Capítulo 054: A Jovem das Terras de Miao
O Doutor Xue assentiu com satisfação, enquanto Ling Yun se agachava para retirar as agulhas. Em comparação com a aplicação, a remoção das agulhas era muito mais simples, mas a ordem em que eram retiradas era de suma importância. Dependendo da doença, havia uma sequência correta a ser seguida, jamais podendo ser feita de maneira aleatória ou descuidada, pois isso certamente traria sérios problemas.
Com uma breve concentração, Ling Yun agiu com destreza e retirou rapidamente todas as nove agulhas douradas.
— Senhor, o parasita em seu corpo está sob meu controle. Durante os próximos dois meses, ele não causará mais danos à sua saúde, pode ficar completamente tranquilo — afirmou Ling Yun. — Daqui a dois meses, vou expulsá-lo de seu corpo e eliminar de vez essa ameaça.
Quando Ling Yun aceitava tratar alguém, era sempre para solucionar o problema por completo; abandonar o tratamento pela metade não fazia parte de seu caráter. Por isso, sem esperar que o Doutor Xue e sua neta perguntassem, ele já adiantou a explicação. Sua habilidade impressionou tanto o médico quanto Xue Meining, que assentiram em aprovação.
Ling Yun estava confiante de que, em dois meses, alcançaria o auge do fortalecimento corporal. Nessa época, sua energia interna seria ao menos duzentas vezes maior que agora e ele teria total domínio sobre ela. Expulsar o parasita do corpo do Doutor Xue, então, seria tarefa simples.
O velho médico, sentindo-se muito melhor, levantou-se e fez alguns alongamentos leves. De repente, lembrou-se de algo, bateu na testa e perguntou solicito:
— Ling Yun, você já almoçou?
Quando ele chegara, passava pouco do meio-dia. Considerando o horário em que Xue Meining saía da escola, o Doutor Xue deduziu que Ling Yun não teria tido tempo de almoçar.
Ling Yun, já com o estômago roncando, riu sem graça e respondeu:
— Senhor, assim que saí do colégio fui trazido por sua preciosa neta direto para cá. Onde teria eu tempo para comer?
O Doutor Xue lançou um olhar severo para a neta e, com tom levemente repreensivo, disse:
— Que imprudência, Meining! Antes de trazer Ling Yun, deveria ao menos tê-lo convidado para comer alguma coisa. Já são quase duas da tarde! Se ele ficar doente de fome, o que faremos?
Xue Meining murmurou, sentindo-se injustiçada:
— Achei que ele viria, aplicaria as agulhas e iria embora... Como eu saberia que vocês começariam a se consultar mutuamente? Além disso, ele está de dieta, pular uma refeição não faz mal, não é? Hihi...
Ling Yun suava. “Essa pequena feiticeira acha mesmo que dieta é motivo para pular refeições?”
O Doutor Xue acenou para a neta e ordenou:
— Meining, pare de ficar aí parada. Arrume as coisas do Ling Yun e levem tudo, depois vão juntos comer alguma coisa.
Ele apontou para a caixa de jade e o estojo de madeira de sândalo onde estavam as agulhas.
Ling Yun ficou surpreso; olhando para as nove agulhas douradas em sua mão, disse:
— Senhor, já estou com as agulhas de ouro e prata. Acho que não preciso da caixa de jade nem do estojo de madeira...
Ele percebia que ambos eram objetos de grande valor.
O Doutor Xue admirou-se com a atitude de Ling Yun e, balançando a cabeça, disse:
— Ling Yun, essas agulhas ficaram guardadas nessas caixas por décadas. Não faz sentido separá-las. Além disso, já que estou lhe dando as agulhas, de que serviriam as caixas para mim?
Diante de tamanha generosidade, Ling Yun não insistiu. Afinal, se alguém faz questão de lhe dar um bom presente, não há por que recusar.
Desta vez, Xue Meining não fez objeções. Ágil, colocou a caixa de jade dentro do estojo de madeira e, de lado, perguntou para Ling Yun:
— Quer colocar tudo aqui dentro?
Ling Yun considerou que carregá-los seria mais fácil assim, então assentiu e aproximou-se.
Depois de tudo arrumado, o Doutor Xue recomendou:
— Meining, já que Ling Yun não vai tomar banho, leve-o logo para comer! Vão ao restaurante à beira do Lago Qing Shui, eles preparam peixes deliciosos. Vão até lá.
— Depois de comer, comprem algumas roupas novas. Não se preocupe com o dinheiro, eu reembolso vocês!
Ling Yun ficou tão emocionado que quase chorou: “Este senhor é mesmo atencioso, uma verdadeira bênção!”
Esse é o benefício de salvar vidas: as pessoas lembram de sua bondade do fundo do coração.
Xue Meining, de lábios carnudos e bem delineados, lançava olhares furtivos e divertidos para Ling Yun, pensando: “Que tipo de pessoa é essa? Basta falar em comida e roupas que logo revela sua verdadeira natureza!”
— Vovô, o verão está chegando e o calor aumenta a cada dia. Também quero comprar algumas roupas novas para a estação... — comentou a pequena feiticeira, aproveitando a oportunidade.
O Doutor Xue, de ótimo humor, consentiu imediatamente:
— Compre, compre! Leve Ling Yun com você...
Ambos pareciam ter esquecido que Ling Yun tinha aula à tarde — e, claro, ele mesmo já não se lembrava disso.
O Doutor Xue acompanhou os dois até a porta, observando-os saírem juntos. Um leve sorriso misterioso surgiu em seus lábios, como se tivesse lembrado de algo importante.
— Que comece logo a dieta... — murmurou enquanto voltava para dentro.
De volta ao interior da casa, o Doutor Xue pegou o telefone e, satisfeito, discou um número.
***
No sul da China, na divisa entre Yunnan e Guizhou, no coração das Montanhas Miao.
A aldeia dos Miao.
Um verdadeiro refúgio isolado do mundo, onde tudo destoava do esplendor das grandes cidades. Se fosse preciso resumir em uma palavra: primitivo.
Ainda assim, o vale era de beleza exuberante, com águas límpidas, canto de pássaros e perfume de flores. Um riacho cristalino serpenteava diante da aldeia, suas águas brilhando sob o sol, compondo um cenário digno de um paraíso terrestre.
Às margens do rio, algumas jovens miao de pele clara e feições delicadas, enfeitadas com trajes coloridos e joias de prata, brincavam descalças na água, lavando os pés e os cabelos, rindo alto enquanto as joias tilintavam suavemente.
Exalavam uma pureza típica das minorias étnicas.
Depois de algum tempo brincando, talvez cansadas, talvez por insistência da mais jovem, interromperam a diversão e se sentaram nas pedras frias da margem para descansar. Mas todas olhavam curiosas para a garota que pedira trégua, questionando-a em dialeto local.
— Miao Xiaomiao, você acabou de voltar de fora, conta pra gente como é o mundo lá fora?
Uma das jovens, de cerca de vinte anos, olhava para Miao Xiaomiao cheia de expectativa e curiosidade.
— Isso mesmo, Xiaomiao, conta pra gente... Você já aprendeu a falar como os han? Como são os homens de fora? — instigou outra.
Esta aldeia era diferente das demais, pois seus habitantes eram chamados “miao puros”, ainda praticantes das artes dos gu.
Os “miao puros” são aqueles que nunca foram assimilados pela cultura han, vivendo isolados em suas aldeias, mantendo seu próprio idioma. São conhecidos por seu temperamento forte, lealdade e bravura; as moças, por sua paixão ardente e coragem.
A juventude é curiosa por natureza. Embora tenham crescido isoladas, sonhavam e fantasiavam com o mundo exterior.
Miao Xiaomiao, com cerca de dezessete anos, vestia trajes ainda mais vistosos e repletos de prata, reflexo de sua posição na aldeia. Sua beleza natural era acentuada pelos enfeites, irradiando uma vivacidade rara.
Ainda de pés descalços na água cristalina, exibia mais de um metro e setenta de altura, corpo esbelto e sedutor, o traje tradicional não conseguia ocultar suas curvas. As pernas, à mostra sob a saia plissada, eram de uma brancura e delicadeza superiores à flor de lótus; os pés, pequenos e perfeitos, pareciam esculpidos em jade puro, atraindo todos os olhares.
Sua pele era alva como a neve, cabelos negros como a noite, sobrancelhas arqueadas como luas crescentes, nariz delicado, lábios pequenos, queixo afilado e pescoço gracioso. Mas o mais marcante eram seus olhos: grandes, vivos, cheios de inteligência e determinação, que, ao sorrir, se suavizavam como a brisa da primavera, aquecendo qualquer coração.
As outras jovens, cada uma bela à sua maneira, empalideciam diante de Miao Xiaomiao, como estrelas ofuscadas pelo luar, galinhas diante de uma fênix.
Xiaomiao, ainda amuada por ter sido alvo das brincadeiras, fez beicinho, desviando o olhar para o mar de flores amarelas ao longe, ignorando as perguntas.
Logo, porém, não resistiu e sorriu, os olhos se tornando luas crescentes.
— Querem mesmo saber como é o mundo lá fora? Então vão ver por si mesmas! — provocou com voz melodiosa.
A jovem de pele clara, indignada, espirrou água nela:
— Você acha que não queremos? Mas pense, Xiaomiao, qual é o seu status na aldeia e qual o nosso? Sair daqui não é tão simples!
Rindo, Xiaomiao esquivou-se dos respingos com passos leves:
— Está bem, está bem, eu conto...
Deu alguns passos delicados, sentou-se entre as amigas, ajeitou-se sobre uma pedra lisa e, com voz clara como canto de rouxinol, relatou:
— O lugar que visitei se chama Hudong. Lá, os edifícios são altíssimos, mais altos que aquela montanha! — Apontou para um pico distante de duzentos metros.
As jovens entreolharam-se, encantadas e admiradas.
— Lá fora também há carruagens que correm muito rápido pelas ruas... — continuou Xiaomiao.
Na aldeia, havia uma casa isolada, distante das demais. Ali, uma mulher belíssima estava sentada. Pelo rosto, ninguém acreditaria que ela já passava dos sessenta anos; aparentava ter menos de quarenta. Era fácil imaginar que, em sua juventude, rivalizaria em beleza com a própria Miao Xiaomiao.
No entanto, naquele momento, seu semblante estava pálido, com vestígios de sangue nos lábios, e ela olhava, incrédula, para a poça de sangue no chão, visivelmente abalada.
Era a “Fênix Miao”, como mencionara o Doutor Xue. O sangue era seu.
Logo que Ling Yun começou a aplicar as Nove Agulhas Espirituais, ela, a quilômetros de distância, percebeu imediatamente. As milenares artes dos gu de Miao tinham poderes extraordinários.
Ling Yun usou as Nove Agulhas Espirituais para suprimir o parasita que Fênix Miao plantara no corpo do Doutor Xue, mas ela, relutante em perder o controle, tentou comandar o gu à distância, forçando-o a resistir dentro da barreira de energia criada pelas nove agulhas.
No entanto, Ling Yun operava com energia vital e as Nove Agulhas Espirituais, além de aplicar as agulhas ali, no local; enquanto Fênix Miao só podia resistir de longe. O resultado era óbvio: ela não conseguiu sustentar a disputa e foi rapidamente derrotada.
Quando Ling Yun terminou, o gu ficou completamente imobilizado e Fênix Miao perdeu quase toda a conexão com ele, cuspindo sangue violentamente.
Os olhos belos, ainda que ligeiramente marcados pelo tempo, refletiam a dor que sentia.
— Xue Zhengqi, não imaginei que encontraria alguém capaz de subjugar meu Gu do Esquecimento e do Coração!