Capítulo 88: Que pena, pois eu simplesmente não tenho vergonha!
— Peço ao venerável que me aponte um caminho para sobreviver — implorou o mestre do altar, forçando coragem.
— Receba um ataque meu. Claro, não usarei toda a minha força. Se sobreviver ao meu golpe, deixarei você ir em paz — disse Song Shuhang, erguendo um dedo.
O sentimento de vergonha, uma vez levado ao extremo, colapsa junto com todos os valores. Depois de se referir a si mesmo como “este venerável” repetidas vezes, Shuhang já não sentia mais tanto embaraço; ao contrário, as palavras saíam-lhe com naturalidade.
O rosto do mestre do altar alternava entre o pálido e o escuro. Um ataque de um sênior tão enigmático, mesmo que não fosse com força total, poderia arrancar-lhe metade da vida com um simples movimento de espada!
Contudo, ele não tinha escolha. Receber um ataque poderia significar a morte, mas ainda restava uma esperança. Se recusasse, bastava o oponente lançar uma espada voadora para decapitá-lo sem esforço.
Além disso, ele tinha seus próprios trunfos. Como um cultivador do caminho demoníaco, possuía uma arte secreta de sobrevivência: talvez, ao custo de “morrer” uma vez, conseguisse aguentar o ataque.
Pensando nisso, ele cerrou os dentes e perguntou:
— O venerável fala sério?
— No mundo dos cultivadores, sou alguém de reputação. Jamais enganaria alguém como você — respondeu Song Shuhang friamente, olhando-o de cima como se observasse uma formiga.
De fato, ele não mentia; afinal, todos que possuem cabeça e rosto podem ser considerados pessoas de respeito. Ou será que lhe faltam cabeça e rosto?
— Peço ao venerável que tenha piedade — disse o mestre do altar, forçando um sorriso amargo, cuja amargura parecia atravessar distâncias e continuar pesada.
Em segredo, dentro de seu corpo, uma entidade espectral pura rompeu o selo, envolvendo-o silenciosamente. Uma alma pura não carrega ressentimentos, tornando-se imune a magias comuns de exorcismo. Naturalmente, o surgimento de uma alma pura é raro, uma vez que o nascimento de espectros geralmente advém de rancores profundos. Para que uma alma de alguém excepcionalmente bondoso, morto por uma grande injustiça, se tornasse pura, seria necessário que essa pessoa não ligasse para o próprio infortúnio. Só assim poderia transformar-se em um espectro sem ódio...
— Então, receba meu golpe! — anunciou Song Shuhang com frieza, girando os dedos, fazendo surgir um talismã.
Era o Talismã da Espada, presente do Patriarca Qisheng. Seu uso era simples: bastava ativá-lo e pronunciar “Espada” para liberar um ataque com energia de espada de nível Guerreiro de Terceira Ordem, capaz de partir montanhas e fender rochas. Para um cultivador comum de Segunda Ordem, sem defesas especiais, sobreviver a tal ataque seria quase impossível.
Ao ver o talismã, o mestre do altar quase rangia os dentes de raiva. Para um cultivador errante de baixo nível e vida difícil, não havia nada mais odioso que um rico ostentando talismãs poderosos!
— Fique imóvel, jovem. Resta-lhe apenas rezar pela sua sorte — disse Song Shuhang, segurando o talismã com majestade, sentindo o coração palpitar de excitação. — Espada!
Uma silhueta etérea surgiu atrás de Shuhang — a sombra empunhava os dedos como lâmina e desferiu um golpe contra o mestre do altar.
Um brilho de espada irrompeu do talismã, e naquele instante, o vagão desapareceu de sua percepção: só restava a luz da espada dominando tudo.
Este brilho era, por si só, uma arte suprema da espada!
Em um piscar de olhos, o mestre do altar, aprisionado pelo brilho, sentiu o corpo paralisado, incapaz de mover-se um centímetro. Esquivar-se tornou-se um luxo inalcançável. Restava-lhe apenas olhar, impotente, enquanto a lâmina cortava seu corpo.
Vergonha? Ódio? Medo? O coração do mestre do altar era um turbilhão de emoções, impossível descrevê-las.
A luz tocou seu corpo emitindo apenas um leve sibilo — e, como tofu, ele foi cortado ao meio, tombando pesadamente ao chão.
Porém, nenhuma gota de sangue escorreu dos ferimentos...
O monge estrangeiro estalou a língua. — Terminou assim? Um cultivador de Segunda Ordem tão poderoso morreu tão facilmente?
O vagão mergulhou no silêncio.
Song Shuhang, entretanto, não baixou a guarda; segurava um talismã de proteção na mão esquerda e dois talismãs de espada na direita, mantendo o olhar fixo no corpo caído do mestre do altar.
Afinal, o adversário era um cultivador ativo no antigo Mosteiro Lanterna Fantasma de Jincheng há cinquenta ou sessenta anos. Quem sobrevive tanto tempo dificilmente não carrega algum artefato de preservação.
Pensando nisso, Song Shuhang manteve-se sério:
— Nada mal. Já que você suportou meu golpe, deixo-o partir. Levante-se e desapareça da minha vista! Lembre-se: não quero vê-lo nunca mais!
Song Shuhang já dominava com maestria a arte de blefar.
O monge estrangeiro ficou pasmo — depois de um ataque tão terrível, aquele cultivador espectral ainda estava vivo?
Impossível! Era uma espada assustadora!
Contudo, ao final da frase de Song Shuhang, o corpo cortado em dois começou a dissolver-se em névoa negra, dissipando-se no ar.
Logo, o mestre do altar reapareceu no mesmo lugar, rosto pálido, uma profunda cicatriz de espada na testa. No momento crítico, graças à sua técnica secreta, salvou a vida, mas o golpe foi demasiado feroz e deixou-lhe uma marca dolorosa e duradoura, a energia da espada latejando na ferida.
— Agradeço ao venerável por poupar minha vida — disse ele, suportando a dor. — Irei embora imediatamente.
Já que o sênior percebeu que ele não morreu, não adiantava mais se esconder. O outro parecia ser mesmo alguém de palavra, disposto a deixá-lo ir. Se insistisse em ocultar-se, poderia irritar o venerável, dando-lhe motivo para desferir outro ataque — e então seria seu fim definitivo.
Ao terminar, o espectro guardião, Ku You, também gravemente ferido, aproximou-se com uma maleta preta.
Nela estavam os pertences mais valiosos do mestre do altar. O que era precioso demais não podia ser deixado no bairro Luoxin da cidade de Jincheng; por isso, mantinha tudo consigo.
— Ele está realmente vivo? — murmurou o monge estrangeiro, incrédulo.
Diante daquele rosto lívido, Song Shuhang também suspirou. Sobreviveu mesmo.
Para viver, esse sujeito realmente se superou.
Uma pena, pois se Song Shuhang fosse de fato um sênior de palavra e reputação, talvez deixasse o homem partir.
Mas ele não tinha a menor intenção de manter as aparências! O que queria era matá-lo!
Se não desse fim àquele homem, não teria paz para comer, dormir ou viver nos dias seguintes!
Assim, quando o mestre do altar pegou a maleta e, cambaleante, virou-se para partir... Song Shuhang atacou de novo!
— Espada! Espada! — Com um talismã de espada em cada mão, ativou ambos simultaneamente.
Afinal, quem sabe quantos recursos de sobrevivência ainda restavam ao oponente? Se pudesse, usaria todos de uma vez!
Novamente, brilhos de espada irromperam dos talismãs, formando um X e atingindo o corpo do mestre do altar.
Apesar de manter-se alerta, nada pôde fazer. As luzes eram rápidas e, uma vez travadas no alvo, impediam qualquer fuga.
Ao fim do ataque, o corpo do mestre do altar foi dividido em quatro partes, tombando mais uma vez ao chão. Desta vez, não havia escapatória — a morte era inevitável.
Corpos de cultivadores de Segunda Ordem são resistentes, e mesmo despedaçado, o mestre do altar não morreu imediatamente. Sua cabeça fitou Song Shuhang com ódio, uma torrente de insultos querendo explodir, mas só conseguiu gritar, carregado de rancor:
— Sem... vergonha!
Já sabia que o adversário era traiçoeiro, mas não imaginava tamanha ausência de escrúpulos.
— Pode dizer o que quiser — Song Shuhang respondeu, pegando rapidamente um novo talismã, desta vez de purificação.
O mestre do altar estava morto, mas o espectro Ku You ainda persistia.
É preciso arrancar o mal pela raiz para evitar futuros problemas!
Se Song Shuhang fosse um solitário, não temeria vinganças. Mas, infelizmente, não era.
— Purifique! — O poder do talismã de purificação varreu dois vagões.
Um grito aterrador ecoou; o espectro, enfraquecido, sequer teve chance de fugir e foi diretamente purificado.
Tum! — a maleta preta caiu ao chão.
O corpo do mestre do altar também foi atingido pela energia do talismã, impedindo qualquer contra-ataque póstumo.
Diante da morte iminente, o mestre do altar ficou atônito, balbuciando:
— Sem... vergonha! Palavra... de honra... eu... pfff!