Vocês são vocês mesmos.
Após inúmeros pedidos e expectativas, três dias se passaram. Em meio à ansiedade geral, o Projétil de Liga finalmente retornou ao Clube de Wenhuaíhu. A equipe médica do clube, já avisada da chegada, foi reunida por Roberto no primeiro momento, aguardando ansiosamente o Projétil de Liga.
Apoiado por Zhou Ruhai, Tang Zhenshan desceu do Mercedes-Benz preto com a ajuda de uma bengala. Logo avistaram Roberto, posicionado à frente da equipe médica.
“Professor Roberto, peço-lhe encarecidamente, cuide da saúde do Projétil de Liga. Ele é a esperança do clube”, disse Tang Zhenshan, aproximando-se apressadamente e dirigindo-se a Roberto em inglês fluente.
“Fique tranquilo, senhor Tang. É meu trabalho e cumprirei com excelência”, respondeu Roberto, igualmente em inglês, com a seriedade que sempre demonstrava e seu habitual espírito de compromisso.
Tang Zhenshan, oriundo de família abastada, estudara na Inglaterra em sua juventude, o que lhe conferia fluência no idioma. Já Roberto, embora alemão, também dominava perfeitamente o inglês devido à necessidade de comunicação acadêmica.
Aliás, a decisão ousada de investir tudo em um clube de hipismo teve raízes na experiência de Tang Zhenshan durante seus anos de estudo na Inglaterra. Sua paixão pelos cavalos, porém, nasceu do contato com a antiga cultura equestre do vale do Huai.
Shanyang, embora oficialmente ao sul, situava-se no vale do Huai, muito próximo da província de Lu. Sua geografia, nem do sul nem do norte, favorecia a criação de cavalos. Mas, como se sabia, os cavalos do sul nunca rivalizaram com os do norte, e essa tradição foi gradualmente desaparecendo.
Há milênios, a região do Huai possuía uma rica cultura equestre, e os cavalos ali criados eram aliados indispensáveis aos habitantes dos antigos povoados. Com o tempo, porém, os cavalos do norte se mostraram superiores, e, por razões políticas e históricas, a tradição de criação de cavalos no vale do Huai foi minguando. Só nas dinastias Song e Ming, devido à escassez de cavalos, a criação foi brevemente revitalizada por políticas estatais, mas logo voltou a declinar.
Ainda assim, por tradição, até a fundação da Nova China, algumas famílias do vale do Huai criavam cavalos de geração em geração. Foi assim que o jovem Tang Zhenshan, por acaso, teve contato com os cavalos e desenvolveu profunda paixão por eles.
Quando foi estudar na Inglaterra, Tang Zhenshan mergulhou no universo das corridas equestres britânicas, apaixonando-se ainda mais pelos cavalos.
Após se formar, retornou ao país e, aproveitando a onda de reformas e abertura, acumulou considerável fortuna como empreendedor.
Apesar do sucesso, nunca esqueceu sua paixão equestre e se associou aos primeiros clubes de hipismo do país, dedicando seus momentos livres à equitação.
Naquela época, porém, os clubes de hipismo eram apenas clubes no nome; em essência, pouco se distinguiam de haras comuns. O ambiente era desorganizado, e qualquer trabalhador com experiência em criação ou montaria era rapidamente promovido a veterinário ou treinador, comprometendo a qualidade da equipe.
Os clubes frequentados por Tang Zhenshan eram assim. E o que o fazia suportar aquele ambiente era, simplesmente, a possibilidade de continuar montando, mesmo que os cavalos, equipamentos e profissionais não se comparassem aos padrões ingleses.
Previsivelmente, todos os clubes nos quais se associou acabaram falindo, vítimas da falta de profissionalização e de receitas insuficientes.
Como muitos outros empreendedores da geração da reforma, influenciados pelo novo espírito nacionalista e pelo desejo de retribuir ao país, Tang Zhenshan tomou uma decisão ousada: vendeu todo o seu patrimônio e apostou tudo na fundação de seu próprio clube de hipismo.
Os primeiros anos foram difíceis, mas ele perseverou. Hoje, o Clube Equestre Wenhuaíhu, situado em Shanyang, é reconhecido nacionalmente.
Enquanto Tang Zhenshan conversava com Roberto, Zhou Ruhai, atento à recente discussão envolvendo Ma Kun, observava instintivamente o próprio Ma Kun.
Ao examinar a equipe médica do clube, Zhou Ruhai de repente avistou Fu Jun, o jovem que, na competição equestre de Shanyang, os alertara sobre a lesão do Projétil de Liga.
Imediatamente, Zhou Ruhai arregalou os olhos e exclamou: “É você!”
O grito, alto e abrupto, interrompeu a conversa entre Tang Zhenshan e Roberto, atraindo a atenção de toda a equipe médica para Zhou Ruhai e para Fu Jun, alvo de seu olhar.
“Desculpe, Professor Roberto!”, apressou-se Tang Zhenshan a desculpar-se pela interrupção.
Após Roberto, sem dar muita importância ao ocorrido, sinalizar compreensão, Tang Zhenshan virou-se para Zhou Ruhai e perguntou: “Ruhai, o que aconteceu?”
Do outro lado, mesmo tentando manter a compostura, Roberto também encarou Zhou Ruhai, desejando uma explicação satisfatória. Mesmo que dissesse não se importar, ninguém gosta de ser interrompido dessa forma.
Na verdade, enquanto Tang Zhenshan e Roberto conversavam, não prestaram muita atenção a Zhou Ruhai, que, ao gritar abruptamente, não foi bem compreendido. Caso tivessem entendido suas palavras e notado sua expressão, Tang Zhenshan teria adivinhado facilmente o motivo do comportamento de Ruhai.
“Tang, veja quem está ali!”, disse Zhou Ruhai, apontando para Fu Jun.
Tang Zhenshan, intrigado, seguiu a direção indicada e logo avistou Fu Jun.
Imediatamente, compreendeu o motivo do espanto de Zhou Ruhai. E, assim como ele, exclamou surpreso ao ver Fu Jun: “O que faz aqui?!”
Num instante, todos os olhares se voltaram para Fu Jun. Até Roberto, intrigado, percebeu a agitação dos dois altos funcionários do clube ao reconhecerem o jovem, como se já o conhecessem bem.
Mas, se já o conheciam, por que ele precisou passar por um processo seletivo no clube?
Os chineses não eram conhecidos por favorecerem conhecidos e relações familiares?
Além disso, considerando as competências de Fu Jun, mesmo que tivesse sido recomendado, ninguém contestaria. Por que, então, tanto esforço para formalidades?
Uma enxurrada de dúvidas invadiu a mente de Roberto. Mas, antes que pudesse resolvê-las, a resposta de Fu Jun o deixou ainda mais confuso.
“Senhores... ah, não... Diretor Tang, Gerente Zhou, que surpresa! Não imaginei que eram vocês...”, cumprimentou Fu Jun, um tanto sem jeito, surpreendido pelas identidades dos dois e incapaz de articular-se com clareza diante do súbito choque.