Capítulo 76: O que significa ser irmão, o que significa ser pobre?
Tang Meng era um sujeito astuto, alguém que sabia reconhecer coisas de valor, mas, mais do que isso, sabia reconhecer pessoas. Seu olhar era certeiro. Não fosse assim, ele não teria, ao perceber a tremenda mudança em Ling Yun, se aproximado de imediato, sem hesitação.
Claro, havia em parte a influência de Ning Lingyu, mas essa era mínima; o principal era o carisma especial com que Ling Yun conduzia-se, nos gestos e em sua postura diante da vida.
Agora, vendo que Ling Yun mantinha o preço em cem mil, mas só lhe pedia cinquenta mil – e ainda com grandes chances de que nem os outros cinquenta mil fossem recebidos –, Tang Meng sabia que era quase uma brincadeira. Os dois juntos, em dois meses, conseguiriam ganhar uma fortuna? Dinheiro assim fácil, se existisse, Tang Meng não ficaria todos os dias planejando com Ling Yun?
Cinquenta mil reais, menos ainda que o primeiro preço pedido por Tang Meng, que fora sessenta mil! Era o primeiro negócio “desvantajoso” que Tang Meng via Ling Yun fazer desde que passaram a se relacionar de verdade.
Seu coração se aqueceu. “Chefe...”
Antes, ele podia brincar, fingir entusiasmo, dizer que adorava Ling Yun, mas era só conversa fiada, gracejos para descontrair. Agora, estava realmente comovido, sentindo-se reconhecido, confiado, protegido.
Ling Yun, silencioso, sempre irreverente, parecia indiferente a tudo, mas, nos detalhes, pensava muito em Tang Meng.
Quando se meteram na confusão com o grupo de Tu Gang, Ling Yun mandou-o embora, para não se envolver. Na noite anterior, quando Tang Meng quis aumentar o problema e enfrentar Xie Junyan na porta da sala, Ling Yun não interveio de imediato, mas depois aconselhou-lhe a não provocar Xie Junyan sozinho. E hoje, era evidente que o número de telefone era um presente pensado para ele; mesmo cobrando o dinheiro, ao perceber sua dificuldade, aceitou apenas metade do valor.
Tang Meng sabia o quanto custara conseguir aquele número de celular com quatro oitos no final – fora necessário até recarregar com trinta mil de crédito. E agora, seis oitos no final não significava simplesmente um oito a mais, valendo só dez mil a mais!
No fim das contas, em dois dias de convivência, quem teria lucro real, quem sairia perdendo?
Por isso, Tang Meng não podia deixar de se emocionar!
De repente, percebeu que tudo que fazia por Ling Yun valia muito a pena. Por ele, não importava desagradar um subdiretor qualquer de bairro; mesmo se fosse alguém de alta patente, ainda valeria.
Agora, Tang Meng não sentia mais mágoa ou queixas. Daquele momento em diante, dedicaria-se completamente a Ling Yun, seguindo-o até o fim! Claro que ele próprio também acabaria ganhando benefícios inimagináveis, tornando-se uma figura lendária e temida no mundo secular da China!
Assim é o destino das pessoas: quando a oportunidade chega, não basta enxergá-la, é preciso agarrá-la; e quando um benfeitor aparece, não só é preciso reconhecê-lo, mas segui-lo com determinação para ter a chance de triunfar!
Tang Meng não só aproveitou a oportunidade, como também escolheu o benfeitor certo. Era difícil não prosperar!
Ling Yun observou as mudanças no rosto de Tang Meng, que ao final se firmaram numa expressão decidida, e assentiu discretamente. “Esse garoto...”
De repente, franziu o nariz e aspirou fundo duas vezes. “Que cheiro bom!” Virou-se apressado para olhar a cozinha.
— Mano, o que vocês dois estão cochichando aí? Venham logo ajudar a trazer a comida! — chamou Ning Lingyu, ajudando a mãe, Qin Qiuyue, na cozinha, indo de um lado para o outro, mas feliz, pois era a sensação de família reunida, leve e calorosa.
Antes que Ling Yun entrasse na cozinha, Tang Meng, recobrando-se, correu na frente.
— Que cheiro delicioso! Eu trago! — Tang Meng logo se recuperou da emoção e voltou à sua postura habitual de confiante companheiro.
No entanto, parecia que, na casa de Ling Yun, ele mal podia ser o quarto na hierarquia...
Por alguma razão, Tang Meng, destemido como era, não conseguia encarar diretamente o rosto nem o olhar de Qin Qiuyue. Especialmente o olhar dela, que não era apenas belo, mas possuía uma força que parecia penetrar a alma, tornando impossível encará-la por muito tempo.
Era um olhar que revelava vivências e sabedoria adquiridas pelas voltas da vida, como se, com um simples relance, ela pudesse enxergar tudo de alguém, deixando-o sem máscara possível.
Combinado ao seu porte maduro e encantador, à serenidade e dignidade que emanava mesmo em sua simpatia, fazia Tang Meng sentir-se como o Rei Macaco diante de Guanyin: rebelde ou não, precisava comportar-se.
Aliás, Tang Meng percebeu que, diante de Qin Qiuyue, até seu cabelo longo e estiloso, de que tanto gostava, parecia uma grande falha. Deu vontade de cortar tudo na hora.
— Realmente, está muito cheiroso!
Por isso, ao entrar na casa, não resistiu e aspirou fundo, elogiando alto, mas logo pegou dois pratos e saiu da cozinha.
Só ao sair sentiu-se mais aliviado, percebendo o rosto quente.
“O que está acontecendo comigo? Nem meu avô me deixou assim, tão travado!” Pensou, sentindo-se quase um estranho para si mesmo.
Mas logo sorriu. “Será que é a famosa sensação de genro conhecendo a futura sogra?”
“Claro, só pode ser isso. Não é possível que o pequeno gênio das apostas, ousado como sou, ficasse tímido desse jeito por outro motivo!”
Conseguiu se convencer disso e, animado, seguiu para a sala.
As construções ao longo da Rua Linjiang, no bairro pobre, eram quase todas iguais, erguidas nos anos setenta e oitenta, hoje em dia bastante deterioradas.
As fachadas das lojas eram as únicas que recebiam reformas, para atrair clientes, ficando um pouco melhores, mas os pátios dos fundos eram de casas térreas baixas, e a de Ling Yun não era exceção.
O quintal era pequeno, mas bem distribuído: havia a casa principal, uma ala leste e uma ala oeste. Nesta última, ficava a pequena cozinha; a ala leste era um depósito. A casa principal tinha quatro cômodos, sendo três quartos para a família e uma sala de estar de alguns metros quadrados.
Famílias pobres não faziam cerimônias: a sala era também a sala de jantar.
Qin Qiuyue era médica, muito cuidadosa com a limpeza. Apesar de não terem muitos recursos, e de a vida ser apertada, tudo era impecavelmente limpo, transmitindo uma sensação acolhedora de lar.
Assim que entrou com os pratos, Tang Meng entendeu por que Ling Yun dizia precisar de dinheiro.
Ele já sabia que a família de Ling Yun era pobre, mas nunca sentira isso de verdade.
Quem tem dinheiro nunca entende de fato as dificuldades dos pobres.
A casa era tão baixa que Tang Meng sentiu que bastava pular e estender o braço para tocar o teto.
Vale lembrar que, por estarem ao sul da rua, a casa era voltada para o sul, sem luz direta o ano inteiro: fria no inverno, quente no verão.
O que se via era uma mesa redonda simples, três cadeiras de madeira, e no canto leste da sala um sofá antigo, só para duas pessoas, com uma mesinha de acrílico. A capa do sofá, já desbotada e limpa, mostrava o cuidado, mas o assento estava afundado, sinal claro de molas vencidas pelo tempo.
Em frente ao sofá, a uns seis ou sete metros, um velho televisor de 21 polegadas. E só.
Simples assim.
Naquele momento, Tang Meng entendeu por que Ning Lingyu era tão esforçada, sempre buscando o primeiro lugar do ano, e por que o antigo Ling Yun era tão inseguro e desanimado, e por que agora ele tinha ressurgido com tanta força e cobiça.
Cobiça? Sem vergonha?
Tang Meng, impactado, largou os pratos na mesa, sentou-se pesadamente no sofá e, esquecendo-se de onde estava, acendeu um cigarro, tragando em silêncio, pensativo.
De repente, seu Hummer americano, estacionado em frente à clínica popular, parecia uma ironia.
Lembrou-se de que recebia quase quinze mil de mesada todo ano no Ano Novo, e sentiu-se desconfortável ali.
É preciso admitir: Tang Meng era atrevido e esperto, mas também sincero e leal.
Ling Yun entrou trazendo outro prato.
Viu Tang Meng sentado, olhando fixamente para a televisão, fumando em silêncio e franziu o cenho, intrigado.
“Será que pedir os cinco mil foi demais? Será que pus esse garoto numa enrascada?”
Ling Yun sabia melhor que ninguém sobre seu próprio futuro. Embora precisasse de dinheiro para mudar sua vida, não era para tanto.
“Melhor não apertar mais esse garoto. No fim das contas, não gastei nada com o número especial. Por ele me chamar de irmão, posso abrir mão disso e dar de graça!”
Decidiu-se, não sem uma pontada de dor.
Ao mesmo tempo, Tang Meng terminava o cigarro, com o canto dos olhos e da boca tremendo, também decidido.
“E daí esse Hummer? Vou vender! Um Audi faz o mesmo serviço! Não aceito que a tia Qin e Lingyu vivam num lugar desses!”
Pensava com pesar: era presente do tio em seu aniversário de dezessete anos, seu xodó, um Hummer americano!
Ling Yun e Tang Meng se olharam ao mesmo tempo.
— Chefe, decidi vender o Hummer, esse troço bebe gasolina demais, vou trocar por outro carro. Se você precisa de dinheiro, não importa quanto, está aqui!
— Tang Meng, não se preocupe. Estou precisando, mas não a ponto de te apertar assim. O número do celular é seu, de graça, não quero nada!
Falaram juntos, pararam juntos, como se temessem voltar atrás se não falassem de uma vez!
Até o número de palavras foi igual, tamanha a sintonia!
Dois irmãos malandros, ambos dispostos a abrir mão de seus interesses pelo outro!
E então ficaram se olhando, boquiabertos, sem acreditar.
Parecia até que estavam prestes a brigar...