11. Beijando a extremidade da bala dourada
— Fábio, não venha com bravatas. Você acabou de se formar, sua experiência tratando cavalos não se compara à dos outros candidatos aqui presentes, muito menos à do professor Roberto.
— Além disso, quando todos chegaram, estavam examinando as lesões do Bala de Prata, só você ficou de conversa com o cavalo feito um tolo, sem sequer olhar para o ferimento. Agora diz que sabe a causa do problema, acha que somos ingênuos a ponto de acreditar em qualquer coisa?
Quando Fábio revelou que tinha descoberto a causa da enfermidade do Bala de Prata, todos se surpreenderam, mas foi Tiago Han o primeiro a criticar e zombar abertamente.
Ao ouvir tais palavras, Fábio olhou com desdém para Tiago e disse:
— Tem coragem de apostar? Se eu disser qual é a causa da doença do Bala de Prata, você beija o traseiro dele. Mas se eu não conseguir, eu mesmo faço isso.
Assim que disse isso, Tiago caiu na risada, como se tivesse ouvido uma piada. Não acreditava que Fábio, sem sequer examinar o cavalo, pudesse descobrir a verdadeira causa do problema.
Tiago era esperto demais para aceitar uma aposta sem ter certeza do resultado; em sua opinião, nem mesmo o professor Roberto, após dias de investigação, descobrira o motivo, quanto mais Fábio, um recém-formado, sem experiência prática.
Por isso, respondeu com total segurança:
— Apostado! Quero só desmascarar suas mentiras. Mas desde já aviso: você tem que indicar corretamente a causa, senão não vale. Se inventar qualquer coisa, aí não é justo comigo, não é mesmo?
Em suas palavras, Tiago deixava claro que não daria margem para Fábio sair pela tangente.
— Certo! Se eu errar, admito a derrota e beijo o traseiro do cavalo — concordou Fábio.
— Muito bem! Aceito. Quero só ver você pagar a aposta — zombou Tiago, já se sentindo vitorioso e certo de que Fábio não teria a menor chance.
Ao lado, o Bala de Prata, ouvindo o teor da aposta, relinchou, claramente indignado.
— Fora! Fora! Fora! Humanos tolos, acham que podem beijar meu traseiro assim, sem mais nem menos? Eu gosto é de éguas, não de vocês... Parem com isso, parem já com essa aposta...
O Bala de Prata resmungava e refilava, mas, infelizmente, só Fábio podia entender seus protestos. Sendo ele o responsável pela aposta, seria o último a desistir dela.
Assim, o estábulo se encheu apenas do relincho solitário do Bala de Prata, resistindo em vão. Os demais presentes, surpresos com a aposta inusitada, logo se puseram a observar, ansiosos pelo desenrolar da cena.
O professor Roberto, embora desaprovasse o comportamento do discípulo em apostar diante dele com um recém-formado, nada pôde fazer senão aguardar o desfecho.
— Na verdade, o problema do Bala de Prata não está visível na parte externa da perna traseira esquerda, mas sim em seu interior — declarou Fábio, após breve pausa.
— No interior da perna? — Tiago zombou, rindo alto. — Fábio, não invente! Essa história de dentro e fora... Se não sabe a causa, pare de enrolar e de perder o tempo de todos. É melhor pensar em como vai beijar o traseiro do cavalo!
Para Tiago, Fábio só queria ganhar tempo com enigmas. Contudo, entre os presentes, nem todos eram impulsivos como ele; havia quem ouvisse Fábio com atenção.
O professor Roberto, ao ouvir as palavras de Fábio, pareceu ter um estalo e murmurou, pensativo:
— No interior da perna? Será possível?
— Vejo que o senhor já imagina o que pode ser, professor — disse Fábio em alemão, sorrindo.
— O que eu penso não importa. O importante é que você diga sua hipótese para que eu possa confirmar se coincide com a minha — respondeu Roberto, ajustando os óculos.
— Perfeito! — assentiu Fábio, prosseguindo: — Na realidade, não se trata de uma doença fisiológica, mas sim de um ferimento provocado por ação humana.
— Um ferimento provocado? Fábio, não insista nessas loucuras! Acha mesmo que não perceberíamos se o Bala de Prata tivesse uma ferida? — zombou Tiago novamente.
Suas palavras suscitaram comentários entre os presentes, afinal, ninguém havia notado ferida alguma na perna traseira esquerda do cavalo. Com que base Fábio afirmava que havia algo ali?
Entretanto, desta vez, o professor Roberto, em tom inusitado, repreendeu Tiago:
— Preste atenção ao que o senhor Fábio tem a dizer e não o interrompa.
— Professor, mas...
— Hm?
— ...
Diante da expressão severa do mestre, Tiago calou-se imediatamente, sentindo um incômodo presságio. Sua intuição dizia que, para Roberto dar tal crédito a Fábio, talvez ele estivesse certo. Mas como seria possível, se ninguém havia encontrado qualquer ferimento?
Antes que Tiago pudesse pensar mais, Fábio revelou a resposta:
— Durante meus estudos, li sobre alguns casos, no século passado, quando as corridas de cavalos se tornaram populares. No exterior, houve situações em que, por interesses financeiros, treinadores agiam de má-fé e traíam o espírito esportivo.
— Nesses casos, os treinadores, por meio de intermediários, apostavam grandes quantias na derrota dos próprios cavalos. Para garantir o resultado, recorriam a truques, enganando os donos e sabotando seus animais.
— Os métodos eram variados. Às vezes, faziam o cavalo correr mais devagar, mas isso era fácil de perceber, então passaram a usar técnicas mais sutis e traiçoeiras, quase impossíveis de detectar, para atingir seus objetivos.
— No caso do Bala de Prata, a claudicação foi provocada por um desses métodos discretos: com um bisturi cirúrgico muito preciso, fizeram um pequeno corte subcutâneo, na região do metatarso da perna traseira esquerda, atingindo o tendão.
— Exatamente! — exclamou o professor Roberto, batendo palmas e assentindo. Com a explicação de Fábio, ele já havia percebido o motivo, apenas aguardava a conclusão para confirmar sua própria suspeita.
O conhecimento de Roberto não surpreendia Fábio. Afinal, a fama do professor era bem fundada. O motivo de não terem encontrado o ferimento era simples: essas incisões feitas intencionalmente cicatrizam muito rápido e só podem ser detectadas com equipamentos altamente precisos; a olho nu, é quase impossível.
— Professor? O que significa isso? Quer dizer que... ele acertou? — perguntou Tiago, incrédulo, apontando para Fábio.
Roberto confirmou com seriedade:
— Embora só possamos comprovar usando instrumentos especializados, a explicação de Fábio é, até o momento, a mais plausível para a condição do Bala de Prata.
— Como assim? — balbuciou Tiago, aturdido, incapaz de raciocinar.
— Você é veterinário especializado em cavalos de competição. Fábio deixou tudo claro, não consegue entender? Se, conforme explicou, alguém fez um corte subcutâneo na perna traseira esquerda do Bala de Prata, bem tratado, a ferida externa cicatriza e é invisível ao olho humano.
Roberto continuou, repreendendo:
— Contudo, embora não se veja nada por fora, o bisturi já danificou a musculatura interna da perna do cavalo. Não chega a ser grave, mas provoca, com o tempo, uma claudicação discreta.
— Nos treinos, controlando o esforço, é quase impossível notar. Mas, em competição, onde há exigência máxima em pouco tempo, a claudicação aparece. E, como não se encontra ferida nem outra causa, o mais provável é atribuir a uma lesão por excesso de esforço ou a um leve reumatismo — jamais se suspeitaria da existência de um plano tão sórdido por trás disso.