Pequeno Cinzento
No dia seguinte, Fuzhun não sabia ao certo o que havia acontecido, mas o setor de Recursos Humanos de repente informou que, além de ser responsável pelos cavalos do clube médico, ele também deveria, temporariamente, cuidar dos cavalos do clube. Naturalmente, o clube pagaria um salário adicional pelo novo trabalho. Contudo, isso não era motivo suficiente para Fuzhun concordar em aumentar sua carga de trabalho.
Ao receber a notícia, Fuzhun recusou imediatamente, alegando falta de tempo. Embora tivesse feito o curso de cuidados com cavalos na escola, ele viera ao Clube Equestre do Lago Wenhuai para tratar os animais, não para servi-los. Para sua surpresa, Han Tianlin se ofereceu para falar com o RH, dizendo que havia poucos afazeres médicos e que os outros membros da equipe poderiam ajudar Fuzhun, liberando tempo para que ele auxiliasse nos cuidados dos cavalos, uma vez que o clube estava com falta de pessoal.
Diante dessa intromissão de Han Tianlin, Fuzhun logo suspeitou que ele queria prejudicá-lo por causa de desavenças antigas. Mas, por mais que pensasse nisso, com o cargo que ocupava no clube, não podia se opor. E, se o fizesse, provavelmente teria de deixar o Clube Wenhuai.
No amplo pátio externo dos estábulos, onde era possível lavar os cavalos com a mangueira, Fuzhun trouxe mais um pequeno cavalo cinzento, bufando e resfolegando, e começou a escová-lo com diferentes escovas. A higiene dos cavalos incluía principalmente escovação, banho e tosa do pelo, tarefas essenciais e básicas nos cuidados diários. Durante a escovação, o contato e a pressão das ferramentas sobre o corpo do animal funcionavam como uma massagem nos músculos e tendões, aliviando bastante o cansaço do exercício. Por isso, era necessário escovar o cavalo tanto antes quanto depois do exercício, para ajudar na recuperação da fadiga.
Como ainda não era hora do treinamento agendado pelos instrutores e cavaleiros do clube, aquele era o melhor momento para lavar os cavalos. Após o treino, nem sempre havia tempo para isso, pois alguns cavalos eram usados apenas para aulas dos sócios, e só podiam ser lavados ao final do expediente do clube. Por isso, esse horário era especialmente importante.
No entanto, naquele momento, Fuzhun era o único responsável não oficial pelos cuidados dos cavalos, e a carga de trabalho pesava sobre ele, sendo obrigado a terminar tudo no tempo estipulado. Mesmo assim, não havia a quem recorrer para reclamar.
— Cinzento, fique quietinho e deixe-me escovar você direitinho… — Fuzhun tentava se animar no meio da dificuldade, escovando o pequeno cavalo cinzento e cantarolando uma canção improvisada, sentindo-se até um pouco satisfeito.
Infelizmente, essa sensação durou pouco e foi interrompida pelo relincho prolongado do cavalo cinzento.
— Por favor! Pode parar de cantar? Meus ouvidos doem, meu coração não aguenta tanta melosidade, não dá para ser menos piegas? Tem gente que canta por dinheiro, mas você, se cantar mais, acaba matando a gente! — reclamou o cavalo, dirigindo-se a Fuzhun, que na hora ficou com o semblante fechado.
— O que foi? Será que humanos e cavalos percebem a beleza da música de forma diferente? Ninguém nunca disse que canto mal! Não é, Cinzento? — respondeu Fuzhun.
Ao final, ele ainda arrastou a voz de propósito, querendo mostrar ao atrevido cavalo quem mandava, enchendo-o de melosidade para ver se ele ousava zombar novamente de seu canto.
— Não! A música não tem fronteiras, humanos e cavalos entendem música da mesma forma. Não é diferença de percepção, é que você canta mal mesmo! — replicou o cavalo cinzento.
Diante da provocação, Fuzhun ficou irritado e aumentou a força da escova, fazendo com que o cavalo, que antes apreciava o carinho, sentisse dor e começasse a pedir desculpas.
— Agora aprendeu a temer? Vai continuar me desafiando, Cinzento? — Fuzhun sorriu com uma inocência fingida.
— Chefe! Eu me rendo! Tá bom assim? Prometo que nunca mais vou te desafiar, mas pode pegar mais leve? — pediu o cavalo.
— Cinzento, você sempre foi assim, tagarela e atrevido? Pena que não tem físico para ser campeão, então só serve para os treinos do clube. Se fosse melhor, ia ganhar todos os campeonatos, e aí ninguém te aguentava, provocando todo mundo, humanos e cavalos! — Fuzhun, ao conhecer os cavalos do clube nos últimos dias, logo reparou na língua afiada daquele cavalo, que não poupava os outros com suas provocações.
— Você não entende, chefe! Só quero ajudar os outros cavalos, dando conselhos críticos. Com você também: só critico porque vejo seus defeitos… — respondeu o cavalo cinzento, relinchando.
— Está pedindo mais castigo? Então continue falando! — Fuzhun ameaçou, carrancudo.
O cavalo imediatamente se calou, bufando, e virou a cabeça de lado, lançando um olhar cauteloso com seus grandes olhos, temendo que aquele humano, que entendia a fala dos cavalos, cometesse alguma "atrocidade" sem piedade.
Para falar a verdade, o cavalo até pensou em reagir, acertando Fuzhun com suas patas, mas, instintivamente, não tinha coragem. Estranho! Seria este o poder especial de quem compreende a língua dos cavalos?
Fuzhun também se divertiu com o ar assustado do cavalo, a ponto de, por um instante, quase confundi-lo com uma pessoa.
— Chefe! Posso te pedir uma coisa? — o cavalo aproveitou que Fuzhun não fazia mais nada e criou coragem para falar.
— O que foi? — perguntou Fuzhun.
— Para de me chamar de Cinzento, assim, desse jeito meloso? Me dá arrepios, eu sou um garanhão, não pode me tratar assim!
— Por quê? Você não se chama Cinzento? Só tem dois anos, tão novinho, se não for Cinzentinho, vai ser o quê? Não é, Cinzentinho? — respondeu Fuzhun.
O cavalo virou-se para Fuzhun, com uma expressão de resignação total, sem conseguir dizer mais nada.
Aquela atitude divertiu ainda mais Fuzhun.
Dizem que os cavalos entendem os humanos — talvez haja verdade nisso.
Se Cinzento tivesse mais talento e pudesse competir, certamente seria como Ailina: orgulhoso, mas sem ser detestável. Se fosse assim, os outros cavalos ao redor dele iriam acabar duvidando do sentido da vida… ou melhor, da “vida equina”!
Enquanto Fuzhun pensava nisso, ouviu-se de repente palmas ao seu lado. Em seguida, uma voz familiar ecoou:
— Fuzhun, você realmente leva jeito para isso. Até escovando cavalos consegue se divertir. Acho que devia largar a veterinária e virar tratador de cavalos de vez!