Capítulo 84: Espírito Místico, A Donzela Celestial
— Mano! — exclamou Língua Serena, largando o esfregão no chão e saindo disparada porta afora como uma flecha, atirando-se nos braços de Nuvem Elevada.
Nuvem Elevada foi pego de surpresa, ficando parado com os braços abertos: — Hã… Língua Serena, o que houve?
Temendo que ele desaparecesse de novo, Língua Serena o abraçou com força e demorou bons instantes até soltar-se, erguendo o rosto.
Nuvem Elevada notou o ar abatido da irmã, com olhos inchados e vermelhos, e perguntou surpreso: — Língua Serena, alguém te incomodou? Por que você está com os olhos assim?
— Fiquei acordada até tarde! Por sua causa! — é claro que ela não lhe diria que, preocupada, já chorara escondida mais de uma vez.
— Por que ficou me esperando? Eu disse que voltaria tarde, não precisava você e a mamãe ficarem acordadas, ainda mais que estou com a chave de casa.
Língua Serena fez um biquinho, olhando para o irmão com ar magoado: — Tarde? Você nem voltou para casa a noite toda! Eu… eu e a mamãe ficamos morrendo de preocupação!
— Eu só fui me exercitar, por que tanta preocupação?
— Mas não dá pra passar a noite inteira fazendo exercício! E você nem levou o celular, não tínhamos como falar com você, foi de matar de ansiedade!
— Hã… corri dez quilômetros, fiquei exausto, acabei cochilando um pouco… e quando acordei já era de manhãzinha…
Nuvem Elevada apresentou a desculpa que já tinha preparado.
Língua Serena fitou os olhos do irmão, tão límpidos e transparentes, sem vestígio de mentira, e não conteve uma risada, sorrindo para ele com uma beleza radiante sob a luz do sol, como flores que desabrocham na primavera.
Para Língua Serena, bastava o irmão ter voltado para que tudo estivesse bem no mundo.
— Ora essa, só para emagrecer você foi dormir na rua? Era mesmo necessário? Ninguém te acha gordo…
Ninguém me acha gordo? Nuvem Elevada pensou, anteontem mesmo todos me chamavam de porco gordo, baleia, essas coisas… se não fosse eu agora tão imponente, mostrando serviço…
— Ei! Mano, você está mesmo mais magro! — Língua Serena exclamou, como se tivesse feito uma grande descoberta, e não resistiu em estender o dedo delicado, macio como um broto de primavera, para apertar a covinha na bochecha esquerda do irmão.
Provavelmente, ninguém no mundo ousaria tocar assim em Nuvem Elevada, a não ser Língua Serena.
Nuvem Elevada deixou-se levar pela travessura da irmã e riu: — Claro, me esforcei tanto para perder peso, tinha que dar resultado, né?
Língua Serena desatou a rir, um brilho estranho passando por seus olhos. De repente, estendeu os braços e, como uma pequena ladra, abraçou o braço esquerdo do irmão junto ao peito.
— Vamos, vamos para casa.
— Mamãe, o mano voltou! — assim que entraram no quintal dos fundos, Língua Serena correu para dentro, anunciando a novidade.
Outono Serena logo apareceu à porta, com o olhar cheio de carinho voltado para Nuvem Elevada. Observou-o com atenção, esboçando uma surpresa que logo se dissipou.
— Que bom que voltou. Nuvem Elevada, se for demorar para voltar à noite, avise antes, para sua irmã não ficar tão preocupada.
Nuvem Elevada ainda pensou em se explicar, mas Outono Serena não lhe deu oportunidade, parecendo até lhe conceder o direito de não voltar para casa à noite.
Após se lavar — na verdade, ao renascer, Nuvem Elevada já havia passado por uma purificação completa graças à energia espiritual celestial, estava transformado, alcançando o ápice do segundo nível do treinamento corporal, com o corpo livre de qualquer impureza.
Aquele aroma fresco e peculiar, tão atraente que emanava dele, vinha daí; não fosse isso, Bela Li não teria ficado tão desconcertada ao observá-lo de perto.
Porém, segurando a toalha que Língua Serena lhe entregou com carinho e olhando para a pasta de dente e escova já preparadas, ele não teve como recusar a gentileza.
Depois do café da manhã, já perto das oito, Língua Serena arrumava a mesa, enquanto Outono Serena sorria docemente para Nuvem Elevada: — Se não dormiu bem à noite, vá descansar mais um pouco. Ficar magro é bom, mas não exagere a ponto de adoecer…
Nuvem Elevada assentiu, sem jeito.
Voltando ao seu quarto, viu que o celular já estava carregado e colocou o chip com o número “...20999999”, ligando o aparelho.
Bela Ning havia dito que ligaria naquele dia, e Feroz Tang também certamente entraria em contato para avisar sobre a busca por um apartamento.
Em seguida, Nuvem Elevada voltou sua atenção ao quarto.
Era um cômodo simples: uma cama, uma estante, uma escrivaninha, uma cadeira e um cabideiro.
Apesar da simplicidade, tudo estava arrumado, limpo, sem um grão de poeira sequer.
A caixa de sândalo permanecia intocada no lugar de sempre.
— Mamãe é mesmo calma, qualquer um veria que essa caixa é valiosa, mas ela nem pergunta nada. — murmurou Nuvem Elevada.
O que ele não sabia era que não apenas Outono Serena ignorava a caixa, mas na noite anterior, quando Língua Serena, movida pela curiosidade, quis abri-la, Outono Serena a impediu.
— É uma coisa que seu irmão trouxe, não mexa. — foram as palavras dela.
Nuvem Elevada abriu a estante. — Quanta literatura médica, esse garoto...
A estante tinha duas prateleiras, ambas cheias de livros de medicina; em cima, todos de medicina ocidental moderna, e embaixo, apenas clássicos da medicina tradicional.
Nuvem Elevada não tinha interesse algum na medicina ocidental e se abaixou para examinar os livros de medicina tradicional.
— Compêndio de Matéria Médica, Tratado das Doenças Febris e Outras, Clássico das Ervas, Clássico do Camponês Divino, Clássico das Dificuldades, Perguntas Fundamentais do Imperador Amarelo, Tratado de Acupuntura, Clássico dos Pulsos...
— Então é isso que é medicina tradicional… tantos livros… pelo visto, esse garoto não estudava nada da escola, só pesquisava isso? Deve ter sofrido muito com o próprio corpo nesses anos — pensou Nuvem Elevada.
— O quê! O Eixo Espiritual do Imperador Amarelo?! Será possível?!
Sem querer, Nuvem Elevada viu no canto da estante um livro fino, de capa azul-escura, e sentiu-se abalado.
Não era para menos: no grande mundo da cultivação, ele havia trilhado o caminho da medicina para se tornar um cultivador, tudo porque, na infância, encontrou por acaso um livro raro.
O nome desse livro era “Eixo Espiritual”.
Foi dele que aprendeu as Nove Agulhas do Eixo Espiritual.
— Acrescentaram o nome do Imperador Amarelo, talvez não seja o mesmo… mas só pelo nome Eixo Espiritual, já vale examinar…
— Imperador Amarelo… será que é aquele que lutou contra Chiyou em Zhuolu e venceu graças ao carro de orientação? — Nuvem Elevada ainda não conhecia a fundo os mitos antigos de Huaxia, mas lembrava fragmentos desses relatos, e já tinha noções básicas do Imperador Amarelo pelos livros de história.
Rapidamente, Nuvem Elevada se tranquilizou. Eram dois mundos completamente diferentes, talvez nem fossem do mesmo universo ou espaço-tempo — quanto mais os mesmos livros.
Ele puxou o Eixo Espiritual da estante.
Preparava-se para folhear o livro, quando Língua Serena entrou em seu quarto.
— Mano, faltam só dois meses para o vestibular! Você não vai aproveitar para estudar, e fica só agarrado nesses velhos livros?
Vendo o irmão examinar mais uma vez seus livros médicos antigos, Língua Serena não pôde evitar uma carranca.
— É só interesse, estou só dando uma olhada… — respondeu Nuvem Elevada, distraído.
De repente, Língua Serena olhou para fora da janela e, abaixando a voz, perguntou com ar misterioso: — Mano, o que tem dentro daquela caixa de madeira que você trouxe ontem?
Outono Serena proibira a filha de mexer na caixa, o que só aumentou sua curiosidade. Não era para menos, as mudanças em Nuvem Elevada nos últimos dias eram impressionantes.
Nuvem Elevada, vendo o ar conspiratório da irmã, não resistiu a passar levemente o dedo pelo nariz delicado dela: — Quer saber? É só abrir e ver por si mesma.
— O quê?! Você vai mesmo deixar eu ver? — Língua Serena se espantou. Achava que era um segredo do irmão, algo que ele não gostaria de revelar, mas Nuvem Elevada concordou sem hesitar.
Ele depositou o Eixo Espiritual do Imperador Amarelo sobre a mesa, virou-se e, olhando sério para a irmã incrédula, disse: — O que é meu, é seu também. Não tem nada que você não possa ver. Aliás, se gostar, pode ficar com tudo!
Ao terminar, esboçou um leve sorriso.
Falou de forma tão natural e descontraída porque, afinal, era sua irmã!
Mas Língua Serena sentiu o coração estremecer. Vendo o início de um sorriso encantador no rosto do irmão, teve que fazer um esforço enorme para conter a emoção e um sentimento estranho difícil de descrever.
“O que é meu, é seu também. Se gostar, pode ficar com tudo…”
Essas palavras ecoaram mil vezes em sua mente, deixando-a momentaneamente paralisada.
Nuvem Elevada pegou a caixa de sândalo e, mostrando o lado que se abria para a irmã, disse suavemente: — Abra, veja com seus próprios olhos.
— Língua Serena? Língua Serena! Abra, está esperando o quê?
— Ah… é mesmo? Então lá vou eu! — Língua Serena enfim voltou a si, percebendo ter se distraído, e desviou rapidamente o assunto, corando.
Com mão delicada, ergueu devagar a tampa da caixa de sândalo. — Nossa, que lindo! — exclamou, deslumbrada, ao ver dentro o requintado estojo de jade, verde e translúcido, mesmo antes de abrir totalmente.
Nuvem Elevada também admirou em silêncio, pois o rosto delicado e incomparável de Língua Serena, iluminado pelo reflexo esverdeado da caixa de jade, parecia ainda mais etéreo e onírico, como uma fada vinda dos céus.
— Se algum dia, minha irmã vestisse aqueles trajes das santas e princesas dos grandes clãs do mundo da cultivação… quão bela seria?
— Só não sei que canalha vai acabar conquistando o coração dessa fada caída do céu! — Nuvem Elevada pensava secretamente, praguejando contra o futuro pretendente da irmã, quando ouviu Língua Serena perguntar cautelosamente, com voz suave: — Mano, essa caixa de jade é mesmo linda… posso tocá-la?