Adaptação difícil ao clima e à alimentação locais
Depois de ser acariciada na cabeça por Fuvino, Elina balançou lentamente, parecendo apreciar o gesto, então soltou um forte relincho e bufou.
— Você é que está doente! Só estou me sentindo desconfortável, então tento fazer outras coisas para me sentir melhor.
Essa foi a resposta de Elina, mas deixou Fuvino intrigado: afinal, o que acontecia com o corpo de Elina para que ela agisse de modo quase autodestrutivo?
Fuvino continuou acariciando a cabeça de Elina e perguntou:
— Até que ponto você está sentindo desconforto? Nunca vi um cavalo se machucar por causa disso.
— Hein? Você consegue me ouvir? Falei tantas vezes com Yaoyao e ela nunca entendeu! — Elina alongou o relincho, surpresa.
— Com algum esforço, sim — respondeu Fuvino, dando de ombros.
— Mas... não quero te contar! — Elina relinchou de novo, com um ar mimado de jovem aristocrata.
— Não vai me contar? — Fuvino levantou as sobrancelhas.
— Isso mesmo!
— Então não me culpe por bagunçar a sua crina!
Dito isso, Fuvino começou a despentear a crina de Elina, que estava perfeitamente escovada e brilhante.
Os cavalos gostam de crina suave e bem cuidada; não só porque ficam mais bonitos, mas também porque se sentem mais confortáveis assim.
A crina espessa costuma acumular poeira, sujeira, insetos, o que pode causar doenças de pele. Por isso, cavalos bem cuidados, com crina limpa e arrumada, sentem-se mal quando ela é bagunçada.
Elina era assim; ao sentir sua crina desarrumada, ficou inquieta e desconfortável, ainda mais considerando que já estava emocionalmente abalada desde que retornou ao país.
Para se sentir melhor, Elina implorou por misericórdia.
Com um relincho sofrido, ela disse:
— Por favor! Pare de bagunçar minha crina! Se você parar, eu conto.
Fuvino sorriu, interrompendo a brincadeira:
— Conte logo, ou continuo mexendo na sua cabeça.
— Está bem! Tudo começou na semana passada, quando eu e Yaoyao chegamos da Inglaterra. Desde então, me sinto desconfortável, não tenho apetite, não durmo bem. Procuro alguma atividade, algo que me estimule. E caminhar pelo asfalto, sentir minhas patas doloridas, isso me faz sentir bem!
Fuvino ficou sem palavras ao ouvir isso, pensando que o cavalo tinha algum distúrbio psicológico; buscava dor para aliviar o desconforto.
Caminhar no asfalto para um cavalo era como andar sobre uma tábua de pregos para um humano — quem faria isso voluntariamente?
Normalmente só pessoas excêntricas se submetem a esse tipo de tortura.
Mas como veterinário de cavalos de esporte, Fuvino sabia que havia uma razão para o comportamento de Elina.
Pensando que Elina estava assim desde que retornou da Inglaterra, Fuvino suspeitava de um grave caso de adaptação ambiental.
— Você é incrível! Consegue acariciar Elina! — exclamou, admirada, a garota ao lado de Fuvino.
— Elina é muito orgulhosa, não é? — respondeu Fuvino.
— Sim! Quando estava na Inglaterra, ninguém conseguia tocá-la. — A garota assentiu seriamente.
— É normal! Aposto que Elina ganhou muitos prêmios, tem uma estrutura rara entre as éguas, então é compreensível que tenha personalidade.
— Por isso, quando você tocou Elina, fiquei muito assustada, com medo de ela te atacar. — Enquanto falava, a garota batia no peito, lembrando-se de incidentes assustadores protagonizados por Elina com estranhos.
Enquanto Fuvino acariciava a cabeça de Elina e conversava com ela, a garota estava sempre apreensiva com a reação da égua.
Como dona de Elina, ela conhecia bem o temperamento indomável do animal; na Inglaterra, até os melhores veterinários tinham dificuldades com ela.
Quanto ao modo como Fuvino conversava com Elina, isso não era novidade; já vira muitos veterinários usarem a linguagem para guiar e observar o comportamento dos cavalos, tentando identificar causas de doenças.
Por isso, não achava estranho que Fuvino conversasse com Elina; sabia que essa era uma maneira de criar vínculo entre veterinário e animal.
Os veterinários normalmente não entendem a linguagem dos cavalos, mas Fuvino conseguia, algo que a garota desconhecia — por isso ele não se importava com a presença dela durante o diálogo.
No fim, ela só considerava aquilo uma técnica de tratamento, como muitos veterinários fazem ao dialogar com os cavalos para entender suas doenças; por isso, são chamados de "faladores de cavalos".
Se esses faladores realmente entendem os cavalos, só eles sabem.
Observando Elina e ouvindo seu relato, Fuvino pensou numa causa comum entre cavalos.
— Você disse que Elina veio da Inglaterra. Como ela foi transportada? — perguntou Fuvino.
— Por avião!
— Agora está explicado!
— O quê? O que está explicado? — perguntou a garota, com olhos arregalados.
— Nada demais. Quero dizer que o problema de Elina é normal. Quando voltar, leve-a para passear no gramado do clube, deixe-a descansar no estábulo, logo estará melhor. Mas cuide bem dela para evitar outras doenças.
— É mesmo? Basta levar Elina ao gramado para ela melhorar?
— Isso mesmo. Experimente. — Fuvino assentiu.
— Trapaceiro! E se Elina não melhorar, como vou te encontrar?
— Por que me procurar? Não sou o veterinário responsável por ela. E como virei trapaceiro? Pergunte ao veterinário dela; ele saberá como cuidar de Elina após o retorno ao país.
— Não posso procurar ninguém. Desde que Bala de Prata perdeu a corrida por causa da pata, o clube demitiu os antigos cuidadores de cavalos. Nos últimos dias, estão contratando novos funcionários, e não há veterinários acompanhando Elina; apenas tratadores alimentam e limpam os cavalos. — explicou a garota.
— Agora entendi. Não admira que uma doença tão simples de Elina não seja tratada no grande Clube Lago Wenhua. — comentou Fuvino.
No fundo, Fuvino compreendia por que o clube, que não planejava contratar novos funcionários, de repente abriu vagas para cuidadores; foi por causa das demissões inesperadas.
Ele só teve oportunidade de ir ao Lago Wenhua por causa desse anúncio; caso contrário, teria de buscar emprego em um clube de equitação recém-aberto, como muitos colegas, pois os clubes tradicionais só contratam profissionais selecionados e raramente dão chances a novatos.
Fuvino se perguntava se as demissões estavam relacionadas ao ferimento proposital na pata de Bala de Prata.
Pensando em emprego, ele não queria perder mais tempo com Elina e falou sucintamente à garota:
— Elina não tem nenhum problema sério; sofre apenas de uma forte dificuldade de adaptação. Deixe-a descansar e passear pelo gramado do nosso país, logo ela se acostuma.
— Dificuldade de adaptação? — A garota piscou, sem entender, parecendo desconfiada.
— Sim! Recentemente, a diferença de temperatura entre Inglaterra e aqui é grande, e ainda trouxeram Elina por avião. Ela não se acostuma de imediato, como pessoas que viajam para o exterior e precisam de tempo para ajustar o fuso horário e ambiente; ela também precisa se habituar.
— Então Elina vai melhorar logo?
— Não necessariamente. Como as pessoas, os cavalos têm diferentes capacidades de adaptação, alguns demoram mais. Além disso, o feno e a alimentação daqui são diferentes da Inglaterra. Mudanças de vida podem exigir longo período de adaptação, especialmente para cavalos. Por isso, Elina tem apresentado reações incomuns ultimamente, mas tudo é normal. Ela busca estímulos que a deixem feliz, como caminhar sobre o asfalto.
— O quê? Caminhar no asfalto deixa Elina feliz?
— Sim!
— Não acredito!
— Se não acredita, pergunte à sua égua. Não tenho mais tempo, preciso ir. — Fuvino se despediu e saiu rapidamente.
A garota ainda tentou detê-lo, mas ele já se afastava.
— Elina? Você realmente está sofrendo de dificuldade de adaptação? Se os cuidadores do clube não tivessem sido demitidos, eu certamente perguntaria a eles. Mas caminhar no asfalto te deixa feliz mesmo? — observando o jovem desconhecido se afastar, a garota abraçou a cabeça de Elina e sussurrou.
A resposta veio em um relincho animado de Elina.
Pela experiência de anos convivendo com ela, a garota percebeu que era uma confirmação.
Vendo Elina assim, a garota murmurou, perplexa:
— Será mesmo apenas uma dificuldade de adaptação?