Capítulo 046 Quem é mesquinho?
— Vai comprar agulhas de prata para espetar as pessoas por diversão? Então nem precisa comprar, em casa tenho de sobra! — exclamou Xue Meining, rindo tanto que mal conseguia se conter. Só quando finalmente se acalmou, continuou: — Sério mesmo, tenho muitas em casa. Não só de prata, até de ouro temos aos montes. Pode escolher a vontade!
— Até de ouro? Quanto custa cada uma? — perguntou Ling Yun, surpreso, achando difícil acreditar numa sorte dessas, justo quando pensava em comprar, alguém aparece oferecendo de presente.
— Não custa nada, vou pedir pro meu avô. Ele vai dar pra você — respondeu Xue Meining, orgulhosa, balançando a cabeça animada, suas longas tranças dançando no ar.
— Quem é você, afinal? Veio aqui só pra me provocar? — Ling Yun desconfiou, não acreditando em milagres. Se descobrisse que Xue Meining estava só brincando, não hesitaria em se irritar. Não era homem de desperdiçar tempo à toa. Se confirmasse a provocação, daria umas boas palmadas naquela bunda empinada e redonda dela.
— Você é incrível, hein? Agora há pouco estava todo sorridente, e já ficou bravo — resmungou Xue Meining, fazendo bico, frustrada por seu esforço ter sido em vão.
— Deixa eu te lembrar: ontem, quando você corria com o saco de areia, lembra quem foi a primeira a começar a correr junto com você? Eu corri até o final, fiquei exausta!
Ling Yun pareceu recordar. Realmente, depois de algumas voltas, uma jovem alta o acompanhou, incentivando-o. Ele estava tão exausto que mal enxergava direito, mas lembrava vagamente de uma garota alta atrás dele. Agora sabia que era ela.
— Ah... — Ling Yun prolongou a resposta, fingindo uma repentina lembrança. — Então era você! Diga logo, o que quer comigo?
— Não sou eu que quero falar com você, é meu avô. Não precisa mais comprar agulhas de prata. Se agradar meu avô, pode escolher qualquer agulha que quiser! — disse ela, com um toque de desdém.
— Sério? Quem é seu avô? Por que ele tem tantas agulhas em casa? Também gosta de espetar os outros por diversão? — Ling Yun desconfiou novamente.
— Deixa de besteira! Meu avô é um velho médico chinês, as agulhas são pra tratar pessoas, não é como você, que não tem o que fazer! — retrucou Xue Meining com um olhar impaciente.
Enquanto falava, ela acenou e um táxi parou em frente aos dois.
— O que está esperando? Entra logo! — disse, puxando Ling Yun pelo braço e o arrastando para o banco de trás.
— Como ainda está tão gordo? Ontem correu à toa, não emagreceu nada! — comentou ela, apertada ao lado de Ling Yun, pois ele ocupava quase todo o espaço, obrigando-a a sentar parcialmente em sua coxa.
O perfume e o calor do corpo daquela jovem atravessavam o tecido do agasalho esportivo de Ling Yun, fazendo seu coração bater mais forte e provocando arrepios.
— Para onde vão, colegas? — perguntou o taxista.
— Lago Água Clara, condomínio Villas do Riacho Claro!
— Pode deixar!
O Lago Água Clara ficava no distrito de Lago Claro, sendo o ponto turístico mais famoso da cidade de Água Clara, reputado em todo o país. O condomínio Villas do Riacho Claro localizava-se ao sudeste do governo distrital, não muito longe do centro administrativo da cidade.
Na verdade, o condomínio já estava dentro da área do parque do Lago Água Clara. Todas as casas eram voltadas para o sul, com as costas para as montanhas e de frente para a água. Árvores exuberantes, riachos cristalinos, o som suave da correnteza que, ao final, desaguava no lago. Era um lugar de beleza singular, onde o sol brilhava, os pássaros cantavam e as flores exalavam fragrância. Morar ali era privilégio somente de gente rica e poderosa.
Assim que chegou, Ling Yun sentiu que a energia do lugar era muito mais densa que na escola, e embora ainda não conseguisse absorvê-la, já a sentia nitidamente sem precisar se concentrar. Abriu a janela e respirou fundo o ar puro e fresco, sentindo-se revigorado.
— Você nunca veio aqui, não é? Por que essa cara de encantamento? — perguntou Xue Meining, achando graça. Para ela, qualquer morador da cidade já teria visitado aquele lugar.
Ling Yun lançou-lhe um olhar de desdém, como quem diz: "Você não entende nada", e nem se deu ao trabalho de responder.
Xue Meining entendeu o olhar. Furiosa, apertou com força a pele gorda do braço dele com o polegar e o indicador.
— Ai! — reclamou Ling Yun, irritado, devolvendo o olhar ameaçador.
— Quem mandou me olhar daquele jeito? — retrucou ela, sem se intimidar.
Decidido a não ficar por baixo, Ling Yun, disfarçadamente, beliscou a coxa descoberta da garota. Ela gritou de dor, atraindo a atenção dos turistas que passeavam por ali.
— Como pode fazer isso? Eu sou uma garota, seu pão-duro! — protestou ela, quase chorando, as lágrimas já brilhando nos olhos.
Tão macia, tão suave! Ling Yun, no entanto, saboreava mentalmente a sensação do toque na pele dela, satisfeito consigo mesmo. "Quero ver se essa pestinha vai ousar me provocar de novo!"
O taxista, vendo tudo pelo retrovisor, ficou constrangido e, ao mesmo tempo, desprezou Ling Yun: "Um gordo desses se atreve a pôr a mão numa moça tão bonita!"
Xue Meining ficou furiosa, mas percebeu que o gordo não tinha dó de mulher bonita, então preferiu não revidar.
Três minutos depois, ela pediu ao motorista que parasse e desceu. Ling Yun foi atrás, mas, ao tentar sair, o motorista lembrou:
— Senhor, ainda falta pagar a corrida: trinta e seis e cinquenta!
Ling Yun virou-se para Xue Meining:
— Ei, Ning’er, você ainda não pagou, trinta e seis e cinquenta...
A garota, indignada, bateu o pé:
— Não tenho dinheiro! Quero ver como você vai descer! — e saiu andando em direção ao portão do condomínio.
Ela já se arrependia de ter falado demais. Por que foi contar ao avô que ele correu onze voltas carregando saco de areia? Em poucos minutos, a imagem heroica que Ling Yun tinha construído no coração dela havia se transformado em pão-duro.
Ling Yun olhou para as costas perfeitas da garota, incrédulo: "Se não tinha dinheiro, por que pegou táxi?"
O motorista, ansioso, esperou enquanto Ling Yun, resignado, tirou trinta e sete reais do bolso.
— Pode ficar com os cinquenta centavos — disse.
Assim que Ling Yun desceu, o taxista arrancou com o carro, fazendo questão de mostrar o dedo do meio pela janela, indignado com tamanha mesquinharia.
Ling Yun logo alcançou Xue Meining, sorrindo:
— Que lugar de energia boa! Vocês moram aqui?
As casas eram belas, de tijolos vermelhos, telhados verdes, paredes brancas, cercadas de árvores e gramados impecáveis. Algumas tinham jardins de flores raras, exalando perfume, um verdadeiro refúgio para o espírito.
Xue Meining, ainda aborrecida, ignorou-o completamente. "Ser convidado por mim já é um privilégio, ousar beliscar minha coxa e ainda querer que eu pague o táxi?"
— Em qual casa você mora?
— Chegamos! — respondeu ela, parando diante de uma mansão imponente, isolada das outras, cercada por um jardim enorme e silencioso.
— Que cheiro forte de ervas... e quanta energia! — pensou Ling Yun, percebendo, sem esforço, que ali se cultivavam plantas medicinais raras.
"Então o avô da pestinha é mesmo um grande médico. Mas como soube de mim? Por que me chamou aqui?"
— Ning’er, por que não entra?
— Não me chame de Ning’er, me chame de Xue Meining. E, por favor, seja respeitoso com meu avô. Ele não aguenta gente pão-duro — alertou ela, agora séria.
— Eu pão-duro? Você que não pagou o táxi e ainda quer me culpar. Quem é o pão-duro aqui? — retrucou Ling Yun.
— Você... — Xue Meining ficou sem palavras, jamais conhecera alguém como ele.
— Ning’er, voltou? Traga seu amigo pra dentro! — ouviu-se uma voz idosa, cheia de autoridade.
— Vovô, estou de volta... — disse Xue Meining, abrindo a porta com voz doce e carinhosa, já sem o jeito atrevido de antes.
Ling Yun entrou sem cerimônia, observando atentamente o jardim, até focalizar um idoso sentado sob uma romãzeira. Mesmo sentado, notava-se sua imponência física, cabelos brancos como neve, pele rosada, feições enérgicas e olhar vivo. Vestia um traje tradicional chinês vermelho, girando duas esferas de metal nas mãos com movimentos precisos, enquanto observava Ling Yun com olhos atentos e profundos.
Ling Yun também o observava, admirando a força e firmeza das mãos do velho.
— Jovem, você é o Ling Yun de quem minha neta tanto fala? — perguntou o velho.
— O senhor é... Mestre Xue? — respondeu Ling Yun.
— Ei, você sabe o que é respeito? Chame-o de avô! — repreendeu Xue Meining.
O velho Mestre Xue, porém, não se incomodou. Sorriu cordialmente para Ling Yun:
— Ling Yun, estou velho, só tenho essa neta, acabei mimando demais. Não leve a mal...