Ninguém virá te salvar.
Após receberem as tarefas designadas por Roberto, Fú Jun e Han Tianlin saíram apressadamente da enfermaria, prontos para tratar de Bala de Prata. Naturalmente, por causa da distribuição das funções, Han Tianlin, com seu temperamento vingativo, quis se vingar de Fú Jun logo após ter sido repreendido por ele. Assim, invocando sua autoridade como assistente veterinário oficial de cavalos, Han Tianlin passou a comandar Fú Jun, o assistente estagiário, para que este cuidasse e tratasse de Bala de Prata, enquanto ele próprio se encarregou da preparação dos medicamentos.
Fú Jun percebeu de imediato as intenções de Han Tianlin: todos sabiam que preparar remédios era uma tarefa simples, enquanto cuidar do cavalo exigia esforço e dedicação. Han Tianlin, claramente, queria empurrar o trabalho pesado para Fú Jun, ficando ele com a parte mais fácil. No entanto, após ter lidado com Han Tianlin algumas vezes, Fú Jun já o conhecia bem e não temia nem seus antecedentes, nem sua experiência. Ele sabia que Roberto era justo em suas decisões e só intercederia por Han Tianlin se este cometesse um erro grave.
Mesmo que Fú Jun desobedecesse a ordem de Han Tianlin, Roberto não o repreenderia, pois o objetivo era que ambos decidissem juntos como se dividir as tarefas. Se houvesse algum desentendimento, ninguém poderia ser culpado. Ainda assim, desta vez, Fú Jun não recusou a oportunidade de assumir o trabalho mais árduo. Preparar medicamentos não tinha grande valor técnico; Han Tianlin que ficasse à vontade com isso. Para Fú Jun, a chance de ganhar experiência direta tratando do cavalo era muito mais valiosa, ainda que cansativa. Se queria ser um bom veterinário, esse era o caminho inevitável.
Se não acumulasse experiência agora, como poderia agir rapidamente quando, em futuras competições, algum cavalo adoecesse? É sabido que a vivência em tratamentos de emergência durante competições profissionais seria fundamental para que Fú Jun futuramente se tornasse um veterinário oficial reconhecido pela Federação Equestre Internacional, podendo até definir seu nível de credenciamento.
Portanto, não desperdiçaria essa chance de aprimoramento. Se Han Tianlin quisesse fugir do serviço, que o fizesse. Provavelmente, Han Tianlin nem se importava com esse tratamento; afinal, como estudante de Roberto, já tinha acompanhado o mestre em diversas competições internacionais, acumulando vasta experiência e, por isso, não dava valor a um cavalo doente em um clube nacional.
Ao chegar ao estábulo, um cheiro forte e desagradável invadiu as narinas de Fú Jun. Mesmo usando uma máscara descartável, ele sentiu-se incomodado. Isso era resultado da desinfecção intensiva feita em todo o clube após o diagnóstico de gripe aguda em Bala de Prata. O objetivo, além de eliminar os germes ao redor do animal, era evitar o contágio aos demais cavalos do clube.
Caso a doença se espalhasse, ainda que a gripe dificilmente levasse cavalos à morte, a impossibilidade de vários animais treinarem comprometeria gravemente o funcionamento do clube, gerando prejuízos incalculáveis. Em humanos, uma gripe mal controlada pode se espalhar rapidamente; com cavalos, o risco é ainda maior.
A chamada gripe equina, causada pelo vírus da influenza equina, é uma doença infecciosa aguda de alta taxa de contágio e baixa mortalidade, sendo classificada pela Organização Mundial de Saúde Animal como enfermidade de categoria B, o que demonstra o perigo que representa. Todo criador deve redobrar a atenção caso algum cavalo seja acometido.
A forma comum da doença já é preocupante; a variante aguda é ainda mais explosiva e rápida. Se não contida, poderia adoecer todos os cavalos do Clube Equestre do Lago Wenhuai em questão de dias. Por isso, assim que diagnosticaram a gripe aguda em Bala de Prata, o clube intensificou as medidas de desinfecção e prevenção.
O desinfetante utilizado nos estábulos era uma solução quente de hidróxido de sódio a 2%. Os funcionários aplicavam essa solução periodicamente em todas as áreas do clube. Sendo assim, mesmo que Fú Jun esperasse no estábulo, seria impossível evitar o odor penetrante do produto.
Ao se aproximar de Bala de Prata, viu o animal prostrado no chão, com a cabeça baixa, esfregando as patas no solo, numa expressão de total desânimo.
— Ora, você está doente, mas precisa ficar nesse estado lamentável? — Fú Jun não conteve o riso diante da cena, lembrando-se do outrora imponente líder do clube.
— Não me incomode, sou um cavalo doente, preciso de descanso, afaste-se! — respondeu Bala de Prata, com olhos brilhantes e relinchando baixinho.
O tom de sua voz demonstrava o enfraquecimento do animal. Ainda assim, mesmo debilitado, Bala de Prata mantinha um ar arrogante, o que irritou Fú Jun. Ele estava ali, suportando o cheiro forte para salvar o cavalo, e este, em vez de agradecer, mostrava-se indiferente.
— Muito bem! Quer que eu vá embora? Pois vou! Quem você pensa que é? Se prefere repousar a ser tratado, pode ficar aí. Não ache que outro veterinário virá ajudá-lo. Sou o responsável pelo seu tratamento e, se eu e a equipe médica omitirmos seu estado, ninguém mais virá; se morrer, ninguém o salvará! — Fú Jun não hesitava em responder à altura. Se Bala de Prata era orgulhoso, ele era ainda mais obstinado, e não iria implorar para tratar de um cavalo doente.
Dito isso, virou-se e fez menção de sair. Nesse instante, Bala de Prata entrou em pânico. Doente como estava, se o veterinário o deixasse, não resistiria sozinho.
— Espere! Não vá! Eu estava só brincando, só você entende o que digo, e sei que suas habilidades são excelentes. Por favor, me trate logo! — disse o cavalo, inclinando a cabeça e suplicando.
— Ora, um cavalo doente e ainda fazendo graça? Parece que não está tão mal assim! — brincou Fú Jun.
— Nada disso! Estou péssimo! — protestou o animal.
— Então, fique quieto, vou começar os exames básicos — disse Fú Jun, retirando o termômetro da maleta para medir a temperatura do cavalo.
Cuidar de cavalos era a verdadeira vocação de Fú Jun; jamais abandonaria Bala de Prata. Além disso, o breve diálogo mostrava que, apesar da doença, o cavalo mantinha o ânimo, o que indicava um quadro não tão grave.
Normalmente, o ideal seria levar Bala de Prata ao campo aberto do clube para medir sua temperatura em ambiente mais calmo. Porém, devido à laminite, o animal não podia andar, restando apenas examiná-lo no próprio estábulo.