ajudar e percebi que o veneno já estava em seu corpo há tempos. Só graças a um mestre que protegeu seus meridianos você não morreu naquele dia, mas só garantiu um ano de vida. Depois, com as manipulações do velho dos remédios, o veneno se espalhou, restando apenas meio ano. Por isso estamos te trazendo à cidade, para ver se encontramos um médico capaz de suprimir o veneno por mais tempo.
– Só me resta meio ano? Mas eu ainda tenho tantas coisas para fazer... Prometi ao papai que iria até o Portão Celestial encontrar o Vovô Xiang, mas agora... Mano, é verdade que só tenho esse tempo? – os olhos da irmã fixaram-se em Tianyi, esperando que ele negasse.
– Irmã, é verdade. O irmão Dashan contou para mim. Naquela noite, não te contei para não preocupá-la.
Yingying apoiou-se na mesa, o corpo vacilando, e Tianyi logo tomou sua mão: – Não se preocupe, irmã. Eu juro que vou te curar. Ainda quero que esteja sempre comigo.
Após a refeição, eles deixaram a hospedaria e seguiram até a clínica indicada. No letreiro, lia-se “Clínica do Clã dos Remédios”. A entrada fervilhava de gente. Xiaohu abriu caminho até o balcão, levando os irmãos consigo e provocando um alvoroço.
– Silêncio! Temos um caso grave. Onde está o responsável? Preciso que veja minha irmã! – exclamou Xiaohu.
– Jovem, por que tanta pressa? Todos aqui têm urgência. Invadir assim vai contra as regras – respondeu um ancião de veste branca atrás do balcão.
Com um estalo, Jinzi colocou uma pedra espiritual sobre a mesa, seguido por outra. – Isso basta, senhor?
O velho de branco olhou para ele, depois respondeu friamente: – Próximo! – e ignorou-os. Xiaohu já ia protestar quando uma voz clara soou:
– Irmão Xiaohu, deixa comigo, você está sendo precipitado. Vovô, quero ser examinada, estou envenenada há mais de um mês.
Xiaohu, sem graça, coçou a cabeça e se retirou, resmungando: – Velho teimoso...
– Senhorita, aguarde um pouco. Yaochuan, venha aqui e atenda estes pacientes. Se houver dúvidas, venha me procurar – chamou o ancião, enquanto um jovem de aparência gentil, trajando azul, saía dos fundos.
– Sim, mestre.
– Este é meu discípulo, Yaochuan – apresentou o velho.
– Venha comigo, senhorita.
– Vovô, posso entrar junto? Ela é minha irmã.
– Pode, venham ambos.
Xiaohu e Jinzi quiseram entrar também, mas o velho de branco os encarou, fechou a porta e os deixou do lado de fora.
– Xiaohu, acho que você irritou o velho – murmurou Jinzi, satisfeito.
Xiaohu torceu a boca – Esse velho não presta, ainda levou minhas pedras... Hipócrita, igual ao velho dos remédios.
Jinzi logo tapou a boca de Xiaohu – Fale baixo! Se ele ouvir, pode nos expulsar!
Dentro do consultório, o velho pediu:
– Senhorita, estenda o braço.
Ele retirou um estojo de agulhas de prata e, com destreza, as inseriu no pulso de Yingying. Logo, um sangue negro e fétido escorreu de nove pontos, escurecendo rapidamente as agulhas. O velho então aplicou uma sequência de movimentos complexos em seu braço – a Técnica das Agulhas Estelares da Longevidade! Pena que ninguém ali conhecia tal arte, segredo ancestral dos mestres do Clã dos Remédios.
– Senhorita, temo que minhas habilidades não sejam suficientes para eliminar o veneno. Só posso prolongar sua vida por mais algum tempo. Para curá-la de verdade, será preciso alguém de grande poder espiritual, mas até mesmo esse alguém pode correr risco de vida...
– Não se preocupe, vovô, só de ganhar tempo já estou satisfeita. Ainda precisamos ir ao Portão Celestial.
– Portão Celestial... – murmurou o velho – Senhorita, leve este talismã de jade. Lá procure por Xiang Liansheng, diga que foi o velho de branco quem enviou. Ele certamente irá ajudá-los. E deixem de me chamar de vovô, gostei tanto de vocês que prefiro que me chamem de Vovô das Ervas – e riu satisfeito.
– Vovô das Ervas, partiremos em breve para chegar logo.
– Está bem. Comam algo e depois sigam viagem. Pequena Yingying, quem são os dois que estavam na porta? Não parecem pessoas comuns.
Yingying então contou sua história ao velho de branco.
– Então você é filha de Qian Yun, do Clã Qian? Soube que, nos últimos anos, o Clã Qian tem sofrido nas mãos de Qian Feng, perdendo o antigo prestígio. O Clã Qian já foi o guia moral desta terra... Que pena.
– Mas esses dois rapazes parecem honestos, só caíram na armadilha do médico venenoso que queria transformá-los em pílulas. Talvez seja alguém que saiu do meu clã, preciso investigar. Eles vão acompanhá-los até o Portão Celestial?
– Não, eles vão voltar, irmão Dashan pediu que retornassem – respondeu Tianyi.
– Não pode ser. Esse caminho é perigoso demais para irem só vocês dois. Vou pensar em algo para convencê-los a acompanhá-los. Deixem isso com seu Vovô das Ervas.
Do lado de fora, Xiaohu e Jinzi se entreolhavam, cansados de esperar, quando Yingying e Tianyi saíram com o velho de branco.
– Vocês estão com pressa para ir embora? Estes são meus netinhos adotivos, Tianyi e Yingying. Ouvi dizer que pretendem voltar para aquela vida de bandidos. Acaso meus netos não merecem sua escolta? – disse ele, liberando uma aura poderosa que os envolveu.
– Isso... Não é bem assim. Gostaríamos de acompanhá-los, mas nosso irmão mais velho pediu que voltássemos. Eles também são como irmãos para nós, não queremos deixá-los sozinhos – respondeu Jinzi.
– Então vocês concordam em ir? Pois bem, não será em vão. Que tal eu recomendar vocês ao Portão Celestial? Tenho essa influência – disse o velho.
Ao ouvir isso, Jinzi logo respondeu, animado:
– Iremos, claro. Eles também são nossos irmãos – e todos sorriram juntos.