Capítulo 067: O Encanto Daquele Chute
— Ah, então era sobre isso? — fingiu-se de surpreendido, como se tivesse acabado de entender. — Mas agora já nos conhecemos, não é?
Por dentro, pensava que hoje ela viera para acertar todas as contas com ele. Na verdade, ontem ele realmente não conhecia a moça. Só depois de saber que eram, de fato, colegas na mesma turma, percebeu o engano monumental que cometera.
Mas, fazer o quê? Não podia simplesmente contar toda a verdade, revelar seus segredos. Isso, jamais! Por isso, preferiu não explicar nada, desviando, fingindo-se de desentendido, tergiversando como só ele sabia fazer.
Ele podia ser duro, decidido como poucos, mas sabia com quem agir assim.
No dia anterior, durante o almoço no refeitório do segundo andar, mesmo que ela parecesse estar procurando encrenca, no fim das contas, o erro primeiro fora dele.
Hoje, pela manhã, ele não notou a enorme transformação da colega, mas não pôde deixar de notar quando ela pediu à amiga para lhe entregar aquele calhamaço de material de revisão de inglês. Isso fez com que passasse a vê-la sob outra luz.
Talvez, pensou ele, aquela beldade não fosse tão arrogante e insuportável quanto aparentava. Talvez, quem sabe, o antigo ele tivesse alguma pendência com ela.
De todo modo, concluiu que devia haver algum mal-entendido entre eles.
Na verdade, não seria estranho que houvesse. Ele, afinal, já não era o mesmo de antes, e ela não tinha como saber disso.
Como a amiga lhe dissera, ele só havia brigado com rapazes até então. Embora, na noite anterior, tenha ameaçado a outra colega na porta da sala, acabou se contendo. Se quisesse mesmo partir para a violência, ninguém o impediria, nem mesmo sua irmã.
Não o fizera, principalmente porque a colega era uma garota, e ele, sendo quem era, não se sentia à vontade de agredir uma moça por meras picuinhas. Sempre viu as birras femininas como algo a tolerar, caso contrário, há muito teria perdido a paciência com aquela outra amiga de personalidade forte, e jamais teria passeado com ela pela cidade uma tarde inteira.
O tempo dele não era assim tão fácil de desperdiçar. Se não quisesse fazer algo, ninguém o obrigaria, nem mesmo para lhe comprar presentes.
Quando percebeu que ele fugia das perguntas, desviando o assunto, ela pensou que o havia encurralado.
A colega achava que a outra amiga estava certa: ele já não era mais o mesmo rapaz de antes, agora precisava cuidar de seu orgulho masculino.
Mordeu o lábio, encarando-o com olhos cheios de mágoa.
— Muito bem. Se não quer responder, deixemos isso para depois. Mas me diga, por que pegou meus mil reais ontem?
No entendimento dela, ele havia pego o dinheiro da mesa apenas para chamar sua atenção e provocar-lhe raiva, aproveitando para recuperar sua autoestima de homem.
Para ele, no entanto, era simples responder. Sorriu de canto de boca:
— Ei, cuidado com as palavras. Não roubei, apenas peguei! E era o dinheiro do Tang Meng, não o seu. Era o que me era devido, não tem nada a ver com você.
— Você! — ela se decepcionou com a resposta, sentindo uma mistura de frustração e raiva.
A verdade é que, no fundo, ela já não se importava tanto com as atitudes dele. Um garoto que mudara tanto, querendo afirmar sua autoestima, cometendo alguns excessos, era algo que ela podia compreender. Só queria uma explicação, um motivo para perdoá-lo, sem perder a própria dignidade. Afinal, era a musa da escola, e precisava proteger sua imagem.
Mas ele parecia ser de uma teimosia inabalável, sem perceber isso.
Mordeu os dentes, balançando a cabeça com raiva:
— Muito bem! Muito bem! Muito bem! — repetiu três vezes, antes de explodir — Então, aquela frase, “tão grande, tão alto, tão...”, o que queria dizer com aquilo?!
Mesmo moderna e desinibida, ela ainda era uma jovem de coração ingênuo, uma flor delicada. Não teve coragem de pronunciar o último adjetivo.
— Hum... isso... — ele percebeu que a situação se complicava. Não imaginava que ela tivesse ouvido aquelas palavras, nem que tivesse os ouvidos tão atentos.
— Fale! Por que não repete? Se tem coragem, diga de novo! — sempre que se lembrava daquilo, ela não conseguia conter a raiva, já à beira de explodir.
Com a respiração acelerada, o peito subia e descia intensamente, tornando-a ainda mais atraente.
Ele não se intimidava com provocações. Olhou descaradamente para o busto volumoso e trêmulo da colega, assentiu em aprovação e exclamou:
— De fato, é grande, alto e firme! Por que não diria isso?
— Canalha! Vou te dar uma lição! — fora de si, ela esqueceu que estavam em público e desferiu um chute certeiro contra o peito dele.
Era um chute rápido, ainda mais veloz e agressivo que o ataque da véspera feito por Tu Gang.
— Vão brigar! — comentou alguém do grupo que assistia à cena diante do dormitório masculino.
— Que chute! Subiu alto e rápido, acertou em cheio o peito dele! Essa garota é brava demais!
— Pronto, ele vai levar esse chute. De tão perto e de surpresa! Nossa musa da escola é realmente destemida!
— Aposto que ela tem base em dança, só assim para levantar tanto a perna! Que flexibilidade...
Ninguém ali parecia se preocupar se ele conseguiria se esquivar ou não; todos admiravam a ousadia e a graça do chute.
— Irmão! — exclamou Ning Lingyu, apavorada.
A trinta metros, ela não ouvira a conversa, mas viu o chute e se assustou.
Quis correr até eles, mas Tang Meng segurou-lhe a manga, sorrindo:
— Fique tranquila, ele vai escapar fácil.
Afinal, se ontem ele esquivara-se com tanta leveza do ataque brutal de Tu Gang, não era esse chute que o pegaria.
Tang Meng conhecia bem os conflitos entre os dois; sabia que aquilo era apenas uma questão de tempo.
Entre desafetos, que resolvessem as coisas sozinhos.
Quando alguns já avançavam para ver de perto, Tang Meng berrou:
— Quem ousar se aproximar vai direto pro chão, acreditam?
Sua fama bastou para fazer todos recuarem. Não valia a pena apanhar só para ver a confusão.
Até Zhang Ling, que já corria adiante, parou e lançou um olhar furioso para Tang Meng, antes de voltar a observar a cena.
O chute de Cao Shanshan foi fulminante; em um piscar de olhos, a perna já estava na altura do peito dele.
— Ué, vai mesmo chutar? — Ele sorriu, pensando que, antes de avançar em seu treinamento, dificilmente se esquivaria. Mas, agora, era outra história.
Sem mover os pés, apenas inclinou levemente o corpo. Quando o pé dela se aproximou, ele agarrou-lhe o tornozelo com a mão esquerda, erguendo suavemente.
A perna dela pousou sobre seu ombro; ele avançou um passo largo, aproximando os corpos.
Os dois ficaram colados, inseparáveis.
Para ela, foi um desastre. A posição era escandalosa, sugestiva, impossível de não provocar fantasias.
Com uma perna sobre o ombro dele e o corpo puxado para frente, suas pernas ficaram em linha reta, coladas ao dele. O jeans justo realçava a elegância e o comprimento de suas pernas.
E, para completar, ele ainda apoiou a mão na sua cintura, segurando-a com delicadeza, temendo que ela perdesse o equilíbrio.
A diferença de altura entre eles era mínima; agora, com ela na ponta do pé, seus corpos se encaixavam perfeitamente, numa intimidade total.
Um vexame sem igual.
A cena, vista por todos, era explosiva, ardente, de um erotismo escancarado...
Estavam lutando ou namorando? Mesmo num número de patinação artística seria difícil reproduzir tal perfeição e proximidade.
Naquele instante, todos os rapazes sentiram o coração despedaçar. Sua musa estava nos braços daquele rapaz!
Pega de surpresa, sentindo o corpo absorver o cheiro marcante e dominador dele, ela ficou paralisada, quase esquecendo que estavam em público.
Quando voltou a si, tomada pela vergonha, reagiu desferindo socos com ambas as mãos, como chuva, contra ele.
— Solta-me! — gritou, debatendo-se.
Ele, ainda segurando o tornozelo dela, notou a pele macia e perfumada da perna, e não resistiu em se inclinar, inspirando o aroma.
— Hum, como imaginei, muito perfumada! — comentou, assentindo com satisfação.
O rosto dela ficou escarlate, o corpo inteiro tremendo de vergonha e raiva. Nunca, em toda a vida, permitira tamanha intimidade a qualquer rapaz. Nem mesmo seu irmão, Cao Tianlong, lhe dera um abraço mais demorado.
Ele, indiferente aos socos inofensivos, baixou o olhar, admirando de perto o busto dela, deformado pelo contato, e brincou:
— De fato, é grande, redondo, alto, firme, além de perfumado e alvo...
Ao longe, Zhang Ling ficou boquiaberta, sem conseguir acreditar no que via.
— Céus! Será que estou delirando? Que cena mais ousada!
Logo, porém, sorriu, murmurando para si: “Shanshan, talvez seja isso o que você mais deseja, mesmo sem admitir.”
Ning Lingyu, vendo o irmão agir assim, corou profundamente.
“Ele é terrível! Como Cao Shanshan vai encarar as pessoas depois disso?”
Ao mesmo tempo, ao ver os dois tão próximos e íntimos, sentiu algo estranho dentro de si, um incômodo súbito, como se uma agulha a tivesse picado.
Tang Meng, com a boca escancarada, murmurou:
— Esse é o chefe! Sempre surpreendente, imprevisível!
Jamais Cao Shanshan imaginou que, ao atacar furiosa, acabaria naquela situação.
Aquele chute provocou uma onda que agitou todo o colégio.
Sem dúvida, aquela cena seria a mais lendária e romântica da história da escola, uma lembrança inesquecível para todos os que a presenciaram.