Capítulo 53 – O bondoso Shuhang
Ao abrir os olhos lentamente, Song Shuhang de repente não conseguiu mais manter a posição de lótus. Com um baque, tombou de costas, ficando deitado reto no chão.
“Ué? O que está acontecendo? Mestre Alquimista, sinto meu corpo completamente fraco, não consigo mover um músculo sequer”, perguntou Song Shuhang, intrigado, sem sequer conseguir mexer um dedo.
O Alquimista se agachou ao lado dele e lhe deu umas cutucadas: “Isso é perfeitamente normal. Na sua primeira prática do ‘Sutra da Meditação do Eu Verdadeiro’, ao conduzir o excesso de energia vital pelo corpo, você não soube dosar corretamente o fluxo. Acabou sendo um pouco ganancioso e canalizou energia demais para o centro do coração. Isso causa essa fraqueza passageira. Não se preocupe, em alguns minutos você estará recuperado. Da próxima vez, lembre-se de deixar um resquício de energia circulando, assim evitará esse tipo de debilidade e ainda fará melhor ao seu corpo.”
“Então é isso, haha”, respondeu Song Shuhang, deitado no piso escaldante da varanda, mas sentindo-se maravilhosamente bem.
Finalmente... havia dado o primeiro passo na fundação de um cultivador.
Cem dias para solidificar a base, e agora, com a ajuda do líquido de fortalecimento corporal, mesmo com o talento comum que tinha, deveria conseguir completar a fundação dentro do prazo. E, depois disso, que habilidades poderia obter?
Talvez talismãs? Feitiços? Poderes sobrenaturais? Técnicas para atravessar a terra, ficar invisível, enxergar à distância?
“Ah, mestre, meu ‘eu verdadeiro’ era simplesmente eu mesmo, sorrindo calmamente. Isso quer dizer que ainda sou um simples mortal?”, perguntou Song Shuhang.
“O eu verdadeiro costuma estar ligado à identidade e experiências de cada um. No seu caso, você já entrou em contato com o mundo da cultivação, então seria improvável que sua essência se mostrasse como a de um mero mortal, a não ser que você, no fundo, ainda duvide da existência da cultivação. Ou talvez... O seu ‘eu verdadeiro’ estava sorrindo? Um sorriso suave, que transmite conforto a quem vê?”, ponderou o Alquimista.
“Embora seja um pouco constrangedor admitir, era um sorriso realmente agradável”, respondeu Song Shuhang, sentindo um pouco de vergonha de elogiar o próprio sorriso, já que o ‘eu verdadeiro’ era ele mesmo.
O Alquimista suspirou admirado: “Sabia! Shuhang, você é realmente uma boa pessoa.”
“Ei, mestre, por favor, não distribua esse tipo de cartão de ‘boa pessoa’ por aí!”, reclamou Song Shuhang. Não que se incomodasse, mas já ouvira que quem recebia esse ‘cartão’ demais acabava sem namorada.
“Não, não é um cartão”, insistiu o Alquimista. “Seu ‘eu verdadeiro’ mostra que você é, de fato, uma boa pessoa, Shuhang!”
Song Shuhang apenas franziu a boca.
O ‘eu verdadeiro’ refletia até esse tipo de característica?
“Bem, Shuhang, agora você já dominou completamente o ‘Sutra da Meditação do Eu Verdadeiro’ e as ‘Técnicas Básicas do Punho de Diamante’. Especialmente o punho, que executou tão bem que quase pensei que já praticava por anos. Não tenho mais nada a acrescentar, então por hoje terminamos”, disse o Alquimista, sorrindo.
“Muito obrigado pelos ensinamentos, mestre”, agradeceu Song Shuhang.
“Não precisa de tanta formalidade. E aproveite enquanto estou na região de Jiangnan. Se tiver dúvidas na prática, venha me procurar. O Ancião Beihe já deve ter dito para você: nunca fique preso em suas próprias dúvidas durante o cultivo, questione e reflita sempre que preciso.”
Ao terminar, ele ainda aconselhou: “Sobre as técnicas do Punho de Diamante, você mesmo deve saber o seu limite. Quando sentir o corpo exausto, sem energia, não force a prática. No seu estado atual, mesmo que se recupere logo, não volte a treinar. Afinal, essas técnicas não são para fortalecimento genérico, mas para temperar o corpo de forma vigorosa. O vigor vital diário tem limites e forçar demais pode causar danos.”
“Entendi, e, aliás, mesmo que quisesse treinar mais agora, mal consigo me mexer”, respondeu Song Shuhang, rindo. Ele não conseguia nem mexer um dedo.
“Você é disciplinado, não precisa de mais advertências minhas”, disse o Alquimista, sorrindo. “Agora, apenas deite-se e relembre as sensações que teve ao praticar as técnicas e a meditação. A recordação é uma parte importante do cultivo.”
“Entendido, mestre Alquimista”, assentiu Song Shuhang.
O Alquimista ficou satisfeito, acenou e se despediu: “Então, vou indo!”
Assim que terminou de falar, seu corpo se transformou em um feixe de luz, desaparecendo num piscar de olhos diante de Song Shuhang. Aquilo era, provavelmente, a mítica técnica de deslocamento instantâneo.
“Espere, mestre!” Song Shuhang tentou levantar a mão, frustrado. “Mestre, você podia pelo menos... me ajudar a voltar ao dormitório...”
Ainda estava deitado no chão escaldante do terraço!
Eram cerca de cinco e meia da tarde, o sol de junho ainda brilhava forte no céu, emanando calor e luz.
O grande astro parecia perguntar a Song Shuhang: estudante Song Shuhang, grelhando ao ponto no terraço, quer ao ponto, ao ponto para bem passado, ou completamente passado?
“Que azar”, suspirou Song Shuhang.
Ia acabar desmaiando de insolação. Se continuasse ali, o sol o desidrataria até virar carne seca, pronta para ser vendida em pedaços.
Naquele momento, Song Shuhang só desejava que alguma alma caridosa subisse ao terraço e lhe desse uma mão. Ficaria eternamente grato.
“Além disso, acabei esquecendo uma coisa importante. Nem perguntei ao mestre Alquimista se havia alguma maneira de descobrir quem está me investigando pelas sombras”, pensou Song Shuhang, aborrecido.
Mas o Alquimista já havia partido e só restava esperar a próxima oportunidade, ou talvez ligar para perguntar depois.
Pelo menos tinha o número do mestre. Em caso de emergência, poderia pedir ajuda.
...
Enquanto Song Shuhang refletia, talvez realmente alguma divindade tenha escutado suas preces — passos se aproximaram da porta do terraço.
“Ué? Por que a porta do terraço está aberta hoje?”, murmurou um homem, tentando disfarçar a voz.
Song Shuhang se animou, pronto para pedir socorro.
Mas então uma voz feminina se fez ouvir: “Ora, isso não é ótimo? Vamos ao terraço, nunca tentamos isso lá. Deve ser bem excitante.”
“Também acho, mas cuidado, se alguém nos vir, vai ser complicado”, respondeu o rapaz, empurrando a porta.
“Se alguém nos vir, não fica ainda mais emocionante?”, retrucou a garota, demonstrando completa ousadia.
Song Shuhang, imediatamente, decidiu ficar calado e desistiu de pedir ajuda — eram um casal de namorados buscando emoções ao ar livre, provocando inveja, ciúme e até ódio em quem estivesse por perto.
Esses dois, dignos de serem punidos pelo temido grupo FFF, escolheram o lado oposto do terraço e não notaram que Song Shuhang estava deitado do outro lado.
Assim que encontraram o local ideal, começaram sua “batalha de especialistas”.
Song Shuhang suspirou e fechou os olhos, concentrando-se em recuperar as forças, enquanto ainda ouvia o duelo dos dois “mestres”.
Passado algum tempo, a fraqueza finalmente cedeu.
Com esforço, Song Shuhang se ergueu do chão, ainda cambaleante, e caminhou devagar até a porta do terraço.
“Espera, aquela garota — ou talvez era uma veterana — comentou que seria excitante se fossem vistos?”, murmurou Song Shuhang, coçando o queixo.
Achou que seria adequado realizar o desejo deles.
Afinal, seu ‘eu verdadeiro’ lhe dizia que Song Shuhang era alguém disposto a ajudar o próximo!
Se era algo tão simples, por que não tornar realidade o desejo daquela moça?
“Fazer o quê, sou mesmo uma boa pessoa”, disse Song Shuhang, apoiando-se na mureta do terraço, inclinando-se para espiar discretamente do outro lado.