103. Estar doente também é uma forma de saúde
— Senhorita, suas palavras me deixam sem saber como responder. Será que um cavalo saudável precisa estar totalmente livre de qualquer doença? — questionou Fú Jùn.
— O que quer dizer com isso? Um cavalo doente também pode ser considerado saudável? — retrucou Táng Yáo.
— Depende da forma como se entende. Se for apenas viver tranquilo, um cavalo saudável pode, sim, apresentar outras enfermidades — respondeu Fú Jùn.
— Que absurdo! Nunca ouvi dizer que um cavalo doente ainda seja saudável — Táng Yáo demonstrava desconfiança.
— Pois veja só, qualquer cavalo, se examinado minuciosamente da pele ao sangue com equipamentos profissionais, apresentará algum grau de doença. É como os humanos: uma pessoa saudável, ao fazer um exame completo, pode revelar várias condições, mas que não ameaçam sua vida nem atrapalham seu dia a dia. Por isso dizemos que está saudável, embora tenha enfermidades — explicou Fú Jùn.
— Então, segundo você, a Elina ainda carrega outros microrganismos? — Táng Yáo ficou preocupada. Quando o assunto envolvia Elina, ela não conseguia se manter calma.
— Logicamente, sim. Até o corpo humano abriga microrganismos.
— E o que faremos? Esses microrganismos podem matar a Elina?
— Pode ficar tranquila! Uma certa quantidade deles é benéfica. Nosso organismo também os possui e, mesmo assim, não morremos por isso.
— Entendi — Táng Yáo assentiu e acrescentou — Então, se a Elina está curada, ainda assim está saudável. Mas como provar se ela está confortável ou não?
— Bem... que tal perguntarmos diretamente à Elina? — Fú Jùn hesitou e passou a responsabilidade para a própria protagonista, pois não sabia como responder.
A pergunta de Táng Yáo era uma armadilha evidente. Fú Jùn sabia que Elina estava confortável, mas não tinha como provar. Como demonstrar isso? Pedir para ela se transformar num cavalo e sentir se estava bem? Seria algo digno de um romance de possessão animal, mas, no mundo real, quem acreditaria?
Assim, Fú Jùn não teve alternativa senão jogar a pergunta para a Elina.
— Perguntar à Elina? Como faremos isso? — perguntou Táng Yáo.
— Simples. Se ela estiver confortável, dá um relincho; se estiver desconfortável, relincha duas vezes. Pronto — explicou Fú Jùn.
— Mas será que Elina entende o que falamos? — Táng Yáo olhou para o animal.
— Pode ficar tranquila! Cavalos são animais muito inteligentes e entendem a linguagem humana. Pelo menos, a Elina entende o que eu digo, não é, Elina? — Fú Jùn acariciou a cabeça do cavalo.
— Que vaidade! Eu convivo com a Elina há tantos anos. Se ela entende alguém, é a mim, não a você. Você é tão sem vergonha, sempre se vangloriando — retrucou Táng Yáo, claramente irritada com a brincadeira de Fú Jùn.
— Se é assim, não tem conversa. Vamos perguntar à Elina se ela está confortável ou não — Fú Jùn encolheu os ombros.
— Tudo bem — concordou Táng Yáo —, mas eu que vou falar com a Elina. Você nem tente, senão vai duvidar que ela entenda o que eu digo e não o que você fala.
Ao ver a seriedade no rosto de Táng Yáo, Fú Jùn balançou a cabeça, sem dizer mais nada, deixando que ela interagisse com Elina.
Na verdade, Fú Jùn também não acreditava que, quando falassem em conjunto, Elina o compreenderia.
Mesmo que ele falasse a linguagem dos cavalos, caso Elina entendesse o humano, por querer agradar a Táng Yáo, fingiria não entender o que ele dizia, e ele não teria jeito, por mais que gritasse.
Cavalos entendem os humanos. Um estranho qualquer, usando gestos e palavras, seria compreendido por Elina. E mais ainda Táng Yáo, que convive com ela há tantos anos. O vínculo entre ambos transcende qualquer definição simples.
Apenas o antigo jóquei que controlava Elina quando ela foi comprada por Táng Zhènshān para corridas de velocidade, e o antigo proprietário, podem ter uma relação semelhante à de Táng Yáo com Elina.
— Tire sua mão suja daqui! — Táng Yáo afastou a mão de Fú Jùn que acariciava a cabeça de Elina, e então passou a acariciar ela mesma — Elina, você está confortável agora? Se estiver, relinche uma vez; se não, relinche duas vezes. Pode ser?
Após Táng Yáo falar, Elina olhou para ela com seus grandes olhos, bufou e, por fim, relinchou forte uma única vez.
O significado era claro: após a cura, Elina não sofria mais com a inflamação na boca e corria muito confortável.
— Senhorita Táng, ouviu? Esse relincho único demonstra que a Elina está muito confortável! — Fú Jùn disse satisfeito.
— Vaidade? Você só curou uma inflamação bucal e já está todo orgulhoso. Como pode ser tão vaidoso? Se todos os veterinários fossem assim, estaríamos perdidos! Pensa bem: se o veterinário que tratou os cavalos do departamento de secretariado fosse tão vaidoso quanto você, seria uma tragédia. Aposto que seria espancado pelos fãs e treinadores do departamento — disse Táng Yáo, claramente incomodada com a atitude de Fú Jùn.
— Não ligo! A Elina não é um cavalo famoso decidido por uma moeda. E quem garante que o veterinário do secretariado não é como eu? Afinal, estou vivo, e ninguém me bateu — respondeu Fú Jùn com ar desafiador.
— Teimoso... — Táng Yáo ficou sem saber o que dizer.
— Não é teimosia, é realidade. Sou uma pessoa honesta, nunca maltratei ninguém, como poderia ser atacado? — Fú Jùn continuou.
— ... — Táng Yáo ficou muda. Percebeu que tinha superestimado Fú Jùn. Ele um homem honesto? Desde que chegou ao clube, já havia humilhado pessoas como Hán Tiānlín e nem respeitava a senhorita do clube, agindo como um valentão novato.
Mas, curiosamente, ele agia como se tivesse razão, e ninguém cogitava expulsá-lo. Por quê? Porque os dons médicos de Fú Jùn eram evidentes, e todos sabiam que, com o tempo, ele se destacaria na indústria das corridas de cavalos.