Capítulo 15: O Ferimento do Professor Ren Shui
Na opinião de Song Shuhang, provavelmente as duas caixas de ervas continham todo tipo de coisas estranhas, nada muito valioso. Por isso, ele brincou: “Então já agradeço de antemão. Aliás, você tem conta para comprar passagens no site do trem-bala?”
Yu Rouzi balançou a cabeça. Não importava se era para avião ou trem, ela mesma nunca precisava reservar nada. Em sua casa, havia muitos criados e discípulos a serviço da Ilha da Borboleta Espiritual.
“Então me passe seu RG. Daqui a pouco eu reservo sua passagem com minha conta,” disse Song Shuhang.
“Está bem!” Yu Rouzi entregou docilmente seu documento, e em seguida pediu: “Senhor Song, posso ir até a varanda dar uma olhada?”
“Não precisa ser tão formal, fique à vontade.” Song Shuhang sorriu, achando graça naquela jovem tão educada e gentil — uma pena que fosse um pouco excêntrica.
Yu Rouzi sorriu timidamente e se apressou até a varanda, de onde contemplou o exterior.
A varanda dava para o leste, diante de largas ruas e jardins escolares, sem obstáculos à vista. Assim, mesmo no segundo andar, a visão era bastante ampla.
Yu Rouzi primeiro lançou um olhar cauteloso para Song Shuhang, depois, disfarçadamente, executou um pequeno feitiço ao seu redor, capaz de isolar as flutuações de energia, para que suas ações seguintes não fossem percebidas pelo senhor Song.
Preparada, ela retirou do bolso dois pequenos lentes de contato invisíveis e os colocou nos olhos.
Não se devia subestimar esses objetos: eram artefatos mágicos recém-fabricados pelo Venerável Borboleta Espiritual — capazes de ver além dos confins do mundo!
O nome era longo, mas se tratava de uma versão aprimorada dos olhos de águia. Ao colocar as lentes, como dizem os versos antigos, a visão se eleva aos céus, permitindo observar a terra de cima, como um deus.
Era uma obra de um pai preocupado com a filha que se perdia facilmente, feita para que, quando não se orientasse, pudesse enxergar de cima e encontrar o caminho certo. Era puro amor paternal.
Dizem que as filhas são as amantes da vida passada dos pais — e não é à toa.
Se fosse um filho, o Venerável Borboleta Espiritual jamais teria tanto esmero — afinal, um homem feito se perdendo? Que vergonha! Se não encontra o caminho, por que não remover os obstáculos à frente e seguir direto ao destino? Avançar sem hesitar é o verdadeiro charme masculino!
...
Com a visão de deus concedida pelo artefato, Yu Rouzi logo localizou o prédio de professores da Universidade de Jiangnan. Conferindo os dados, encontrou facilmente o professor Ren Shui: alto, de óculos de aro preto, sempre lendo em silêncio.
Naquele momento, o inocente professor Ren Shui estava cochilando ao lado de sua filha, que acabara de completar seis meses.
Como “cochilar com a filha” podia gerar mal-entendidos para alguns cavaleiros, era necessário enfatizar: tratava-se de uma bebê de apenas seis meses! Reafirmando solenemente: era só uma bebê de seis meses!
Tudo corria perfeitamente, como se guiado por forças divinas!
“Encontrei!” Yu Rouzi exultou, juntando as mãos: “Desculpe, me perdoe mesmo, prometo compensar depois, mas agora terei que incomodar!” Seu objetivo era fazer com que o professor adoecesse e tirasse licença, liberando assim a aula.
Entre suas palmas, uma folha de papel dourada brilhava. Tais talismãs geralmente são de uso único, mas alguns, de alto nível, podem ser reutilizados algumas vezes.
O talismã que Yu Rouzi segurava, sem dúvida, era de alto nível.
Somente alguém como Yu Rouzi, filha de um figurão do mundo cultivador, podia desperdiçar algo assim sem remorsos. Talismãs avançados eram difíceis de fabricar, reutilizáveis, porém limitados em número — cada uso era uma dor! Cultivadores comuns contavam nos dedos para usar tal objeto só em situações críticas!
O poder do talismã dourado foi ativado sob o controle de Yu Rouzi.
No distante apartamento de professores...
Ren Shui, meio adormecido, de repente foi empurrado por uma força invisível e caiu da cama.
Para seu azar, o pé se torceu em um ângulo perigoso.
Então... bum!
Estalou — o som de uma torção.
“Ah!” O professor acordou com dor, suando frio, o calcanhar já inchando. Mas, para não acordar sua filha adorada, apertou os lençóis e engoliu o grito.
Rangendo os dentes, massageou o próprio calcanhar com destreza; claramente, não era a primeira vez. Uma torção assim não requeria hospitalização — com um pouco de óleo medicinal e uma noite de repouso, estaria novo em folha no dia seguinte.
Após alguns minutos, apoiando-se em uma perna só, foi pulando até a geladeira buscar gelo e o remédio.
O efeito do artefato de Yu Rouzi cessou...
Mas, vendo que o professor ainda pulava, ela percebeu que não seria o suficiente para que ele pedisse licença. “Falhei,” pensou, segurando o talismã, indecisa.
Nesse instante... o professor pulou em falso.
Estalou. Desta vez, um osso se partiu. O outro pé, antes saudável, fraturou-se. Mais grave que antes.
Longe dali, Yu Rouzi ficou atônita... Não fora ela! Não fizera nada dessa vez!
“Ah!” O professor caiu ao chão, olhos arregalados, lágrimas de dor brotando — homem também chora, só quando a dor é grande.
Ao olhar para suas duas pernas, uma torcida, outra fraturada, seus olhos se encheram d’água.
Mas não havia o que fazer, restava aceitar o azar.
Depois de um tempo, respirando fundo, ele pegou o celular e ligou para a esposa, pedindo ajuda. Sua esposa também era professora na Universidade de Jiangnan.
Como havia uma bebê, não podia chamar a ambulância imediatamente; teria de esperar a esposa voltar para cuidar da filha, e então ir ao hospital.
Ao ouvir o relato do marido, “torci os dois pés”, a esposa ficou preocupada, mas também achou engraçado.
Logo pediu licença de uma aula e voltou correndo para casa...
Encerrada a ligação, o professor também avisou a universidade, solicitando licença para três aulas na tarde seguinte. Com as duas pernas feridas, hospitalização era certa — e a escola precisava ser avisada para ajustar o calendário.
Apesar do imprevisto, no geral, o plano deu certo. Yu Rouzi assentiu satisfeita, guardando o talismã dourado.
Com isso, seu objetivo foi alcançado.
O professor Ren Shui pediu licença, e as aulas da tarde seguinte ficaram livres.
Sem aula no dia seguinte, Song Shuhang teria tempo livre.
Com tempo, poderia acompanhá-la até a Cidade J.
E então, não poderia esquecer de recompensar o professor!
Missão cumprida, Yu Rouzi estava radiante.
Ao retornar para dentro, viu Song Shuhang reservando a passagem para ela no site do trem-bala.
“Senhor Song, por que você não reserva uma para si também? Vai que fique sem aulas amanhã à tarde?” sugeriu Yu Rouzi, com voz suave.
“Haha, se não tiver aula, eu reservo outra,” brincou Song Shuhang.
Mal terminara a frase.
Ding-dong!
Na rede do campus, uma mensagem surgiu em sua conta.
“Atenção, alunos do 4º ano de Engenharia Mecânica, turma 43: devido ao internamento do professor Ren Shui por acidente, a aula de Estatística de amanhã à tarde será substituída por Inglês com o professor Smith. Avisem uns aos outros e preparem-se! Obrigado.”
A mensagem repetiu-se três vezes seguidas.
E fora programada para repetir a cada hora.
A eficiência administrativa da Universidade de Jiangnan era notável! Do pedido de licença do professor ao envio da mensagem, não passou de um ou dois minutos!
“Ué, o professor Ren Shui se machucou? Que coincidência. Mas amanhã vai ser aula de inglês... lá vem o velho Smith com suas aulas chatas,” murmurou Song Shuhang.
Ao lado dele, Yu Rouzi sentiu os olhos marejarem.
A cada ação, uma reação ainda mais forte!
Mas, quem vinha da Ilha da Borboleta Espiritual jamais desistia facilmente, nunca!