34. Medir a temperatura corporal
Assim como ocorre com os humanos acometidos de gripe, cuja temperatura corporal aumenta significativamente, o mesmo se dá com os cavalos quando contraem essa enfermidade, sobretudo em casos agudos. Essa elevação marcante da temperatura, que não cede em curto prazo, é chamada de febre contínua, um termo que designa o período no qual, após o ajuste do novo ponto de referência térmico, o corpo permanece sob regulação em níveis elevados — também conhecido como período de pico ou de manutenção da febre.
A febre contínua costuma ser o primeiro e mais característico sinal da gripe equina. De modo geral, manifesta-se quando a temperatura do cavalo ultrapassa os 39,5 graus, mantendo-se dentro de um padrão febril estável, ou seja, com variação inferior a um grau ao longo das 24 horas do dia.
Por essa razão, após o início do estado febril no Trovão de Aço, era necessário aferir sua temperatura a cada hora, monitorando as oscilações, e essa era justamente a tarefa de Fu Jun no momento: verificar se havia tendência de queda, o que seria um indicativo de melhora do quadro gripal agudo.
A medição de temperatura em cavalos é feita por via retal, utilizando-se termômetros veterinários. Existem termômetros de vidro e eletrônicos; os primeiros, de mercúrio, assemelham-se aos usados em humanos, com a diferença de possuírem uma pequena saliência na extremidade. Essa protuberância serve para amarrar um fio ou barbante, que permanece fora do ânus do animal durante a medição, evitando que o termômetro seja sugado e fique retido.
Já os eletrônicos utilizam sondas térmicas e exibem o valor da temperatura diretamente em algarismos digitais.
Como o mercúrio proporciona maior precisão nos resultados, Fu Jun sempre optava por esse tipo de termômetro. Primeiro, sacudia a coluna de mercúrio até os 37 graus, depois desinfetava o instrumento com algodão embebido em álcool e, em seguida, espalhava um pouco de vaselina para facilitar a introdução.
— Trovão de Aço, vai ter que aguentar firme! — disse ele.
Ora, se o cavalo não colaborasse, Fu Jun deixaria de medir sua temperatura? Impossível! De qualquer forma, dito isso, ele logo colocou a ideia em prática.
O termômetro sumiu quase todo, visível apenas a olhos radiográficos.
Em questão de instantes, a flor do campo se despedaçava, espalhando dor pelo chão; o sorriso do cavalo tornava-se pálido, como se o próprio outono lhe partisse o coração...
— Ora, é só medir sua temperatura, precisa desse drama todo? Saiba que é para o seu bem. Imagine que está apenas com o intestino preso, nada mais! — brincou Fu Jun, ao notar o semblante desanimado de Trovão de Aço enquanto esperava a leitura.
— Não é você quem está passando por isso, consegue imaginar minha dor? Se acha fácil, por que não experimenta medir a própria temperatura assim? — relinchou o cavalo em resposta.
Diante daquela provocação, Fu Jun silenciou. Ao lembrar-se de inserir o termômetro em Trovão de Aço, sentiu-se desconfortável dos pés à cabeça.
— Pelo visto, seu ânimo está ótimo e o raciocínio rápido, então fico mais tranquilo. Parece que não é nada grave — sorriu, mudando de assunto para evitar discussões sobre os métodos de aferição de temperatura.
— Bah! Não tem coragem, assume logo! — retrucou o cavalo.
Trovão de Aço quis revirar os olhos para Fu Jun, mas, devido à conjuntivite e ao lacrimejamento causados pela gripe aguda, o olhar, inchado e úmido, tornava-se assustador. Fu Jun, sem graça com as palavras do cavalo, fingiu não ouvir.
Ao consultar o relógio, viu que já se passavam cinco minutos — tempo suficiente para a medição; normalmente, três minutos bastam, mas, buscando dados mais precisos antes do tratamento, ele aguardou um pouco mais.
Sob o olhar ressentido de Trovão de Aço, Fu Jun retirou cuidadosamente o termômetro, que vinha agora coberto de fragmentos endurecidos de fezes amarelas. Não era nojo o que o incomodava — afinal, na época de estudante, durante o treinamento em cuidados equinos, já estava acostumado a lidar com excrementos. O que realmente lhe causava estranhamento era a textura e dureza anormais das fezes do animal.
Retirando um lenço de papel descartável, Fu Jun limpou o termômetro com seriedade. Se não demonstrava emoção diante das fezes, era apenas por controle; no fundo, não era nenhum besouro para se alegrar diante de tal coisa.
Depois de tudo limpo, ele observou atentamente o mercúrio: 40,2 graus.
A temperatura dos cavalos, que se refere ao interior torácico, abdominal e ao sistema nervoso central, tende a ser estável pois são animais homeotérmicos. Em condições normais, é mais alta que a dos humanos, situando-se em torno de 38 graus na medição retal.
O valor de Trovão de Aço não era excessivo, mas também não era baixo, indicando que a gripe aguda ainda estava sob controle.
Após desinfetar o termômetro com álcool, Fu Jun o guardou na caixa de instrumentos e anotou o valor no prontuário.
Pelos registros do dia, via-se que a temperatura de Trovão de Aço, que chegara a 42 graus, estava em queda, ainda que lentamente. Isso era esperado: a febre contínua geralmente dura de um a dois dias, raramente mais de quatro ou cinco, quase nunca ultrapassando uma semana, para então ceder gradativamente ao normal.
No entanto, caso a febre volte a subir após retornar ao normal, trata-se de infecção bacteriana secundária, o que pode ser perigoso.
Preocupado com as fezes do cavalo, Fu Jun foi até o monte de excremento deixado no estábulo para confirmar suas suspeitas. Como havia imaginado, as fezes estavam em blocos secos e duros. Para testar, pegou uma vassoura e bateu nas fezes recém-eliminadas, constatando a dificuldade em desmanchá-las.
Portanto, apesar da queda de temperatura, a gripe ainda era agressiva, não bastando apenas reduzir a febre para curar o animal.
Em condições normais, as fezes de um cavalo saudável são amarelas ou verdes, dependendo da alimentação. Se o principal é feno seco, as fezes são amarelas; se for pasto verde, são esverdeadas.
Na Escola de Equitação do Lago Wenhuai, onde o feno importado do noroeste era a base, as fezes amarelas de Trovão de Aço indicavam boa digestão, porém a dureza e o formato seco denunciavam um desvio preocupante.
O esperado é que as fezes sejam bolinhas úmidas, nem duras nem moles, que se desfaçam parcialmente ao tocar o solo, retendo cerca de 75% de umidade.
No caso de Trovão de Aço, a febre alta e a ingestão insuficiente de água provocavam desidratação e endurecimento das fezes, tornando-as compactas e difíceis de fragmentar.
Diante desses sintomas, mesmo sem o protocolo do doutor Roberto, Fu Jun insistiria que o cavalo realizasse tarefas que não gostaria.
Do lado de fora do estábulo, Fu Jun trouxe um enorme balde de água e um borrifador de gelo, desses usados por pessoas para o alívio da febre — mas em tamanho extra grande.
— Vamos lá! Não me importa o quanto esteja se sentindo mal, você vai beber este balde de água agora. Caso contrário, mando o Cinzento contar a todos os cavalos do clube a história do seu termômetro! — ameaçou, fingindo severidade.