41. O poder dos sonhos
Desta vez, Vitor suspeitava fortemente que o incidente envolvendo Bala de Prata tinha ligação com Samuel. Afinal, tudo parecia coincidir de maneira estranha: o verdadeiro agressor de Bala de Prata, que o havia ferido, retorna ao clube justamente quando alguém lança uma substância desconhecida na água de Bala de Prata.
Embora, pelo horário, Samuel estivesse jantando com Marcos quando Bala de Prata foi sabotado, nada garantia que ele não pudesse ter mandado alguém fazer o serviço. Vitor não acreditava que, após tantos anos trabalhando no Clube Equestre do Lago Wenhua, Samuel tivesse apenas problemas com os colegas, como dizia Gris, que era temperamental e cheio de pequenas manhas. Quem sabe ele não contava com a ajuda de algum amigo que ninguém conhecia?
Marcos, por exemplo, era abertamente próximo de Samuel, um caso notório. O que Vitor não sabia era se Marcos realmente participara do plano contra Bala de Prata. Se ele apenas se despedia do amigo com um jantar, então não havia motivo para preocupação. Mas, caso estivesse envolvido, Vitor sabia que teria de agir com justiça, mesmo que fosse grato e respeitasse Marcos por ter falado a seu favor na entrevista.
Após terminar o jantar e arrumar tudo, Vitor aproveitou o tempo de espera pelo resultado dos exames para refletir, sentado em seu escritório, sobre o papel de Marcos naquela história. Quanto mais pensava, mais percebia a profundidade dos segredos do Clube Equestre do Lago Wenhua. Talvez esse fosse o mal de toda grande empresa com longa história.
Por sorte, desta vez Vitor teve a iniciativa de realizar ele mesmo o exame. Assim, caso Marcos realmente estivesse envolvido, seria difícil que ele descobrisse o que estava sendo analisado ou tentasse encobrir o crime sob o olhar atento de Vitor. E mesmo se soubesse, não conseguiria remediar o ocorrido.
O tempo passou lentamente, até que, já na madrugada, Vitor bocejou longo e profundo, sentindo o cansaço pesando sobre os olhos. Logo, adormeceu sobre a mesa do escritório.
Como não era de se surpreender, Vitor encontrou Bala de Prata em seu sonho. Mas, desta vez, por causa do recente ataque, Vitor já não acreditava estar apenas sonhando.
— Que estranho! Por que estou sonhando com você de novo, seu chato! — Bala de Prata, ao ver Vitor, o homem que o tratava e também o atormentava, não parecia nada contente.
— Repita isso e eu não te trato mais! Se jogarem algo na água de novo, vou fingir que não sei de nada e não vou ouvir seus pedidos de socorro no sonho — retrucou Vitor, deixando Bala de Prata sem palavras.
— O quê? Então, aquele sonho em que te chamei por socorro foi real? — Bala de Prata parecia não acreditar.
— Óbvio! Se não fosse por ouvir seu pedido de socorro no sonho, acha que eu teria acordado assustado e ido te ver no meio da noite?
— Então, por que não me avisou quando trocou a água à noite? Achei que o sonho era falso, que você aparecera por acaso no meu estábulo.
— Como seria acaso? Mal te conheço, acha que sou quem para visitar você de madrugada? E com tanta gente no estábulo, como eu ia conversar com você na frente deles? Cavalo bobo!
— Bobo é você!
— Humanos são mais inteligentes, te domamos há milênios, então é claro que você é o bobo!
— ...
Em termos de sarcasmo, Bala de Prata não era páreo para Vitor, ainda mais quando Vitor evocava a “arma secreta” de que a humanidade domou os cavalos por milhares de anos. Seria estranho se Bala de Prata conseguisse vencer essa discussão.
Essa conversa também fez Vitor compreender que sonhar com Bala de Prata não era coincidência. Antes, ele pensava que, por tratar Bala de Prata, preocupava-se com sua saúde e acabava sonhando com ele pedindo socorro. Agora, percebia que não era acaso: ele realmente podia sonhar com o cavalo e dialogar com ele no sonho. Talvez fosse uma habilidade mais avançada de um “falador de cavalos”.
No entanto, Vitor não entendia como humanos e cavalos conseguiam conectar sonhos. Será que, ao ser atropelado, não apenas seu nervo auditivo fora afetado, mas outros nervos também se sincronizaram com os do cavalo?
Essas questões pareciam além do alcance da ciência. Vitor pensou que, já que era assim, aceitaria o que viesse, vivendo um dia de cada vez. Afinal, até então, não percebera nenhum mal nas suas novas habilidades.
Quanto ao que mais poderia acontecer nos sonhos, ele teria de explorar por si mesmo.
— Ei! Você sente desconforto no corpo durante o sonho? — Vitor, sempre atento ao sonho, estranhou ver Bala de Prata de pé e perguntou curioso.
— Já estou dormindo, como sentiria algo? No sonho é ótimo, parece que não tenho doença nenhuma, posso correr livremente. Mas na realidade não consigo, sinto o corpo em fogo, a perna esquerda dói tanto que nem consigo ficar em pé.
— Hum... — Vitor assentiu. Ao ouvir isso, achou que a habilidade era inútil. Sonhar e conversar com o cavalo era igual a falar com ele acordado. Qual a diferença?
Que habilidade mais sem graça, sem manual de instruções, sem dizer para que servia... Era só para sonhar e conversar com cavalos?
Por favor, ainda sou solteiro! Se ao menos sonhasse com uma garota, poderia viver um sonho romântico. Sonhar com cavalo, para quê?
Usar o sonho como cavalo, quanto mais monta, mais tolo fica?
Vitor reclamava mentalmente, mas não era do tipo que só se queixa sem agir. Se fosse apenas para conversar com Bala de Prata, ele acabaria deixando o cavalo maluco, incapaz de se cuidar.
A humanidade domou cavalos por um motivo, não só fisicamente, mas também psicologicamente. Afinal, cavalos são amigos fiéis, e até o mais orgulhoso é domado pelo humano certo — essa é uma regra, impossível de mudar.
O sonho era todo em tons desbotados, com o corpo castanho-avermelhado de Bala de Prata como única cor viva, nada mais. Isso decepcionou Vitor, atento aos detalhes. Será que era só para conversar?
Quando já se sentia frustrado, de repente, Vitor percebeu algo estranho: na cabeça de Bala de Prata, sob a pele castanho-avermelhada, parecia haver uma massa negra em movimento. Olhando melhor, todo o corpo exibia pequenos pontos negros invisíveis.
Ao mesmo tempo, da região do estômago de Bala de Prata, algo vermelho circulava pelo corpo, envolvia os pontos negros, que diminuíam visivelmente ao entrar em contato com o vermelho.
Quem não prestasse atenção, jamais perceberia a proximidade entre os pontos vermelhos e negros com a cor da pele de Bala de Prata.
Espera aí... Isso parecia ter algum sentido.
Num instante, Vitor sentiu que estava prestes a descobrir algo.