64. Praticando nos Sonhos
À medida que Metalurgia obedientemente levantou as patas, Fu Jun sorriu e segurou sua perna, examinando cuidadosamente o casco. Como ele previra, porque antes de dormir ficara pensando em como o casco era antes de Metalurgia trocar a ferradura, o casco não estava como Robert o tinha aparado e ajustado. Assim, Fu Jun podia aparar o casco no sonho sem problemas.
Quanto à ferradura nos cascos de Metalurgia, Fu Jun a havia removido propositalmente de sua consciência antes de adormecer. Afinal, ele não era um ferreiro, só queria praticar o corte do casco, não havia necessidade de uma ferradura.
Felizmente, o sonho eliminou a ferradura muito bem. A única coisa não tão boa era que o resultado final do casco diferia um pouco do que Fu Jun lembrava, pois tudo no sonho era fruto do subconsciente dele, sendo apenas um reflexo do que ele já vira na vida real.
A memória, porém, pode ser rasa ou profunda. Mesmo objetos vistos todos os dias, como uma caneta, uma cama ou uma xícara, nem sempre são reproduzidos fielmente na mente. Contudo, isso não importava muito. Para Fu Jun, contanto que não transformasse Metalurgia num tigre ou leão, estava tudo bem — ele só queria acumular experiência em aparar cascos durante o sonho.
Para ele, era possível que acontecimentos em sonhos fossem tão reais quanto na vida. Embora os objetos fossem frutos do subconsciente e Fu Jun fosse o senhor daquele universo onírico, bastava não controlar conscientemente cada detalhe para que as coisas evoluíssem de forma natural, como no mundo real.
Por exemplo, Metalurgia no sonho só comeria capim, a não ser que Fu Jun quisesse que ela comesse carne; se se ferisse, sangraria como na vida real, a não ser que Fu Jun decidisse o contrário. E assim por diante.
Foi por essas mudanças naturais que Fu Jun se atreveu a praticar o corte de cascos no sonho. Em teoria, se não manipulasse o subconsciente, o corte do casco e as mudanças na queratina deveriam ser fiéis à realidade.
Talvez, na aparência, os objetos do sonho não fossem idênticos aos reais, mas isso não era um problema, pois tudo o que Fu Jun queria era aprimorar a técnica do corte.
Desde que, ao cortar, o desgaste da queratina fosse igual ao do mundo real, o resto não importava para Fu Jun.
Enquanto Fu Jun, com aquele rosto nada bonito, examinava cuidadosamente o casco, Metalurgia sentia crescer o ódio em seu peito, desejando poder dar-lhe um belo coice para aliviar sua raiva.
Infelizmente, o sonho era comandado por Fu Jun, e Metalurgia, por mais que quisesse, não podia fazer nada. Seu corpo simplesmente não lhe obedecia.
No sonho, Metalurgia logo percebeu que não podia atacar Fu Jun. Mesmo que pudesse, Fu Jun não sentiria dor ou ferimento, afinal, aquele universo era apenas uma ilusão, não a realidade.
“Daqui a pouco vou aparar seu casco, então fique quieta e não se mexa”, ordenou Fu Jun, decidido.
Assim que terminou de falar, lembrou-se de algo e acrescentou: “Embora, pensando bem, faz diferença? Neste sonho, você só pode ficar parada. Não importa o quanto grite, ninguém virá ajudá-la!”
Metalurgia ficou sem palavras e, depois de muito esforço, só conseguiu resmungar baixinho: “Covarde desprezível!”
Fu Jun pegou sua bolsa de ferramentas, tirou a faca de aparar cascos e viu Metalurgia posicionar-se de maneira desajeitada, estendendo o casco para que ele cortasse como quisesse.
“Você tem mesmo técnica? Está cortando pior do que se um cachorro tivesse mastigado aqui!”, zombou Metalurgia, ao ver Fu Jun aparar desajeitadamente.
“Repita isso! Se continuar, faço você perder a voz neste mundo!” Fu Jun gritou, irritado com a provocação.
O sonho ficou mais silencioso de repente, e Metalurgia fechou a boca, sem ousar dizer mais nada.
Não tinha escolha. No sonho de uma pessoa, até um cavalo tem que baixar a cabeça…
Na verdade, Fu Jun não queria ameaçá-la, mas Metalurgia estava sendo insuportável, e ele precisou usar seu último recurso.
Afinal, aparar cascos exige concentração extrema; qualquer distração pode comprometer o resultado. Mesmo que estivesse indo mal, Fu Jun sabia que não podia se deixar perturbar.
Se Metalurgia ficaria ressentida por isso, Fu Jun não se importava. No sonho, ele podia eliminá-la num instante; na vida real, se ela aprontasse, ele não hesitaria em usar seus conhecimentos de veterinário para dar-lhe uma lição.
No fim das contas, cavalos domesticados, como cães, são amigos fiéis dos humanos; a menos que enlouqueçam, jamais atacariam seus donos ou pessoas conhecidas.
“Levante a outra pata!” Após fracassar na primeira tentativa, Fu Jun analisou os motivos do erro e ordenou que Metalurgia lhe desse o outro casco.
Obediente, Metalurgia estendeu a outra pata, permitindo que Fu Jun continuasse.
Desta vez, por causa da bronca anterior, Metalurgia não ousou interromper, limitando-se a encarar Fu Jun com olhos arregalados enquanto ele trabalhava.
Na tentativa anterior, Fu Jun, seguindo os passos do corte, concluiu que havia sido apressado e aplicado força demais, desgastando excessivamente o casco em alguns pontos. Isso fez com que, ao lixar, certas áreas se danificassem facilmente.
Assim, dessa vez, redobrou a atenção para não aplicar força em excesso, e seguiu cuidadosamente os passos corretos.
Apesar do cuidado, a falta de experiência logo ficou evidente: Fu Jun esqueceu de manter a curvatura adequada na sola do casco, essencial para colocar a ferradura depois.
De fato, aparar cascos é uma técnica complexa, que exige vasta experiência para formar um veterinário competente.