Capítulo 19: O Templo da Lanterna Fantasma de Cinquenta Anos Atrás
Song Shuhang ficou surpreso por um instante, mas ao reconhecer o rapaz na motocicleta, abriu um sorriso de alegria: “Bó, é você? Como assim, você também está aqui?”
Aquele rapaz de aparência elegante era um dos seus três colegas de quarto, conhecido como Bó. Seu nome verdadeiro, porém, contrastava totalmente com sua imagem: Lin Tubó. Por anos, Bó lamentou o nome, sentindo-se envergonhado por soar tão provinciano. Travou muitas batalhas com o pai por causa disso. Houve até uma vez em que, sozinho, levou documentos para tentar mudar de nome oficialmente, mas seu pai o descobriu, arrastou-o de volta para casa e ainda lhe deu uma surra.
Por isso, sempre que podia, pedia que o chamassem de Abo, Xiaobo ou simplesmente Bó. Na verdade, na opinião de Shuhang, Tubó nem era tão ruim. Pelo menos era melhor do que nomes como Wang Erdan ou Liu Gousheng, que existiam de verdade. Não era apenas piada — em sua cidade natal, havia mesmo alguém chamado Wang Goudan.
Wang Goudan sempre achou que não era filho legítimo do pai e até suspeitava de algum rancor, afinal, por que mais teria recebido um nome daqueles?
De toda forma, Shuhang jamais imaginou que encontraria Bó ali.
“Meu avô mora em J, e esta semana viemos todos visitá-lo. Mas você, o que faz aqui em J?” Enquanto falava, Bó de repente notou a garota de pernas longas ao lado de Shuhang — será que ele estava acompanhado?
“Shuhang, quem é esta?” Bó perguntou, rindo baixinho.
Shuhang respondeu: “É minha irmã, Yurou. Ela veio a J procurar um lugar chamado Templo da Lâmpada Fantasma, mas não conhece a cidade, então pediu que eu a acompanhasse.”
“Sério?” Tubó olhou desconfiado para Shuhang.
Shuhang manteve-se calmo, enquanto Yurou sorria docemente ao lado.
Como Bó não era do tipo fofoqueiro, resolveu acreditar: “Você disse que estava procurando um templo. Já achou?”
Shuhang balançou a cabeça: “Pesquisei bastante na internet, mas não encontrei nada. Por isso viemos ao bairro de Luoxin para perguntar aos moradores, ver se alguém sabia. Mas nem o pessoal do hotel conhece o Templo da Lâmpada Fantasma; não sei se mudaram o nome ou se foi demolido. Agora pretendo perguntar aos mais velhos, talvez descubra algo.”
“Entendo... Que tal ir até minha casa? Podemos perguntar ao meu avô. Ele nasceu e cresceu no bairro de J, talvez saiba desse tal templo. Com um nome desses, duvido que tivesse muitos fiéis, certamente já fechou!” Tubó respondeu, ainda incomodado com nomes esquisitos.
Shuhang ficou animado, mas ainda perguntou: “Não vai atrapalhar sua família?”
“Fica tranquilo, meu avô adora visitas. Quanto ao meu pai, ele quer mais é que eu passe tempo com colegas, em vez de ficar mexendo em tranqueiras. Já estou na universidade e ele insiste que eu só estude, quase me enlouquece!” Tubó riu.
Apesar do tom de reclamação, a relação entre eles era boa, só que o pai acreditava firmemente que disciplina se dava “com vara”. Vivia repetindo: “Em dia de chuva, não há nada melhor do que dar uma surra no filho, afinal, sem nada para fazer mesmo.” Isso deixava Tubó meio desconcertado.
Por fim, Bó perguntou: “Shuhang, você sabe pilotar moto?”
“Sei, mas não tenho carteira”, respondeu Shuhang.
“Não importa, aqui nesse fim de mundo ninguém vai se incomodar em pedir habilitação!” Tubó gargalhou, virou-se e gritou: “Aiyong, empresta tua moto, vai com os outros de carona!”
“Tá bom!” Um sujeito alto e forte desceu da motocicleta, parou-a diante de Shuhang.
“Obrigado”, disse Shuhang, sorrindo.
Aiyong acenou de forma descontraída e foi se juntar aos outros.
Logo, um grupo barulhento partiu roncando com suas motos.
Shuhang montou na motocicleta preta e testou a resposta. Bastou torcer um pouco o acelerador para sentir o veículo disparar à frente.
“Puxa, mexeram no motor?” Shuhang parou e riu.
“Todas as motos desse pessoal foram modificadas por mim. Têm potência de sobra”, Tubó riu, orgulhoso. Ele era um verdadeiro entusiasta da tecnologia, sempre criativo, ainda que não fosse capaz de montar um robô gigante, vivia inventando engenhocas interessantes.
“Yurou, sobe.” Shuhang chamou.
Ainda bem que ela havia deixado a mala grande no hotel, pois aquela moto não aguentaria tanto peso.
Com um movimento ágil, Yurou acomodou-se atrás de Shuhang.
À frente, Tubó riu alto: “Sigam-me!”
E, ao som dos motores, as duas motos partiram uma após a outra rumo ao horizonte...
**********
O avô de Tubó era um senhor muito moderno, apreciava mecanismos e pequenos aparelhos. Era fácil perceber de onde vinha o gosto de Tubó.
Por ser descolado, tinha grande facilidade em conversar com os mais jovens.
“Templo da Lâmpada Fantasma? Hoje em dia ainda há jovens que conhecem esse lugar?” O avô de Tubó riu, surpreso.
Ao ouvir isso, Shuhang percebeu que havia esperança.
Perguntou imediatamente: “O senhor sabe onde ficava o Templo da Lâmpada Fantasma?”
Na região de Jiangnan e arredores de J, chamava-se “Ayiê” os avôs de modo carinhoso.
“Hoje em dia, poucos conhecem esse lugar. Isso é coisa de sessenta anos atrás. A maioria dos que sabiam já está no túmulo, então os mais novos raramente ouviram falar”, explicou o avô de Tubó, conduzindo todos até a entrada do quintal e apontando para o leste: “Sigam sempre para o leste, cerca de setecentos metros adiante encontrarão um bosque. Indo mais para dentro, há um grande túmulo. Ali era o local do antigo Templo da Lâmpada Fantasma.”
“Um túmulo? O templo virou túmulo?” Shuhang perguntou, sem pensar.
“Demoliram o templo?” Yurou arregalou os olhos, percebendo o que acontecera.
“Exatamente. Mais de sessenta anos atrás, foi derrubado por um sujeito que construiu ali um túmulo para si”, confirmou o avô de Tubó.
Tudo acontecera há tanto tempo, numa época em que nem televisão era comum, muito menos internet. Por isso, nada se sabe sobre o Templo da Lâmpada Fantasma, e entre os jovens quase ninguém ouviu falar. Só alguns anciãos lembram o que houve.
“Mas, pelo que sei, o templo era propriedade privada, certo? Não foi comprado por alguém de fora há muitos anos?” Yurou perguntou, intrigada.
“Você sabe bastante, menina”, comentou o avô de Tubó, rememorando: “Na verdade... aquela área já pertencia a Huang, o dono do túmulo. Sessenta anos atrás, ele vendeu o templo para um forasteiro. Mas, antes de vender, já planejava demolir o templo para construir seu túmulo. Quando apareceu alguém querendo comprar, Huang aproveitou, fez o negócio. Anos depois, como o comprador nunca mais voltou, ele tranquilamente derrubou o templo e construiu o túmulo.”
“Que canalha”, disse Song Shuhang.
O avô de Tubó suspirou: “Huang era mesmo um trapaceiro. Enganou muitos forasteiros ricos naquela época. Mas fazer o quê? Gente de fora era ingênua e tinha dinheiro de sobra.”
Song Shuhang lançou um olhar discreto para Yurou — suspeitava que o comprador do templo fosse algum parente dela.
No entanto, não havia indignação no rosto de Yurou. Apenas suspirou e disse: “Imagino que a família desse Huang já deve estar quase toda morta, não?”
Aquela frase soou um tanto assustadora.