Mais cedo ou mais tarde, você acabará passando a vida inteira com um cavalo!
— Veja só como você se acha! Mesmo que tenha adivinhado corretamente as intenções do outro, você sabe quem ele é? Se não descobrir a identidade dele, pode gritar aos quatro ventos que não adianta nada — disse Tang Yao, ao ver Jun Fu tão confiante, provocando-o de propósito. Era evidente que ela não acreditava que ele pudesse descobrir quem estava por trás de tudo.
— É verdade, agora o sujeito não deixa pista de seus passos, parece mesmo que se esconde nas sombras. Também não sei exatamente quem está por trás disso, mas acho que, com uma pequena estratégia, ainda há chance de forçá-los a cometer um deslize e desenterrar quem está escondido — respondeu Jun Fu, certo da vitória.
— Que estratégia seria essa? — perguntou Tang Yao, curiosa.
— O velho sábio tem sempre um truque na manga! Por ora, não posso dizer, de jeito nenhum! Se contar, perde o efeito!
A pose tranquila e cheia de mistério de Jun Fu, balançando a cabeça e com ar superior, fez Tang Yao ranger os dentes de raiva; tinha vontade de pegar uma sola de sapato e dar umas boas palmadas naquela cara de mula.
— Ora, estamos só nós dois aqui, que diferença faz? Ou será que você nem pensou em nada e está só me enrolando? — retrucou Tang Yao.
— Acredite se quiser! — respondeu Jun Fu, sem perder tempo com maiores explicações.
Diante da indiferença de Jun Fu, Tang Yao ficou furiosa, pronta para lhe dar uma lição ali mesmo. Mas, por mais que quisesse, não havia como descontar nele, e também estava ansiosa para saber qual seria o método de Jun Fu para encontrar o responsável pelo ataque ao Bala de Prata. Restou-lhe, então, engolir o orgulho e pensar em outra forma de conseguir o que queria.
Movida pela curiosidade, Tang Yao disfarçou um tom de doçura e pediu, fazendo charme:
— Doutor Fu, conta para mim, vai! Estou louca para saber! Não seja tão mesquinho, por favor!
Ao ouvir aquele tom meloso, Jun Fu sentiu um arrepio na espinha, com a pele toda eriçada. Mal podia acreditar que aquela mulher tinha esse lado; ainda bem que ele era um jovem íntegro, criado nos valores socialistas, e não cairia nas artimanhas de uma mulher com segundas intenções...
— Já disse que não posso contar agora, então não insista! Quero dormir mais um pouco e, depois, contar o resultado ao Senhor Tang. Não vou ficar aqui com você! — cortou Jun Fu, recusando-se a revelar qualquer informação.
Na frente de Tang Yao, pegou o laudo e, ali mesmo no laboratório, redigiu um relatório simples. Durante todo o processo, ignorou completamente a presença dela, o que só fez aumentar a raiva de Tang Yao.
— Jun Fu, você está destinado a passar a vida junto com cavalos! — murmurou ela, sentindo-se totalmente ignorada, antes de sair bufando de raiva.
Para falar a verdade, Tang Yao sentia vontade de chorar. Jun Fu era um verdadeiro insolente; por mais que ela insistisse, ele não cedia, nem por bem, nem por mal. Aquela jovem, acostumada a nunca ser contrariada, não sabia o que fazer, mas a boca era de Jun Fu e, se ele não queria contar, não havia como obrigá-lo.
Claro, a resposta dele foi, mais uma vez, o silêncio. Ele era veterinário de cavalos; se não fosse passar a vida com cavalos, ia viver com quem? Com gente?
Com a saída de Tang Yao, Jun Fu terminou o relatório do exame. Era para o chefe, e seria o primeiro, então caprichou nos detalhes, com dedicação, afinal, queria causar uma boa impressão em Tang Zhenshan.
Quando concluiu, já era madrugada. Por sorte, a encrenqueira não estava por ali e Jun Fu pôde descansar um pouco, dormir até de manhã e, depois, apresentar-se a Tang Zhenshan.
Durante o dia, o principal compromisso era expor sua estratégia para desvendar quem estava por trás dos ataques ao Bala de Prata, esperando assim conquistar rapidamente a confiança de Tang Zhenshan.
Pelos dias que passara no Lago Wenhuai, tanto com as pessoas quanto com os cavalos, Jun Fu percebeu que Tang Zhenshan era alguém que valorizava o talento, independentemente das convenções. Ele acreditava que, se demonstrasse habilidades fora do comum, poderia se livrar de vez do rótulo de assistente estagiário de veterinário.
Ninguém gosta de ser inferior, e Jun Fu não era exceção. Se deixasse de ser estagiário e estivesse no mesmo nível de Han Tianlin, teria menos motivos para se preocupar caso o colega resolvesse provocá-lo.
Jun Fu sabia que fora Sun Wei quem ferira Bala de Prata, e que, justo na ocasião em que o cavalo fora envenenado com sal, Sun Wei voltara ao Lago Wenhuai. Mesmo que Ma Kun afirmasse que Sun Wei viera apenas buscar o pagamento da rescisão, a coincidência era grande demais.
Parecia que, sempre ao aparecer, Sun Wei acabava envolvido em incidentes com Bala de Prata. Era difícil acreditar que não houvesse algo suspeito. Ainda mais considerando que o próprio cavalo, Bala de Prata, contara a Jun Fu sobre o ataque de Sun Wei. Por isso, Jun Fu não tinha como deixar de suspeitar dele.
No entanto, Jun Fu acreditava que havia mais pessoas envolvidas além de Sun Wei. No Clube de Hipismo do Lago Wenhuai, certamente existiam cúmplices. Ma Kun disse que, na hora do jantar, estava com Sun Wei, portanto, teoricamente, Sun Wei não teria tempo para dar o sal ao Bala de Prata.
Além disso, Sun Wei já não era funcionário; entrar à noite no estábulo, onde havia seguranças patrulhando, não era simples.
Mais ainda, Bala de Prata afirmou que quem lhe deu o sal foi um desconhecido. Como conhecia Sun Wei, não poderia ter sido ele. Para Jun Fu, se Sun Wei fosse esperto, teria pedido a algum funcionário em atividade, especialmente alguém da equipe de cuidados ou um dos auxiliares que, ocasionalmente, cuidavam dos cavalos. Essas pessoas entravam e saíam dos estábulos com facilidade, sem levantar suspeitas, desde que houvesse uma boa razão.
Considerando o tempo que Sun Wei passara no clube, era difícil saber quantos aliados ele tinha ali; até mesmo Ma Kun podia ser um deles. Afinal, quando Bala de Prata fora ferido anteriormente, ninguém detectou nada fora do comum, o que já fazia Jun Fu suspeitar de cúmplices.
Para saber se Ma Kun ajudara Sun Wei, bastava investigar no restaurante do hotel. Os funcionários, antigos colegas, certamente saberiam dizer se eles realmente jantaram juntos e por quanto tempo.
Assim, depois de pensar muito, Jun Fu concluiu que, para desvendar o mistério, o único ponto de partida era Sun Wei.
Felizmente, ele estava em vantagem, pois podia conversar com os cavalos. Sun Wei, provavelmente, achava que seu plano era infalível, sem imaginar que estava sendo vigiado.
Mas, diante de Jun Fu, Sun Wei não tinha como se esconder.
No entanto, Jun Fu sabia que isso era apenas o começo. Afinal, por que um simples cuidador de cavalos atacaria repetidamente o animal mais valioso do patrão? Só se houvesse alguém muito mais poderoso por trás, ordenando tudo, e, talvez, outros cúmplices infiltrados no clube. Jun Fu sentia que os segredos do Lago Wenhuai eram cada vez mais profundos.
Mesmo assim, nada disso era o mais urgente. O mais importante, agora, era pensar em como explicar tudo a Tang Zhenshan e forçar Sun Wei a cometer um erro.
Perdido nesses pensamentos, Jun Fu acabou vencido pelo sono e adormeceu sobre a mesa.