Capítulo Dois: A Caverna

Batalha de Feras Naquela época, a lua brilhava no céu. 3409 palavras 2026-02-08 14:13:38

Capítulo Dois: O Buraco

— Seu inútil! Está achando que tem dinheiro sobrando? Quem te mandou dar uma moeda estelar para aquele pateta? — Assim que Ximen Feng terminou de devorar o café da manhã, dois pães e uma tigela de mingau, e retornou à loja, uma voz mais desagradável do que o grunhido de um porco invadiu seus ouvidos. Instintivamente, Ximen Feng recuou um passo, sinal claro de que o dono daquela voz inspirava profundo medo em quem habitava aquele corpo antes dele.

— Bem... Eu só vi que ele estava tão machucado que mal conseguia andar, então dei uma moeda estelar para ele recuperar as forças. Se ele desmaiar, onde vamos arrumar outro trabalhador disposto a fazer tudo de graça? — A voz do senhor Ferro era claramente fraca, mostrando que ele era do tipo submisso.

— Recuperar as forças? Dizer que você é burro é pouco! Se queria reforçar a saúde dele, por que não comprou uma refeição nutritiva lá fora? Com uma moeda dá pra comprar duas! Dá uma hoje, outra no feriado, e ainda economizamos meia moeda! — Se antes o grito da senhora Ferro parecia o de um porco, agora seu berro era pior do que o de um abatedouro. Compará-la a um porco era até injusto ao animal.

Ximen Feng já admirava a mesquinhez do senhor Ferro, mas ao ouvir a senhora Ferro, não pôde deixar de pensar que sempre há alguém mais avarento. O mundo é uma constante disputa de quem vai além.

— Cof, cof... — Ao ver o senhor Ferro ser calado pela esposa, Ximen Feng pensou que, se ele fosse repreendido, logo descontaria sua raiva em quem estivesse por perto. Para garantir seu próprio bem-estar, Ximen Feng apressou-se a tossir e entrar pela porta.

Ao vê-lo entrar, o senhor Ferro rapidamente se endireitou, o semblante irritado sumiu e deu lugar a uma expressão arrogante enquanto se dirigia a Ximen Feng:

— Cabeça Oca! Está melhor?

— Sim! Acabei de comer dois pães com a moeda que o senhor me deu. Sinto-me bem melhor agora — respondeu Ximen Feng, com o rosto impassível. Cabeça Oca era chamado assim porque raramente demonstrava emoção. Exceto em feriados, quando ganhava refeições nutritivas, só então esboçava um sorriso. No restante do tempo, mantinha sempre a expressão inerte, o que facilitou para Ximen Feng encarnar o personagem.

— Ótimo! Venha comigo! — O senhor Ferro saiu rapidamente daquele ambiente desconfortável, e Ximen Feng o seguiu, passos cautelosos, pelo corredor lateral. A senhora Ferro, vendo que o marido estava ocupado, não insistiu mais no assunto, talvez achando que meio moeda não valia uma briga.

O senhor Ferro conduziu Ximen Feng até o fundo do pátio detrás da loja, onde pararam diante de uma casa feita do material mais barato de liga metálica. A porta enferrujada, as ervas daninhas nos cantos e as paredes denunciavam que aquele lugar estava abandonado há muito tempo.

Ximen Feng olhou sem entender para a casa, sem saber o motivo de estar ali. Será que o senhor Ferro tinha algum desejo perverso? Só de pensar nisso, Ximen Feng sentiu um arrepio e suou frio. Diante do porte físico do senhor Ferro, não teria chances de resistir.

Mas, segundo as lembranças de Cabeça Oca, o senhor Ferro nunca demonstrou essas inclinações. Será que, depois de ser maltratado pela senhora Ferro na noite anterior, resolveria descontar nele? Ximen Feng não pôde evitar esse pensamento.

O ambiente e a situação eram propícios para suspeitas, mas logo as palavras do senhor Ferro dissiparam suas dúvidas.

— Cabeça Oca, daqui a alguns dias chegará uma remessa de mercadorias. Quero que organize este depósito! Não quero que, quando as mercadorias chegarem amanhã, ainda haja poeira no chão! Entendeu? — O senhor Ferro apontou para a casa, que não era pequena, mas também não era grande, e ordenou.

— Sim! Senhor Ferro, pode deixar! Não vou dormir hoje até deixar este depósito limpo! — respondeu Ximen Feng, ainda impassível. Apesar de sua resposta, por dentro resmungava: “Velho miserável, realmente me trata como escravo de graça. Vou aguentar, mas um dia vamos acertar as contas!” Só podia reclamar em pensamento.

— Aqui está a chave do depósito. Quando terminar, deixe-a no balcão! E não volte para o almoço, vou trazer sua comida até aqui! — O senhor Ferro jogou-lhe a chave e saiu balançando a cabeça, deixando aquele lugar esquecido.

Mesmo irritado, Ximen Feng sabia que era preciso fingir submissão. Depois de lançar um olhar de desprezo ao senhor Ferro pelas costas, empurrou lentamente a porta do depósito. Dentro, só dois pequenos janelos davam luz, tornando quase todo o ambiente sombrio. Ao abrir as portas de ferro, uma corrente de ar gelado e poeira se lançou para fora do cômodo.

O frio penetrou sua pele, arrepiando-o. O depósito tinha uma atmosfera tenebrosa.

— Cof, cof... — Mal entrou, aspirou o pó e começou a tossir violentamente. Felizmente, não era tanta poeira, mas mesmo assim, recuou, tossiu mais algumas vezes e finalmente recuperou o fôlego.

Percebeu que, em cômodos abandonados há tanto tempo, era melhor arejar antes de entrar. Mas não tinha tempo para esperar, se o senhor Ferro o visse parado, seria castigado.

Sem alternativa, Ximen Feng arrancou um pedaço de pano do tanque, lavou-o e improvisou uma máscara, colocando-a no nariz. Por sorte, o pano quase não tinha cheiro, pois era pouco usado. Preparado, Ximen Feng entrou decidido na sala empoeirada.

No depósito, só havia um corredor central; nas laterais, prateleiras repletas de mercadorias cobertas de poeira, algumas até soterradas. Era impossível saber há quanto tempo o lugar estava sem uso. O objetivo de Ximen Feng era organizar tudo e limpar a poeira completamente.

— Cof, cof, cof... — Mal terminava de limpar a primeira prateleira, já tossia de novo. A quantidade de pó superava suas expectativas. Limpar tudo com um pano não seria tarefa de um dia.

Vendo a nuvem de poeira, Ximen Feng escapou rapidamente, e se questionou se, ao terminar, seus pulmões ainda funcionariam.

Foi até a torneira, lavou o rosto e se sentiu angustiado. Se ainda fosse Cabeça Oca, talvez simplesmente enfrentasse o trabalho, mas Ximen Feng não era assim. Limpar cômodos já era doloroso, quanto mais um depósito. Nesse momento, seu olhar recaiu sobre uma mangueira de plástico ao lado do tanque.

Ao vê-la, um sorriso surgiu em seu rosto. Se o semblante impassível de Cabeça Oca era facilmente ignorado, o sorriso de Ximen Feng parecia concentrar todas as cores do mundo. Quem visse aquele sorriso jamais o esqueceria.

Conectou a mangueira à torneira, abriu-a ao máximo, e um jato forte de água saiu do outro lado. Pegando a mangueira, Ximen Feng posicionou-se na porta do depósito e começou a disparar sobre as prateleiras.

Com a névoa d’água, a poeira suspensa desapareceu rapidamente. Ximen Feng avançava, como um trator, e o que parecia ser um trabalho de um dia foi feito em menos de uma hora. Só restava remover um monte de terra formada pela poeira no canto, organizar os produtos, e a missão estaria completa.

Mas, como a terra estava muito úmida, o pano já não servia. Ximen Feng trouxe o balde de lixo, e com as mãos foi pegando os montes. Porém, ao recolher a terra, algo inesperado aconteceu: seu polegar esquerdo foi cortado por um ferimento longo, e sangue jorrou intensamente.

Sem perder tempo, usou a máscara improvisada para estancar o sangue e voltou a se concentrar na pilha de terra. Lembrava-se de que, ao lavar as prateleiras, não viu nada afiado, o que indicava que aquele canto escondia algo.

Após cuidar do ferimento, Ximen Feng cuidadosamente mexeu na terra, até encontrar, no chão do canto, um pequeno parafuso enferrujado. Parecia ser para fixar as prateleiras, mas ali não havia prateleira. Por que estaria ali? Enquanto acariciava o dedo machucado, pensava.

Havia algo estranho nisso. Após assistir muitos filmes de detetive, Ximen Feng tinha certa experiência.

Usando a mão não ferida, puxou o parafuso. Nada aconteceu. Tentou de ambos os lados, sem resultado. Coçou a cabeça, frustrado, pensando se estava só imaginando coisas. Mas não desistiu e, determinado, girou o parafuso com força.

— Crrr, crrr... — Finalmente, o que Ximen Feng esperava aconteceu: um som de metal se fez ouvir, e logo um quadrado de um metro apareceu no chão do canto.