Capítulo 66: Diário do Cultivador
Na junção entre o Mar do Leste e o Oceano Pacífico, existe uma ilha misteriosa que jamais apareceu em qualquer mapa-múndi. Encoberta por forças sobrenaturais, ela permanece invisível aos olhares humanos; nem mesmo os equipamentos mais avançados conseguem detectar qualquer traço de sua existência.
Este é o domínio da Venerável Borboleta Espiritual: a Ilha das Borboletas Espirituais.
Inúmeras borboletas coloridas de grande porte dançam pelo céu da ilha, uma característica marcante deste lugar.
Entre elas, uma borboleta do tamanho de uma bacia desceu do alto e pousou diante de uma jovem. Em suas costas, trazia... um jornal.
Sim, um jornal.
“Bom trabalho.” Yuruzi estendeu a mão e pegou o jornal das costas da borboleta. Sentada em um banco de pedra no quiosque, seus longos cabelos estavam presos em um rabo de cavalo.
O jornal parecia comum, sem diferença dos jornais encontrados nas ruas, mas o conteúdo nele era, de fato, extraordinário.
Manchete do dia: O mestre da Seita da Espada da Longevidade do Sul, uma das quatro principais seitas de espadachins renomados do mundo, teve um desentendimento com sua consorte anteontem e, em meio à discussão, declarou que iria romper de vez o relacionamento. Contudo, até o fechamento desta edição, fontes confiáveis informam que o mestre já se ajoelhou por um dia inteiro sobre o “Durião Diamante Vajra”, gritando dez mil vezes: “Eu errei, por favor, me perdoe.”
O mestre da Seita da Espada da Longevidade do Sul sempre foi conhecido por sua postura viril e rude, sendo muito popular entre as cultivadoras femininas; sua consorte, por outro lado, era famosa por sua delicadeza e gentileza. Por isso, não foi surpresa que essa fofoca ocupasse o topo das manchetes.
Em outras páginas, havia alertas sobre o discípulo “Soberano Louco” da Seita Demoníaca do Infinito, que andava agindo na região leste da China, recomendando cautela a todos. Os discípulos dessa seita, em geral, são conhecidos por suas personalidades extremas e métodos heterodoxos. No entanto, “Soberano Louco” era uma exceção: entre os membros da seita, era um dos poucos aparentemente inofensivos — desde que ninguém o provocasse. O problema é que, por alguma razão, esse sujeito parecia nascer para atrair encrenca. Mesmo comendo um simples espeto de carne na rua, sempre acabava sendo provocado. E, sendo ele um discípulo de temperamento extremo, não era raro que uma discussão por causa de espetinhos terminasse em tragédia sangrenta...
Além disso, o jornal relatava sobre cultivadores que enriqueceram de repente apostando em pedras espirituais brutas, e sobre um grande mestre que atravessou o vasto oceano para desafiar divindades nativas do ocidente, conquistando tesouros misteriosos. Nos últimos anos, os deuses aborígenes do ocidente frequentemente eram surpreendidos por visitas inusitadas e acabavam derrotados, sem nada entender.
Outra seção era dedicada às transações: cultivadores anunciando a compra, venda e troca de materiais espirituais raros. Se o preço fosse justo ou o interesse grande o suficiente, bastava entrar em contato com o proprietário ou recorrer ao próprio jornal como intermediário.
Este jornal era especial, feito para cultivadores: diferente dos jornais comuns, era informal e abrangente — trazia desde fofocas e informações confidenciais, até alertas de perigo e anúncios de negócios.
“Olha só! Será que é aquela ‘Ilha Misteriosa Flutuante’ sobre a qual todos têm comentado ultimamente?” Os olhos de Yuruzi brilharam ao ler uma notícia que despertou seu interesse.
Segundo o jornal, recentemente um cultivador avistara sobre o Mar do Leste a lendária “Ilha Flutuante”, onde se podia perceber, à distância, o canto de aves, flores exuberantes e abundância de energia espiritual, além da presença de inúmeras espécies consideradas extintas.
Ninguém sabia se era um domínio ancestral deixado por algum mestre dos tempos antigos, uma dimensão especial ou um fragmento de mundo.
Lugares como este sempre escondem perigos e oportunidades em igual medida, sendo verdadeiros tesouros para aventureiros e exploradores. O cultivador em questão mal teve tempo de tirar algumas fotos antes que a ilha desaparecesse misteriosamente diante de seus olhos.
“O Mar do Leste não fica tão longe daqui.” O coração de Yuruzi acelerou. Deveria ela aproveitar uma oportunidade para sair escondida e se aventurar novamente?
Ela cruzou suas longas pernas, os pés delicados se ergueram levemente em um balançar suave, e os dedinhos reluziam à mostra nas sandálias femininas que Song Shuhang comprara para ela dias atrás.
“O que está lendo, Yuruzi?” Soou às suas costas uma voz serena e calorosa. Um homem maduro e extremamente belo — bonito até o ponto de ser indescritível, do tipo que não tem rivais — acabara de aparecer. Era o Venerável Borboleta Espiritual, senhor da Ilha das Borboletas Espirituais.
“Estou lendo o Diário dos Cultivadores de hoje. Ah, papai, vi um lugar divertidíssimo. Que tal, nestes dias livres, você ir comigo até lá?” Yuruzi levantou os olhos, repletos de expectativa, mostrando o jornal nas mãos.
“Quer sair para se divertir de novo?” O Venerável Borboleta Espiritual ergueu as sobrancelhas e sorriu carinhosamente: “Mas, antes disso, você precisa se familiarizar com o ‘Círculo de Contrato’ dos espíritos. Só depois de concluir o pacto, eu a levarei para passear. Afinal, esse foi um acordo que você mesma fez comigo — não vai voltar atrás, vai?”
Depois de sua última fuga de casa, seu pai não a repreendera. Apenas combinou que tudo o que ela trouxesse deveria ser resolvido por ela mesma. Até que concluísse o pacto com o espírito, deveria permanecer quieta na ilha.
“Não sou alguém que volta atrás. Minha palavra é lei, nem cem, não, nem mil cavalos conseguiriam me fazer desistir!” Yuruzi respondeu com firmeza, mas logo fez uma careta. Jamais imaginara que firmar um pacto com um espírito seria tarefa tão árdua. Já fracassara várias vezes.
“Então, continue se esforçando.” O olhar do Venerável Borboleta Espiritual pousou nos pés da filha e nas suas sandálias.
O modelo era um pouco antiquado, parecendo algo comprado em feira livre.
Nunca tinha visto a filha usando aquele par; devia ter sido comprado naquela última saída para capturar o espírito.
Embora não fossem bonitas, era a primeira vez que a filha comprava algo por conta própria — isso merecia incentivo.
O Venerável era um bom pai.
Pensando nisso, assumiu um ar entendido e elogiou: “Yuruzi, quando comprou essas sandálias? Não decepciona, é mesmo minha filha: tem ótimo gosto!”
Ele até pretendia usar palavras ainda mais elogiosas para a filha querida, mas, diante das sandálias de feira, por mais que se esforçasse, não conseguia pensar em nada melhor.
“Ehehe, papai também achou elas bonitas.” Yuruzi ergueu o pezinho e riu, visivelmente feliz: “Foi aquele dia, depois de capturar o espírito, que o Sênior Song me deu estas sandálias. As antigas estragaram durante a caçada. Realmente, o Sênior Song é ótimo e divertido, até para comprar coisas tem bom gosto — até você gostou!”
O sorriso do Venerável Borboleta Espiritual congelou por um instante e, por dentro, sentiu-se sufocado, como se tivesse engolido algo indigesto.
Sênior Song era aquele membro do grupo que ajudara sua filha na caçada ao espírito.
Yuruzi parecia dar muita importância ao Sênior Song.
O mais preocupante: o Sênior Song era um homem!
Seu discípulo Liu Jianyi provavelmente não lhe contara tudo. Aquele preguiçoso merecia um castigo!
Ao lembrar desse sujeito, o Venerável Borboleta Espiritual estremeceu novamente. Liu Jianyi, por pura preguiça de respirar, cultivava técnicas de respiração de tartaruga e ainda exaltava uma tal “ética do dogma da economia”; às vezes, o Venerável se perguntava como pôde escolhê-lo como discípulo.
Isso não era bom — só de pensar nesse preguiçoso, sentia-se ainda mais sufocado.
Se continuasse assim, talvez fosse melhor começar a andar sempre com algum remédio para o coração.
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No caminho de volta para a escola, Song Shuhang refletia sobre como encontrar oportunidades para colocar suas habilidades em prática — talvez enfrentando os delinquentes da escola diariamente?
Além disso, por volta das quatro ou cinco da tarde, ainda precisava separar tempo para treinar a “Técnica Fundamental do Punho de Diamante”.
Com sua condição física atual, precisaria de quase vinte e três horas para restaurar os níveis de energia necessários para treinar novamente. Ou seja, por enquanto, só poderia praticar o punho uma vez ao dia. Se queria estabelecer sua base em cem dias, precisava aproveitar cada chance, sem desperdiçar um minuto.
Claro, a recuperação da energia vital aceleraria conforme sua força aumentasse. Nos estágios avançados do primeiro nível, seria fácil treinar mais de dez vezes por dia.
Além disso, para acelerar a recuperação, existiam pílulas como a “Pílula do Qi e Sangue”. Bei He já lhe apresentara essas pílulas, feitas de ingredientes raríssimos e diferentes dos elixires líquidos comuns — eram verdadeiras pílulas de primeira categoria. Tomando uma, em meia hora seus níveis de energia vital estariam totalmente restaurados, mesmo para cultivadores em estágio de fundação como Song Shuhang.
Essas pílulas não serviam apenas para a fundação; também eram essenciais para abrir canais nos estágios avançados do primeiro nível.
Se conseguisse obter esse tipo de pílula, seu progresso seria muito mais rápido e teria mais chances contra assassinos. Ele precisava urgentemente de poder.
No fundo, talvez estivesse sendo um pouco ganancioso.
Andando distraído, sem perceber, chegou novamente àquele labirinto de ruas do bairro Da Ji.
Desta vez, não viu a garota de cabelos curtos que fora encurralada contra a parede. Talvez ainda fosse cedo e ela não tivesse acordado.
As vielas estavam quase desertas.
Tudo estava tranquilo.