O chá ao qual estou acostumado.
A comida foi trazida pelos funcionários em pouco tempo e, em seguida, Fu Jun ficou sozinho no laboratório, comendo devagar. Ele não pretendia sair dali até que os resultados dos exames saíssem naquela noite.
Enquanto ainda comia, percebeu um movimento dentro do laboratório que chamou sua atenção. Esperou um momento e logo viu que era Ma Kun que havia retornado.
“O que faz aqui?” Ma Kun demonstrou surpresa ao vê-lo.
“Havia algumas coisas que precisavam ser analisadas, então vim pessoalmente. Como não te encontrei, fiquei ansioso e comecei os exames sozinho”, respondeu Fu Jun.
“Ah! Será que o Metal de Liga apresentou uma nova secreção?” Ma Kun perguntou automaticamente, sem demonstrar muita dúvida.
Afinal, tanto a gripe aguda quanto a laminite provocam febre alta e inflamação, podendo gerar secreções. Caso essas secreções apresentem alguma anormalidade, é comum veterinários coletarem amostras para análise. Como Ma Kun não sabia os detalhes, fez aquela suposição.
“Sim”, Fu Jun respondeu, assentindo com a cabeça, sem confirmar nem negar explicitamente.
Na verdade, ele pensou em contar a verdade a Ma Kun, mas, considerando que poderia haver alguém adulterando a água do Metal de Liga, achou melhor manter sigilo. Para não alertar o possível envenenador, decidiu que, além de Tang Zhenshan, Tang Yao e os outros que estavam presentes na coleta, o melhor seria não dizer nada aos demais, pois não sabia ainda quem pretendia prejudicar o cavalo. Revelar algo poderia apenas fazer o culpado tomar precauções.
Logo, o aroma forte de álcool tomou conta do laboratório. Assim que sentiu, Fu Jun soube que vinha de Ma Kun. Ao que parecia, Ma Kun havia saído para beber após terminar os exames e só retornara à meia-noite.
“Acabou de voltar de uma bebedeira?” Fu Jun perguntou.
“Sim! Veio um velho amigo, antigo funcionário do clube. Antes de você chegar, ele já havia sido dispensado pelo clube. Hoje, vieram receber a indenização e aproveitou para me visitar. Tomamos uns drinques numa sala reservada do restaurante do hotel, só isso”, explicou Ma Kun.
Contudo, Fu Jun não acreditou muito nessa explicação. Apenas algumas taças de bebida deixariam aquele cheiro tão forte? Será que ele achava que Fu Jun era tão fácil de enganar?
No entanto, Ma Kun era um veterano do Clube Hípico do Lago Wenhuai. Tang Zhenshan demitiu todos os profissionais de saúde, exceto ele, demonstrando sua importância e influência no clube.
Na teoria, todos deveriam se abster de álcool durante o tratamento do Metal de Liga, mas como o clube não impunha regras rígidas, se alguém bebesse e não atrapalhasse o serviço, mesmo a diretoria não repreenderia. O histórico de Ma Kun falava por si só.
Por isso, Fu Jun não quis se envolver. Afinal, Ma Kun tendo bebido não prejudicara nada, não valia a pena criar inimizade com um veterano por tão pouco.
Após explicar-se, Ma Kun entregou o relatório sobre o Metal de Liga: “Não há outras infecções secundárias, nada grave. Veja o relatório.”
“Certo”, respondeu Fu Jun, pegando o documento e fingindo analisar.
Na verdade, já o lera após colher as amostras. Não precisava rever, mas para não levantar suspeitas de que mexera na mesa de Ma Kun, continuou a olhar.
Por sua vez, Ma Kun não parecia se importar. Depois de pegar sua xícara de chá, jogou fora o líquido antigo, lavou o recipiente, colocou folhas frescas de chá do seu estojo e se despediu: “Não vou ficar, estou cansado, vou dormir no hotel.”
“Veio só para trocar as folhas de chá da xícara e levar para o hotel?” Fu Jun estranhou ver a xícara sem água quente.
“Depois de beber gosto de tomar chá, mas não me dou bem com outros tipos. Só gosto do chá caseiro da minha terra, que não há no hotel, então preciso trazer o meu”, Ma Kun respondeu, mostrando a xícara.
“Exigente”, disse Fu Jun, testando: “Esse chá é caro?”
“Não, é comum, só difícil de encontrar. Só me acostumei com o chá que um casal de idosos da minha aldeia faz. Eles produzem pouco, mas o preço é baixo. Como é gostoso, muitos compram, então tenho que pedir a conhecidos que comprem para mim”, explicou Ma Kun.
“Você mesmo vai comprar toda vez?”
“Não, peço para conterrâneos trazerem. Nosso trabalho aqui é até tranquilo, mas há competições, obrigações com o clube; só no Ano Novo consigo voltar para casa por alguns dias. Fora isso, não posso ir quando quero”, respondeu, num tom de resignação.
Fu Jun assentiu, querendo continuar a conversa, mas o telefone de Ma Kun tocou.
Ele olhou o contato e atendeu: “Sun Wei? Acabamos de jantar juntos e já me liga, aconteceu alguma coisa?”
...
Fu Jun não ouviu a conversa do outro lado, mas pelas palavras de Ma Kun, deduziu que o amigo queria saber se ele estava bem após beber, se já estava no hotel descansando.
O que chamou sua atenção, porém, foi o nome: Sun Wei. Então, era esse o amigo que jantara com Ma Kun!
E quem era Sun Wei?
Era o funcionário do clube recentemente demitido, o mesmo que feriu o Metal de Liga com uma faca.
Talvez fosse apenas um homônimo, mas era pouco provável. Alguém próximo de Ma Kun, que já trabalhou no clube, só podia ser ele.
Segundo Hui Hui, Sun Wei e Ma Kun eram muito próximos. Agora, via-se que a amizade era ainda mais profunda: não só se despediam juntos, como Sun Wei ainda telefonava para saber se Ma Kun estava bem. Não era uma atitude típica de amigos comuns.
De repente, Fu Jun ficou ainda mais atento a Ma Kun. Queria perguntar algo, mas não sabia como abordar. Era tudo muito repentino.
Lembrou-se que Ma Kun dissera ter jantado no restaurante do clube, ou seja, Sun Wei estivera lá naquele dia.
E, pelo horário, Sun Wei teria tido tempo suficiente para envenenar o Metal de Liga, tornando-se um suspeito importante.
Após a saída de Ma Kun, Fu Jun permaneceu pensativo. Sabendo que Sun Wei fora o responsável por ferir a pata traseira esquerda do cavalo e, agora, estando tão próximo de Ma Kun, sentia-se desconfortável, sem saber se Ma Kun teria algum envolvimento.