61. Pregando
Os cascos dos cavalos crescem, assim como as unhas das pessoas, e se não forem aparados ou calçados adequadamente, isso pode afetar sua locomoção, quanto mais sua capacidade de correr. Por isso, as ferraduras são para os cavalos o que os sapatos são para as pessoas: protegem os cascos dos animais. Para os cavalos, uma ferradura adequada é um equipamento essencial para prevenir lesões.
Assim, o cuidado com os cascos deve incluir, além do aparamento e modelagem, a troca periódica das ferraduras. As ferraduras utilizadas devem corresponder ao formato e tamanho do casco, ser suficientemente largas e espessas, deixar uma borda e cauda sobrando, sem ficar excessivamente justas, e, em situações especiais, optar por ferraduras específicas.
Wang Martelo já havia trocado as ferraduras do Projétil de Liga antes, e conhecia bem sua situação, que não apresentava nada fora do comum. Ele havia preparado as ferraduras antecipadamente, e, embora não tivesse medido os cascos pessoalmente, sua experiência garantia que dificilmente haveria discrepância significativa.
Enquanto pedia ao segurança que trouxesse a ferradura aquecida, Wang Martelo não ficou parado. Utilizou uma lima que trouxera consigo para polir o casco, buscando deixá-lo bonito, uniforme e liso, de modo que a ferradura pudesse ajustar-se perfeitamente ao ser fixada.
Para garantir a planura da superfície do casco, ele se valia de um ponteiro e de seu olhar aguçado para conferir a regularidade.
— Professor! Por favor, traga a ferradura! — exclamou Wang Martelo de repente, ao julgar que o trabalho estava quase pronto.
Robert, avisado por Han Tianlin, recebeu de um guarda a pinça de ferro e, com extremo cuidado, entregou a ferradura a Wang Martelo.
Este pegou a pinça, e, confiando em sua experiência e percepção, rapidamente posicionou a ferradura no casco traseiro esquerdo do Projétil de Liga.
Um chiado se fez ouvir quando a ferradura aquecida em brasa tocou o casco, liberando vapor. Sentindo o calor, o Projétil de Liga relinchou, inquieto. Embora já tivesse passado por isso outras vezes, o calor súbito ainda o deixava nervoso — como alguém que, mesmo acostumado a banhos quentes nos pés, se assusta ao primeiro contato com água fervente. Era exatamente esse o desconforto do Projétil de Liga.
Fu Jun, ao observar a ferradura rubra cravar-se na sola do casco, não pôde evitar lembrar de um prato: cascos na chapa de ferro.
Bastaria temperar com pimenta e cominho depois de pronto, o sabor seria excelente!
Pena que, nesse caso, o casco não chega a cozinhar, permanece cru, impossível de mastigar ou comer.
Durante todo esse processo, Wang Martelo mantinha as pernas firmemente pressionadas ao casco traseiro esquerdo do Projétil de Liga, assegurando que, no momento crucial da instalação, qualquer movimento do cavalo não comprometesse o posicionamento da ferradura, o que seria um fracasso.
Fu Jun sabia bem da força de um coice e admirou, em silêncio, a potência das pernas de Wang Martelo, capaz de imobilizar o animal. Não era de se estranhar que sua fama como ferrador tivesse ultrapassado fronteiras. Diferente de astros que fabricam números internacionais para depois se vangloriarem em casa, Wang Martelo possuía verdadeira competência.
Quando a ferradura esfriou e escureceu, Wang Martelo testou a temperatura com os dedos. Só então, ao constatar que já não queimava, preparou-se para pregar a ferradura no casco traseiro esquerdo do Projétil de Liga.
Pregar a ferradura, também chamado de cravagem, consiste em fixá-la ao casco com pregos especiais. A qualidade desse trabalho é determinante para evitar doenças no casco, perda da ferradura ou rachaduras.
Por isso, a cravagem é a última e mais importante etapa do procedimento.
Após todo o embate com o Projétil de Liga, Wang Martelo já estava coberto de suor, mas não ousava enxugá-lo, temendo que qualquer movimento extra resultasse em erro.
Com a ferradura já marcada no casco, se ele não a fixasse imediatamente, um único gesto em falso poderia deslocá-la. Nesse caso, seria preciso arrancá-la e recomeçar. Se o deslocamento causasse irregularidades, seria necessário corrigir o casco, e se o desgaste fosse excessivo, poderia causar danos ao animal — uma situação indesejável.
Por isso, Wang Martelo era extremamente cauteloso. Nessas horas, revisava mentalmente cada detalhe da cravagem, para não cometer erros e arruinar todo o trabalho.
Normalmente, a quantidade de pregos não deve ser excessiva: muitos pregos não garantem melhor fixação, e sim danificam a parede do casco, favorecendo a queda da ferradura ou doenças. Por outro lado, poucos pregos não proporcionam segurança, resultando em ferraduras soltas. É preciso adequar a quantidade ao tamanho do casco.
Em geral, cascos normais recebem três pregos de cada lado, seis por casco; cascos maiores, quatro de cada lado, totalizando oito.
A profundidade dos pregos também exige precisão: muito profundos, podem machucar o casco; muito rasos, facilitam a queda da ferradura.
O ideal é que o prego entre pela borda externa da linha branca do casco e saia entre o terço inferior e o terço médio da parede lateral.
Deve-se manter o espaçamento equidistante entre os pregos, evitando que fiquem muito próximos ou distantes. Os últimos pregos suportam maior peso, exigindo fixação reforçada.
Depois de todos os pregos colocados, Wang Martelo semicerrava os olhos para aliviar o cansaço da vista, e então iniciava a etapa ainda mais delicada: aparar o comprimento dos pregos.
Esse comprimento refere-se à porção do prego que, após atravessar a parede do casco, é cortada com alicate e dobrada para cima.
Não deve ser nem longa, nem curta demais; geralmente, recomenda-se que esse comprimento seja semelhante à largura do corpo do prego, formando um quadrado.
Parece simples, mas é uma operação difícil, exigindo habilidade e extrema atenção do ferrador.
O modo como Wang Martelo aparava os pregos lembrava Fu Jun de um ditado: Zhang Fei enfiando linha na agulha — olhos grandes para um trabalho minucioso.
Mas Wang Martelo não era Zhang Fei, e os pregos não eram tão finos quanto agulhas.
Um a um, ele cortava e dobrava os pregos, buscando o comprimento ideal.
Sua vasta experiência permitia que todos ficassem praticamente do mesmo tamanho, com uma variação inferior a um milímetro — algo raríssimo, que causava admiração até mesmo nos especialistas que já haviam testado seu trabalho.
E ele havia conseguido isso graças à tradição familiar de ferrar cavalos, nunca abandonada, repetida dia após dia, ano após ano. Apesar do desgaste físico e mental, desenvolveu uma habilidade extraordinária para seu ofício.