Capítulo Quinze: O Deus do Trovão das Feras
Capítulo Quinze: A Besta de Combate, Deus do Trovão
Era a primeira vez que Ximen Feng andava num carro flutuante e, apesar de achar tudo muito novo, mal teve tempo de aproveitar a sensação antes que o caminhão parasse. Ao descer, deparou-se com um enorme armazém de dois andares. O térreo estava repleto de mercadorias que ele jamais vira antes; quanto ao que havia no segundo andar, Ximen Feng não fazia ideia, pois aquela parte era totalmente fechada.
Na entrada do primeiro andar, havia uma mesa sobre a qual um homem com uma cicatriz no rosto descansava, com as pernas esticadas, olhos fechados, parecendo cochilar.
— Irmão Cicatriz! Irmão Cicatriz! — O chefe Ferro, ao lado de Ximen Feng, aproximou-se do homem com a cicatriz, sorrindo de modo servil, uma simpatia que talvez nem dedicava à própria esposa. Ximen Feng não pôde deixar de pensar que o chefe Ferro era ainda melhor em se humilhar do que ele mesmo.
— Irmão Cicatriz! Irmão Cicatriz! — Sem obter resposta, o chefe Ferro chamou outra vez, agora com voz ainda mais suave.
Só então o homem com a cicatriz reagiu, bocejou longamente e abriu os olhos. Olhando o chefe Ferro com impaciência, franziu a testa e resmungou:
— Chefe Ferro, você não poderia vir um pouco mais tarde? Não é como se não houvesse mercadoria suficiente, mas todo dia você chega cedo demais, está querendo me incomodar de propósito?
— Irmão Cicatriz, imagina! Só vim cedo para garantir que não faltasse café da manhã para você, trouxe especialmente para agradá-lo! — disse o chefe Ferro, colocando o embrulho que carregava sobre a mesa, diante do homem.
O cicatrizado lançou um olhar enviesado ao pacote, sabendo bem que ali estavam os petiscos preferidos dos piratas estelares como ele. Por causa desse agrado, sua expressão relaxou um pouco. Acenou para o chefe Ferro e perguntou:
— O que vai querer desta vez?
O chefe Ferro apressou-se em tirar uma lista e um pequeno cartão dourado do bolso, colocando-os diante do homem:
— Aqui está a lista do que preciso, peço que se empenhe por nós, irmão Cicatriz.
O cicatrizado deu uma olhada na lista, que continha principalmente itens de uso diário, com poucas mercadorias raras ou valiosas. Não se importou, passou os olhos rapidamente e inseriu o cartão dourado numa máquina ao lado. Depois, exibiu a lista diante do sensor óptico do aparelho, que começou a piscar intensamente.
— Verificação concluída, aprovado! — anunciou a máquina com voz mecânica.
Logo após, o homem com a cicatriz gritou para o fundo do armazém:
— Cabeça Colorida, leve nosso cliente para retirar as mercadorias!
— Já vou, irmão Cicatriz! Pode descansar, deixa o resto conosco! — respondeu um jovem de cabelo multicolorido, saindo do armazém enquanto se espreguiçava.
— Por aqui, chefe! — disse Cabeça Colorida, apontando para a porta principal e entrando na frente. O chefe Ferro enxugou o suor da testa e o seguiu, com Ximen Feng logo atrás, curioso, mas ciente de que não era hora de se pronunciar; restava-lhe apenas acompanhar o grupo para dentro do armazém.
Ao adentrar, Ximen Feng percebeu a verdadeira dimensão do lugar. Nem o maior porto de sua vida anterior teria um décimo do volume de mercadorias dali. Não estavam sozinhos: luzes intensas iluminavam o recinto, onde incontáveis máquinas pesadas manipulavam e organizavam cargas.
Ao entrarem, uma empilhadeira parou ao lado de Cabeça Colorida. O motorista, outro jovem de visual extravagante, desceu e saudou:
— Chefe Colorido, trabalhando cedo hoje, hein?
— Bem cedo mesmo! Mas, começar ou não, só depende do nosso cliente! — respondeu Cabeça Colorida sorridente, fazendo um gesto universal de esfregar o polegar contra o indicador.
Vendo o gesto, o chefe Ferro apressou-se em entregar-lhe um pequeno saco preto. Cabeça Colorida pesou o conteúdo, espiou lá dentro e, satisfeito, agradeceu:
— Muito obrigado pela generosidade, chefe! Pessoal, mãos à obra!
— Beleza! — responderam em coro os operadores das máquinas ao redor.
Enquanto Ximen Feng se perguntava quando o chefe Ferro tinha se tornado tão generoso, as máquinas já estavam em plena atividade. Em poucos minutos, vários contêineres gigantescos foram empilhados diante de Cabeça Colorida e do chefe Ferro. Observando-os, Ximen Feng compreendeu: se não dessem uma gorjeta, teriam de mover tudo sozinhos, o que seria impossível, a menos que desmontassem cada caixa para transportar item por item — algo que não só tomaria tempo, mas nem era garantido que permitiriam. Portanto, não havia escolha: era dar a gratificação, querendo ou não.
— Chefe, confira a mercadoria. Se estiver tudo certo, já podemos carregar no caminhão! — disse Cabeça Colorida, apontando para as caixas.
— Está ótimo, muito obrigado, chefe Colorido! — respondeu o chefe Ferro, curvando-se. Mesmo que houvesse algum problema, não ousaria reclamar. Entre os piratas estelares, uma vez recebida a propina, cumpriam o trabalho com zelo, sem adulterar as mercadorias.
— Chefe Ferro, você não teme irritá-los vindo tão cedo? — perguntou Ximen Feng, já a caminho de volta.
O chefe Ferro lançou-lhe um olhar surpreso. Até então, Ah Dai, como o chamavam, jamais fizera qualquer pergunta, sempre obedecendo em silêncio. A inesperada curiosidade não era um bom sinal: se Ah Dai começasse a raciocinar, perderiam um trabalhador gratuito.
No entanto, de bom humor após o sucesso da compra, o chefe Ferro respondeu:
— Ah, meu rapaz, você não sabe: quem chega primeiro sempre pega as melhores mercadorias, sem defeitos. Se chegar tarde, metade é sucata. Mas também não pode ser cedo demais, senão, além de esperar, ainda leva uma surra antes de pegar a carga. — Aparentemente satisfeito com o resultado, o chefe Ferro sorria de orelha a orelha durante o trajeto.
Ximen Feng, ouvindo aquilo, sentiu até certa pena. Imaginava quantas vezes o chefe Ferro teria apanhado até descobrir o horário certo.
O caminhão, rápido na ida, foi ágil na volta. Assim que descarregou no pátio, o chefe Ferro saiu novamente. Ximen Feng sabia que o veículo era alugado e, a cada minuto a mais, o preço subia. O chefe Ferro, avarento como era, não desperdiçaria dinheiro à toa.
Diante dos imensos contêineres, Ximen Feng resignou-se: teria um longo dia. Antes era Ah Dai quem fazia toda a movimentação; agora, era ele quem teria de levar tudo para o novo depósito.
Embora o chefe Ferro não tenha dito nada ao sair, Ximen Feng sabia: se ficasse ali parado olhando para as caixas, quando o chefe voltasse, as consequências não seriam boas.
Restou-lhe, então, abrir uma das caixas e, de má vontade, começar a transferir cada item para o novo depósito. O comércio do chefe Ferro era uma loja de variedades e, embora a maior parte das mercadorias fosse de uso cotidiano, nada ali era trivial; tudo eram produtos de alta tecnologia. Naquele momento, Ximen Feng carregava uma máquina que produzia água: bastava conectar a energia e ligar, e a água brotava do dispensador. Não pôde evitar pensar quanto tal máquina valeria em terras árabes...
Ximen Feng passou a manhã inteira apenas para esvaziar a primeira caixa. Quando se preparava para abrir a segunda, o chefe Ferro apareceu ao seu lado, radiante de satisfação, sinal de que aquela remessa renderia bons lucros.
— Ah Dai! Pare um pouco, venha comigo receber o líder! — chamou o chefe Ferro, sorridente.
— Sim, chefe! — respondeu Ximen Feng, um tanto apático.
Ao sair com o casal do chefe Ferro, Ximen Feng viu que as ruas estavam repletas de pessoas aguardando o transporte público. Em menos de dez minutos, vários ônibus voadores cortaram o céu e pousaram na rua. Eram veículos enormes; mesmo depois de abarrotados com toda a multidão, ainda havia espaço.
Os ônibus eram ainda mais rápidos que o caminhão do chefe Ferro: em menos de cinco minutos, todos já estavam na imensa praça central da cidade.
A praça estava lotada. Ximen Feng sabia que, sempre que o líder retornava, todos os habitantes do planeta eram reunidos ali para recebê-lo.
Segundo Ximen Feng soubera, aquele planeta tinha apenas uma cidade com quase um milhão de habitantes; o resto do território permanecia intocado, não por falta de vontade do líder, mas porque só aquela região era plana — o restante era formado por montanhas ou oceanos.
Naquele momento, pelo menos trezentas a quatrocentas mil pessoas já enchiam a praça. Com o fluxo incessante dos ônibus, o número aumentava sem parar. Quando o último veículo estacionou, a praça estava praticamente tomada: apenas o gigantesco palco à frente permanecia vazio, o restante era uma multidão compacta, difícil até de se mover.
No instante em que Ximen Feng se sentia como nos velhos tempos, espremido no transporte público, um rugido colossal ecoou nos céus. Todos levantaram os olhos para ver uma criatura descomunal com duas asas imensas, cada uma com mais de cem metros de comprimento. Suas asas abertas eram maiores do que as naves de transporte estacionadas do outro lado do porto estelar.
A besta sobrevoou a multidão, batendo as asas algumas vezes antes de descer lentamente ao centro da praça. O vento gerado por seu pouso varreu a multidão próxima, arrastando muitos para longe. Por sorte, Ximen Feng e o casal do chefe Ferro estavam a uma distância segura e não foram atingidos.
Apesar da cena impressionante, ninguém demonstrou medo. Ao contrário, todos exibiam rostos de euforia. Aquela criatura colossal, conhecida como Deus do Trovão, era a fera de combate do líder — e, mais do que isso, uma besta de oitavo nível.