Capítulo 004: Humilhando e Desmascarando
Não foram apenas eles: aquele estrondo acordou também todos os moradores dos dormitórios em frente e ao lado. Alguns estudantes curiosos chegaram até a abrir a porta para ver o que estava acontecendo.
— Ei, parece que no 305 tem confusão de novo. Vamos lá ver como ficou a cara de porco do Ling Yun depois de apanhar mais uma vez! — exclamou um rapaz do dormitório ao lado, metendo a cabeça para fora e logo a recolhendo para chamar os colegas.
— Esse pateta apanha todo santo dia, qual a graça de ver de novo? Sem interesse! — O colega, ao ouvir que se tratava de Ling Yun sendo espancado outra vez, perdeu o entusiasmo na hora, deitou-se de novo e ficou por isso mesmo.
Dormitório 305.
Após um breve momento de perplexidade, Wei Tiangan finalmente saiu do choque. Se não tivesse presenciado com os próprios olhos, jamais acreditaria que Ling Yun teria ousado arrombar a porta.
Toda a escola sabia: Ling Yun era tímido, medroso, o alvo mais fácil de se fazer de bobo. Tinha um metro e oitenta, era pesado, mas até os calouros do ensino médio zombavam dele sem receio.
— Seu porco gordo, olha só! Ficou algumas horas fora e agora já acha que pode arrombar a porta? — Wei Tiangan não sabia o que tinha acontecido com Ling Yun, mas não lhe dava a menor importância.
Naquele momento, Gu Yuanlong também já havia se recuperado do susto. Sempre esperto, aproveitou o gancho de Wei Tiangan e provocou:
— Ei, seu gordo, será que você ontem se declarou para a Cao Shanshan e levou uma surra? Hahaha! Cadê seus óculos e sua camisa? Não vai me dizer que tentou forçar a barra com ela, levou uns tapas e ainda ficaram com suas coisas como prova?
O que era brincadeira para um, foi levado a sério por outro. Ao ouvir aquilo, Wei Tiangan imediatamente ficou com o rosto fechado e o sangue subiu-lhe à cabeça. Só então percebeu que Ling Yun realmente estava sem camisa. Será que aquele pateta tinha mesmo mexido com a deusa dos seus sonhos?
— Além de voltar tarde e atrapalhar nosso sono, ainda tem a coragem de arrombar a porta! Será que está querendo apanhar de novo, seu pedaço de banha? Quer que eu te ajude a relaxar? — gritou Jia Meng, um sujeito magro, baixinho, não chegava a um metro e setenta.
Jia Meng era perverso. Seu passatempo favorito era humilhar Ling Yun. Compartilhavam a beliche de baixo; enquanto todos dormiam cabeça com cabeça ou pés com pés, Jia Meng fazia questão de pôr os pés na direção da cabeça de Ling Yun. Quando este tentou inverter a posição, apanhou tanto que acabou desistindo de reclamar.
— Olha só, a calça dele ainda pinga água! Aposto que depois de ser rejeitado, tentou se afogar de vergonha. Amanhã isso vai dar o que falar: o maior covarde da escola se declara para a musa, é rejeitado e tenta se matar! Que notícia! — acrescentou Sha Guoxing, colega do beliche de cima de Chai Hanlin, colocando os óculos calmamente, mais interessado ainda na confusão.
Vários estudantes, atraídos pelo barulho, já se aglomeravam à porta do 305, caçoando e rindo das piadas de Sha Guoxing.
Wei Tiangan, então, respirou aliviado. Também percebeu a poça de água sob os pés de Ling Yun. Conhecendo o rapaz, achou bem possível aquela versão dos fatos.
Mas só de pensar que Ling Yun teve coragem de se declarar para Cao Shanshan, por quem ele mesmo era apaixonado em segredo, sentiu-se tomado de ciúmes. Ele, que jamais ousaria sequer sonhar com a garota, e agora aquele gordo aparecia para tirar-lhe o lugar?
Decidiu, ali mesmo, que precisava dar uma lição exemplar em Ling Yun, diante de todos. Era hora de mostrar quem mandava.
Trocaram olhares cúmplices — ele, Gu Yuanlong e Sha Guoxing — e seus rostos endureceram, prontos para agir.
Somente Chai Hanlin pulou da cama, descalço, e correu até Ling Yun, perguntando com preocupação:
— Ling Yun, onde você esteve? Cadê seus óculos, sua camisa? Por que está todo molhado? Está bem?
Chai Hanlin era do interior, de família humilde, mas tinha entrado no colégio com muito esforço e dedicação. Era dos melhores alunos da turma, apesar de ser franzino e pequeno, e por isso também alvo frequente de zombarias. Talvez por isso sentisse empatia por Ling Yun, sempre maltratado pelos colegas.
Ling Yun, recém-chegado àquele mundo, sentiu-se, pela primeira vez, sinceramente acolhido. Baixou a cabeça e sorriu levemente para Chai Hanlin:
— Estou bem.
Logo depois, ergueu o rosto, agora sombrio, e encarou Wei Tiangan com frieza:
— Diga-me, quem trancou a porta? Foi você, não foi?
— Ora, ora, ficou corajoso, hein? O porco do nosso quarto agora fala grosso! Presta atenção, eu mesmo tranquei a porta. E aí, vai fazer o quê? — Wei Tiangan, irritado com a ousadia de Ling Yun, desceu rapidamente da cama.
Mas antes que tivesse tempo de pôr os pés no chão, uma mão enorme agarrou seu pescoço e, num movimento ágil, Ling Yun o jogou no chão.
— Aaaah! — Wei Tiangan não esperava uma reação tão rápida. Caiu de costas, só de cuecas, o chão gelado, gritou de dor.
Não bastasse isso, Ling Yun apoiou o tênis cheio de lama sobre o peito do colega, ignorando seu sofrimento e os gritos de espanto dos outros, e sorriu calmamente:
— E aí? Só estou te pisando.
Todos ficaram boquiabertos, os olhos quase saltando das órbitas, óculos caindo ao chão.
Gu Yuanlong e Sha Guoxing, que iam descer para bater em Ling Yun, pararam, atônitos. Jia Meng esfregava os olhos sem acreditar: estaria sonhando?
Ling Yun, por dentro, estava exultante. Embora ainda gordo, seu corpo agora passara por uma transformação, lavada com energia espiritual, tornando-se forte e vigoroso.
A miopia fora curada, os antigos males do corpo desapareceram, e, com a energia absorvida há pouco, agora estava forte como um touro.
Conhecia como ninguém os pontos de força do corpo humano, e, mesmo só na base do físico, ninguém ali no dormitório poderia enfrentá-lo.
Chai Hanlin assistia, pasmo, à metamorfose de Ling Yun, de cordeiro submisso a tigre feroz. Ao ver Wei Tiangan humilhado, preso sob o pé de Ling Yun, sentiu até um pouco de pena:
— Ling Yun...
Ling Yun tinha boa impressão de Chai Hanlin. Fez um gesto com a mão e disse:
— Não se preocupe, hoje tenho contas a acertar com eles.
Ele estava mesmo de excelente humor. Tinha conseguido a rara erva, queria apenas dormir tranquilo e deixar os problemas para depois — mas ser impedido de entrar no próprio quarto? Era demais.
Achavam que ainda era o mesmo fracote? Pois bem, agora era hora de ajustar todas as contas!
Wei Tiangan, imobilizado, sentia-se humilhado diante de todos. Tentou se libertar, empurrou com força a perna de Ling Yun, mas era como tentar mover uma coluna de ferro. Estava preso, sem chance de escapar.
Todos, dentro e fora do dormitório, ficaram impressionados: brigas eram comuns, mas ver alguém sendo pisoteado assim era inédito.
Desde quando Ling Yun se tornara tão temido?
Todos pensavam a mesma coisa.
— Caramba, o porco ficou louco! Gu Yuanlong, Jia Meng, não vão me ajudar? Vão ficar aí parados?! — Wei Tiangan, com o rosto distorcido, gritava por socorro.
Mas Gu Yuanlong, covarde, lembrava-se bem: com uma só mão, Ling Yun levantara e jogara no chão alguém de sessenta quilos. Não ousava mexer-se.
Jia Meng, por sua vez, notou que Ling Yun lhe dava as costas e, achando que tinha uma chance, desceu da cama sorrateiro e desferiu um soco nas costas de Ling Yun.
O golpe foi certeiro, mas Ling Yun virou-se calmamente, com um sorriso zombeteiro.
— Gosta de atacar pelas costas, é? Com essa força acha que vai machucar alguém? Deixa eu te mostrar como se faz.
Com um tapa ágil e certeiro, acertou em cheio o rosto de Jia Meng. O som ecoou pelo dormitório silencioso.
Embora não recordasse exatamente o nome dele, Ling Yun sabia, pelas memórias, que aquele era o pior dos colegas, o que mais o maltratava. Por isso não teve pena.
Duas presas ensanguentadas voaram, e o rosto de Jia Meng logo exibiu marcas vermelhas e inchou visivelmente.
— Aaaah! — Jia Meng girou sobre os próprios pés e, só então, soltou um grito de dor, recuando até quase a porta, os olhos cheios de medo.
Com aquele tapa, todos no dormitório estremeceram. Naquele instante, todos perceberam: Ling Yun havia mudado.
Não era mais o covarde de antes, não seria mais alvo fácil. Por mais que não quisessem admitir, os fatos falavam por si.
Com Wei Tiangan preso sob o pé e Jia Meng atirado para longe com um tapa, o mais impressionante era o sorriso sereno de Ling Yun, sem qualquer traço de fúria, como se tudo aquilo fosse natural.
Entre os curiosos à porta, dois que já haviam zombado de Ling Yun encolheram os ombros, temendo ser notados por ele.
— Gu Yuanlong, Sha Guoxing, vocês vão esperar até quando? Se não imobilizarmos esse maluco hoje, estamos perdidos! — Wei Tiangan, coitado, mesmo espremido, não notava que Ling Yun já não era o mesmo e ainda tentava incitar os outros.
— Chega de barulho! — Ling Yun aumentou a pressão do pé, e Wei Tiangan ficou lívido de dor, as lágrimas escorrendo, sem conseguir dizer mais nada.
Ling Yun olhou para baixo, para Wei Tiangan, que jazia vencido, e depois lançou um olhar de desprezo para Gu Yuanlong, Sha Guoxing e por fim para a porta.
— Vocês me maltrataram muito nesses anos, não foi? Sempre aguentei, desde que não passassem dos limites. Mas hoje trancaram a porta, não me deixaram entrar. Se eu aceitasse isso, o que mais fariam? Iriam até me humilhar ainda mais?
Entre os curiosos, alguns começaram a se dar conta de que, de fato, os colegas tinham exagerado.
Por mais tímido e fraco que Ling Yun fosse, era injusto impedi-lo de entrar no próprio quarto. No fim das contas, ele também pagava para estar ali.
Se fosse outro no lugar de Ling Yun, talvez pegasse uma faca e partisse para cima.
Se fosse a antiga versão de Ling Yun, teria desistido de bater, ficado do lado de fora até amanhecer, sem reclamar. Todos ririam dele, como sempre, sem se importar com o que sentiriam se estivessem no lugar dele.
Mas, naquela noite, Ling Yun reagiu, e reagiu de forma avassaladora. Todos pensaram: se fosse comigo, também reagiria com força!
— É, realmente, Wei Tiangan exagerou. Até coelho acuado morde... — comentou alguém na porta, agora sentindo certa simpatia por Ling Yun.
— Já viram o bastante? Quem já viu o que queria, pode ir embora e fechar a porta. Você aí, venha cá! — disse Ling Yun, friamente, apontando para Jia Meng.
Jia Meng, com a bochecha inchada, já quase fora da porta, estremeceu. Não queria, de jeito nenhum, receber outro tapa daqueles.