Parece haver algo de errado.
O projeto do estábulo no Lago Wenhuai era, para dizer a verdade, bem pragmático: assim como acontece com pessoas, quem tem dinheiro mora em uma mansão; quem não tem, se vira em um porão de apartamento alugado, e se não der mesmo, acaba encolhido embaixo de uma escada ou num esgoto qualquer — sempre existe algum canto onde se possa dormir.
No Lago Wenhuai, cavalos de corrida valiosos, como o Projétil de Liga, podiam ter um estábulo só para si; ali dentro, dormiam como bem entendessem. Já os cavalos de menor valor não tinham essa sorte e precisavam dividir o espaço com outros, em estábulos coletivos para quatro ou seis animais, reduzindo muito o espaço individual de cada um.
Além disso, os estábulos individuais eram cercados de espaço aberto, como vilas com jardim. Já os estábulos coletivos eram construídos como pequenos condomínios: lá dentro, quem não conhecesse o caminho poderia facilmente se perder nas voltas e corredores.
O motivo de Li Chao ter ido até ali era óbvio: queria encontrar um canto tranquilo nesse labirinto de estábulos coletivos para retornar uma ligação. Aquela chamada era de Sun Wei, e Li Chao não ousava demorar a responder depois de ter desligado. Por isso, só lhe restava ir até os estábulos coletivos para retornar o contato.
Chegando ao centro da área coletiva, certificou-se de que não havia ninguém por perto, nem mesmo tratadores trabalhando. Entrou então em um dos estábulos centrais, tirou o telefone do bolso e ligou de volta para Sun Wei.
— Alô! Irmão Sun! — cumprimentou, com toda a familiaridade, assim que a ligação foi atendida.
A sua postura agora era completamente diferente da imparcialidade que exibia ao lidar com Fu Jun.
— Li Chao, você demorou para retornar desta vez! Não vai me dizer que quer mesmo cortar contato comigo, né? — do outro lado, Sun Wei falava com um tom ameaçador.
— Ora, irmão Sun, está brincando! Já passamos por tanta coisa juntos, como é que eu ia simplesmente romper assim? — Li Chao apressou-se em negar, intimidado pela ameaça.
— Assim é que se fala. Olha, mesmo eu não estando mais no Lago Wenhuai, se eu resolver abrir a boca sobre o que já fizemos, veja só se você não sai prejudicado.
— Entendido! Entendido! Irmão Sun, eu compreendo tudo o que você diz. Por isso mesmo, quando me pediu para investigar o estado do Projétil de Liga, não perdi tempo e fiz de tudo para descobrir.
— Assim está melhor, vejo que é esperto. Agora diga: o que conseguiu apurar? — satisfeito, Sun Wei deixou de lado o tom ameaçador e se concentrou nas informações.
— Não cheguei a ver o Projétil de Liga, mas acho que ele ainda não se recuperou. — Pressionado sobre detalhes, Li Chao hesitou ao responder.
Ao ouvir isso, Sun Wei franziu a testa do outro lado da linha:
— Afinal, ele se recuperou ou não? Li Chao, não tente me enrolar achando que pode me enganar. Te digo logo: quero a verdade, porque se errarmos, estamos todos perdidos. Pense bem antes de responder.
Conhecendo o jeito falso de Li Chao, Sun Wei endureceu na hora; sabia que, sem pressão, dificilmente ouviria uma palavra sincera.
E, de fato, ao ouvir a advertência, Li Chao mudou de atitude:
— Eu cheguei até o estábulo do Projétil de Liga, mas não consegui entrar. Apenas ouvi os relinchos dele e me pareceram estranhos.
— Como assim? O que quer dizer com relinchos estranhos? — Sun Wei insistiu.
— Isso mesmo! Parecia assustador, nada como um cavalo normal — explicou Li Chao.
— Quero que me conte, detalhe por detalhe, o que aconteceu! — ordenou Sun Wei.
— Está bem! — respondeu Li Chao, e contou como tinha tentado, por meio de Fu Jun, investigar a saúde do Projétil de Liga, e como, quando estava prestes a conseguir, acabou frustrado pela intervenção de Fu Jun.
Ao ouvir o relato, Sun Wei praguejou mentalmente contra Li Chao, achando-o incapaz, por ter sido barrado por um veterinário novo no clube, ainda por cima um novato.
Quanto à suspeita de Li Chao sobre os relinchos assustadores indicarem doença no Projétil de Liga, Sun Wei não concordava. Afinal, mesmo um animal saudável pode se assustar com algo desconhecido; isso não é sinal de enfermidade necessariamente.
Sun Wei sabia que Li Chao era apenas um segurança, sem qualquer formação sobre cavalos, quanto mais a capacidade de avaliar a saúde de um animal apenas pelo som de seu relincho.
Na verdade, esse tipo de avaliação — julgar a saúde de um cavalo apenas pelo relincho — é difícil até mesmo para especialistas. O máximo que alguém no nível de Li Chao conseguiria era observar o animal de perto; caso contrário, dificilmente saberia dizer se estava tudo normal ou não.
Pensando nisso, Sun Wei decidiu marcar um encontro com Li Chao. O prazo dado pelo chefe de Zhang Biao era depois de amanhã; mesmo se conseguisse ganhar mais alguns dias, não seria muito. O tempo era curto.
Diante da urgência, Sun Wei sabia que precisavam descobrir logo a situação do Projétil de Liga e passar a informação adiante. Caso contrário, com o poder do outro lado, bastaria inventarem um motivo para prejudicá-lo — e, em sua situação financeira, ele estaria perdido. Por isso, precisava encontrar Li Chao pessoalmente para discutir como investigar a doença do cavalo.
Após marcarem o encontro, Li Chao desligou rapidamente o telefone. Nem chegou a guardar o aparelho no bolso; antes, olhou ao redor, atento, para checar se havia alguém por perto.
Li Chao sabia muito bem que, se alguém tivesse ouvido a conversa com Sun Wei, seria um desastre para ele. Por isso, temia que o conteúdo do telefonema fosse descoberto.
No estábulo, além dos quatro cavalos que comiam e bebiam, não havia mais ninguém. Só então Li Chao respirou aliviado.
Pensou consigo mesmo que, exceto pelas quatro criaturas que não falavam a língua dos homens, ninguém mais teria conhecimento do que acabara de acontecer. Aquilo, só o céu, a terra, ele, Sun Wei e os quatro cavalos sabiam — seguro como nunca!
Ciente disso, Li Chao relaxou, guardou finalmente o celular no bolso, mas, antes que pudesse respirar por alguns segundos, um forte resfolegar de cavalo soou atrás dele, fazendo-o pular de susto.
Ao virar-se, deu de cara com um cavalo cinza que, ainda resfolegando, o fitava fixamente, como se quisesse enxergar sua alma, deixando Li Chao desconcertado.
O olhar do animal, por um instante, deu a Li Chao a sensação de que seria morto ali mesmo, provocando-lhe um medo genuíno.
— Maldito cavalo! Trata de comer tua grama e não venha se meter comigo! — percebendo que fora o cavalo cinza que o assustara, Li Chao explodiu em insultos.
O cavalo, por sua vez, não se deixou intimidar. Relinchou alto em resposta, como se protestasse.