Capítulo 069: Mesmo na pobreza, há dignidade
Ning Lingyu era de uma inteligência rara, e parecia ter compreendido o significado por trás do olhar de Ling Yun. Não resistiu e lançou um olhar furtivo para Tang Meng, que os seguia de perto. Tang Meng levantou os olhos para o teto, depois baixou-os para o chão brilhante, observando de relance a multidão de compradores que passava ao redor, fingindo não ter visto nada, com uma expressão totalmente indiferente.
Que rapaz astuto, mais esperto que um rato.
No íntimo, Ning Lingyu entendia tudo com clareza. Ela acreditava ter feito Ling Yun perder o prestígio diante de Tang Meng, considerado um playboy. Mal sabia ela que a raiva de Ling Yun nada tinha a ver com Tang Meng ou com questões de orgulho.
Mas... a mãe sustentava a casa sozinha com o pequeno consultório, ainda arcava com as mensalidades e despesas dos dois irmãos no Colégio Número Um; a família passava realmente por grandes dificuldades!
Como não economizar?
— Mano... — Ning Lingyu fitou Ling Yun com seus grandes olhos, querendo falar, mas hesitou.
Ela sabia que Ling Yun havia conseguido vinte mil yuan no total; embora o irmão sempre agisse com muita naturalidade ao pegar o dinheiro, Ning Lingyu sempre acreditou que dinheiro que não fosse fruto do próprio esforço, não era realmente seu.
Ela tinha seus princípios e limites.
Ainda que Ling Yun aceitasse dinheiro de terceiros, a irmã não podia impedir, mas isso não significava que ela pudesse gastá-lo sem peso na consciência.
Ning Lingyu chegou até a decidir, em segredo, que trabalharia intensamente após o vestibular para devolver o dinheiro a Tang Meng sem que ninguém soubesse.
Dinheiro ganho em jogos de azar não lhe atraía, muito menos o utilizaria. Não sentia segurança ao usar esse dinheiro.
No entanto, Ling Yun não lhe consultou em momento algum e gastou todo o dinheiro rapidamente; ela não podia culpar o irmão.
O simples fato de o irmão ter recuperado a autoconfiança e reconstruído a autoestima já a deixava satisfeita. Além de desejar que Ling Yun entrasse numa universidade um pouco melhor, não lhe exigia mais nada.
Esse era o pensamento de Ning Lingyu: ela era pobre, mas cheia de dignidade!
— Lingyu, não diga mais nada, nem pense demais. Diga o que quer comprar, o mano escolhe para você, compra para você. Não vamos levar essas porcarias, só vamos escolher o melhor! — Ling Yun gesticulou, interrompendo Ning Lingyu, falando com uma doçura cheia de carinho e ternura. — Esqueceu? O mano ainda tem mais de dez mil!
Tang Meng, que fingia não ter ouvido nada até então, empalideceu bruscamente, tomado de dúvida e espanto!
Ling Yun conseguiu vinte mil no total, gastou mais de nove mil ontem, hoje comprou uma quantidade enorme de produtos de marca, e ainda assim não mexeu um centavo do dinheiro que tinha em mãos?!
Tang Meng, vindo de uma família abastada, conhecia os preços das principais marcas; só os produtos que Ling Yun levou para o dormitório hoje não sairiam por menos de trinta mil!
Será que ele realmente assaltou um banco? Ou... teria roubado?
Ning Lingyu também ficou atônita. Ela havia visto claramente a pilha de produtos de marca com que Ling Yun chegou! Não sabia sobre os outros, mas pelo menos os preços do iPhone 5 e dos tênis da Nike ela conhecia; era de se esperar que o irmão já tivesse gastado todo o dinheiro.
— Mano, hoje à tarde você não... — começou ela.
Ling Yun sorriu de leve. — Não fale mais nisso, vamos acabar logo as compras e voltar para casa, não quero que a mamãe fique preocupada!
Ning Lingyu assentiu docemente e, com Ling Yun, começou a passear pelo supermercado.
Desta vez, Ling Yun também prestava atenção apenas nos preços, mas — só comprava o mais caro e o melhor!
Óleo, sal, temperos, frutas frescas, legumes, costela, patas de porco, carne bovina temperada — tudo que era caro, ele comprava! Ainda levou dois grandes peixes amarelos e mais de uma dúzia de caranguejos de rio!
— Essa lagosta está mesmo se exibindo, vou levar! — exclamou.
Ling Yun passeava pela seção de frutos do mar, e ao ver aquela lagosta enorme, com mais de um palmo de comprimento só de corpo, ostentando-se dentro do aquário, não hesitou um segundo sequer e decidiu comprá-la imediatamente!
Imponente e cheia de atitude!
Até Tang Meng não pôde deixar de arregalar os olhos, pensando que Ling Yun só podia estar louco, depois de algum tipo de choque.
Dessa vez, Ling Yun comprou não só em grande quantidade, mas escolheu sempre o melhor e o mais caro, enchendo três carrinhos de compras inteiros!
No final, ao passar no caixa, a conta ficou em sete mil e duzentos yuan!
Ling Yun tirou oito mil para Ning Lingyu pagar, calculando que lhe restariam pouco mais de três mil — o suficiente para alugar um quarto fora da escola por dois meses.
Seu foco agora era o treinamento físico, enquanto seus colegas de dormitório estavam totalmente dedicados ao vestibular. Ele voltava tarde todas as noites, isso certamente atrapalharia o descanso dos outros. Por isso, decidiu alugar um quarto fora para morar.
Assim, poderia organizar seu tempo de estudo e treino como quisesse, sem ser perturbado, e ainda evitaria muitos inconvenientes.
Mesmo que o dinheiro não fosse suficiente, ele ainda tinha quatro números de telefone premium consigo! Além disso, pretendia arranjar tempo para vender a caixa de sândalo e a caixa de jade; a curto prazo, não precisava se preocupar com dinheiro.
Quanto a valores maiores... Ling Yun possuía habilidades médicas excepcionais capazes de salvar vidas, então não se preocupava!
Após pagar a conta, os três colocaram todas as compras no carro e seguiram direto para casa.
...
Com o rápido desenvolvimento econômico do país, cada grande cidade possuía bairros de ricos e, por consequência, também bairros de pobres.
Como capital da província de Jiangnan, a cidade de Qingshui não era exceção.
Ao sair do anel viário de Qingshui, o Hummer seguiu por estradas esburacadas até o extremo nordeste, na periferia, e chegou a um bairro pobre, próximo a pequenas cidades no subúrbio — era ali que ficava a casa de Ling Yun.
Sendo uma área pobre, as ruas eram estreitas, irregulares e cheias de buracos, postes de energia por toda parte, casas baixas e decadentes, a maioria construída nas décadas de 70 e 80, habitadas principalmente por migrantes vindos de outras regiões para trabalhar.
Esse bairro era muito distante do Colégio Número Um de Qingshui; de ônibus, levava pelo menos duas horas. Por isso, a mãe de Ning Lingyu, Qin Qiuyue, sacrificava-se para pagar o alojamento dos dois irmãos, poupando-lhes o tempo perdido no trajeto de ida e volta à escola.
— Todas as casas têm o caractere “demolição” pintado no muro, parece que em breve tudo isso será demolido — comentou Tang Meng pela primeira vez desde que saíram do centro, concentrado em dirigir. Só então abriu a boca.
Ning Lingyu assentiu. — Estão falando em demolição desde setembro do ano passado, mas a compensação oferecida pela construtora é muito baixa. Os moradores não aceitam, e não conseguem chegar a um acordo, então ainda não resolveram.
— Sabe qual construtora é? — Tang Meng deu uma risada sarcástica, pensando que seria impossível resolverem amigavelmente; em toda grande desapropriação sempre há ameaças, subornos e, por vezes, até mortes de quem resiste.
— Não sei, mamãe só quer que eu estude bem e não me deixa preocupar com essas coisas... — respondeu Ning Lingyu, balançando levemente a cabeça.
Após mais três ou quatro minutos, Ning Lingyu pediu que Tang Meng parasse o carro na beira da estrada, depois apontou para uma casa ao sul da rua e disse:
— Ali é minha casa, mano, vamos descer.
Ling Yun se virou; sob a fraca luz do poste, viu uma fileira de sobrados velhos e baixos, todos com pequenas lojas e restaurantes nos térreos, cada um iluminado.
— É mesmo aqui? — observando o lugar, Ling Yun não pôde evitar lembrar-se do local onde Xue Lao e Xue Meining moravam, suspirando em silêncio.
Em seguida, esboçou um sorriso leve e desceu do carro junto com Ning Lingyu.
Ning Lingyu, ao descer, correu direto para um pequeno consultório do outro lado da rua, gritando alegremente antes mesmo de entrar:
— Mamãe, eu e o mano voltamos!
— Ora, se não é a nossa campeã de notas voltando pra casa! — exclamou Qin Qiuyue, cuja clínica tinha o simples nome de “Clínica do Povo”. Ao lado oeste ficava uma pequena loja de conveniência, vendendo utilidades diárias; ao leste, um pequeno restaurante de pratos caseiros.
Quem saudou Ning Lingyu foi justamente a dona da lojinha, Li Hongmei, mulher de cerca de quarenta e cinco anos, estatura mediana, um pouco acima do peso, mas de semblante simpático.
Morando ali há muitos anos, Li Hongmei era bastante próxima de Qin Qiuyue, mãe de Ning Lingyu. Sempre que alguém da vizinhança adoecia, era a Qin Qiuyue que procuravam; já Qin Qiuyue comprava o que precisava na loja de Li Hongmei.
Por cuidarem uma da outra, as duas famílias eram muito próximas.
Li Hongmei era muito solícita. Ouvindo o chamado de Ning Lingyu, saiu da lojinha para cumprimentá-la.
— Olá, tia Li — respondeu Ning Lingyu, cumprimentando-a educadamente antes de correr para dentro da Clínica do Povo.
O Hummer de Tang Meng ficou estacionado à beira da estrada. Um carro daqueles, de repente, num bairro pobre, logo virou o centro das atenções.
— Ora, se não é Ling Yun! Que vento o trouxe hoje? Desde que voltou pra escola depois do Ano Novo, nunca mais apareceu por aqui. Hoje resolveu dar as caras! — disse Li Hongmei ao ver Ling Yun, mas sem o mesmo entusiasmo dedicado a Ning Lingyu, falando num tom frio e distante.
Naquela área, todos os moradores antigos conheciam Ling Yun e sabiam que ele fora acolhido por Qin Qiuyue.
O distanciamento de Li Hongmei não vinha por causa da origem de Ling Yun, mas sim porque, até então, ele nunca fora um jovem digno de simpatia: só comia, apanhava ou era humilhado, vivia calado, não falava com ninguém, não ajudava a mãe em casa, suas notas eram péssimas... Pessoas assim não conquistam o respeito de ninguém.
Ling Yun, que ajudava Tang Meng a descarregar as compras do carro, ignorou completamente o tom frio de Li Hongmei e respondeu secamente:
— Sim, voltei.
Li Hongmei, notando a indiferença de Ling Yun, ficou aborrecida, resmungou pelo nariz e entrou de volta em sua loja. Mas não deixou de se perguntar: normalmente os irmãos voltavam de ônibus; por que, dessa vez, estavam num carro tão caro?
Não pôde evitar de olhar, curiosa, os dois jovens atarefados ao lado do carro.
— Esse carro não só trouxe eles de volta, como também trouxe tanta coisa... Será que algum parente rico da Qiuyue veio visitá-los? Mas aquele rapaz parece ter a mesma idade do Ling Yun... — murmurava Li Hongmei, intrigada, dentro da lojinha.
Ling Yun prendeu a caixa de sândalo debaixo do braço, carregava o novo iPhone 5 na mão esquerda e, na direita, a lagosta que ainda se debatia, e sorriu para Tang Meng:
— Vou entrar primeiro; pode ir levando o resto com calma!
Tang Meng olhou para a montanha de sacolas e ficou sem palavras, fazendo uma careta:
— Chefe, me dá uma mão, vai? É coisa demais, como vou levar tudo sozinho?
— Já viu formiga fazer mudança? Se terminar tudo, tem super recompensa, anda logo! — piscou Ling Yun, sorridente, antes de entrar orgulhosamente na Clínica do Povo.
— Mãe, estou de volta!